{"id":18049,"date":"2025-02-28T00:19:39","date_gmt":"2025-02-28T03:19:39","guid":{"rendered":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=18049"},"modified":"2025-02-28T07:07:28","modified_gmt":"2025-02-28T10:07:28","slug":"o-que-se-cobra-de-pessoas-negras-no-mundo-academico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=18049","title":{"rendered":"O que se cobra de pessoas negras no mundo acad\u00eamico"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-large alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/foto-gislene-aparecida-dos-santos-28.02.25-OIP.jpg?resize=150%2C150&#038;ssl=1\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Gislene Aparecida dos Santos*<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Em 28.02.2025<\/em><\/p>\n<p>Escrevi um texto para reflex\u00e3o intitulado\u00a0<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/12nNKponEu34Abl3K7UBRCXkSrmb1dnNW\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Racismo institucional, medos, amea\u00e7as e outros males<\/em><\/a>. Nele, entre outros aspectos, discuto o que se cobra das pessoas negras para que sejam toleradas no mundo acad\u00eamico. N\u00e3o digo aceitas porque a aceita\u00e7\u00e3o, de meu ponto de vista, envolve tratamento igualit\u00e1rio, que \u00e9 o contr\u00e1rio de hierarquiza\u00e7\u00f5es, discrimina\u00e7\u00f5es, desumaniza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancias.<\/p>\n<p>A equidade diz respeito a criar mecanismos por meio dos quais se enfrente as desigualdades raciais estruturadas nas sociedades. O tolerar \u00e9 algo muito menor. Se tolera coisas e pessoas se determinadas condi\u00e7\u00f5es forem cumpridas ou se somos obrigados a \u201caceitar\u201d o que ou quem, espontaneamente, n\u00e3o aceitar\u00edamos. Eu penso que seja esse o lugar que as pessoas negras ocupam nas universidades de hoje, no Brasil: s\u00e3o toleradas, quando muito.<\/p>\n<p>Pessoas negras, se quiserem ser toleradas, precisam preencher alguns pr\u00e9-requisitos que as tirem do campo da amea\u00e7a. Para isso, devem embranquecer concreta ou simbolicamente. Concretamente, isso se associa a ter maior \u201cpassabilidade\u201d, se aproximando mais da brancura socialmente desejada. Simbolicamente, as \u201cpossibilidades\u201d de embranquecimento s\u00e3o enormes, mas todas se resumem ao que se definiu como tentar se aproximar do que a branquitude entende como positivo, correto, razo\u00e1vel ou importante em todos os sentidos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Assim, espera-se que as pessoas negras, para serem toleradas:<\/p>\n<p>a) Sejam simp\u00e1ticas e elegantes. O problema \u00e9 o que se entende por eleg\u00e2ncia e se nela cabem todos os tipos de corpos humanos e etiquetas ou somente \u00e9 a mimetiza\u00e7\u00e3o de um \u00fanico tipo e comportamento. Esteticamente, at\u00e9 os cabelos de pessoas negras devem ser vistos como n\u00e3o amea\u00e7adores. N\u00e3o \u00e0 toa os cabelos das pessoas negras, em especial de mulheres negras, s\u00e3o criticados e literalmente monitorados de v\u00e1rias formas. Devem estar alisados, pois se aparentam com aquilo que a branquitude entende como \u201celeg\u00e2ncia\u201d. Quando tran\u00e7ados, soltos, ou penteados de qualquer outra forma, podem at\u00e9 ser tolerados em algumas situa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o ser\u00e3o considerados elegantes.<\/p>\n<p>b) Sejam discretas ou fiquem invis\u00edveis n\u00e3o gerando inc\u00f4modos.<\/p>\n<p>c) N\u00e3o formem guetos, ou seja, n\u00e3o se aproximem de outras pessoas negras. Isso significa isolar, criticar, \u00e0s vezes perseguir, \u00e0s vezes prejudicar as pessoas negras entendidas como n\u00e3o assimiladas. H\u00e1 uma frase interessante em um document\u00e1rio que diz que uma pessoa negra pode ser uma convidada bem aceita em algumas situa\u00e7\u00f5es. Duas pessoas negras j\u00e1 s\u00e3o consideradas um gueto, tamanho o imagin\u00e1rio em torno do que ser negro representa e os perigos associados a isso.<\/p>\n<p>d) Ajam como brancas (\u201c<em>act white\u201d,<\/em>\u00a0diziam os cr\u00edticos do assimilacionismo em refer\u00eancia ao comportamento de pessoas negras que negavam suas origens). Em sociedade de hegemonia da branquitude, o que \u00e9 considerado normal \u00e9 o comportamento das pessoas brancas. Assim, se algu\u00e9m \u201cquer\u201d ser tolerado tem que imitar esse comportamento, mesmo que isso envolva a total nega\u00e7\u00e3o de si. N\u00e3o se atenta para o fato de que pessoas possam viver de modos diversos. Ou seja, as pessoas negras precisam se deixar assimilar. No Brasil, isso \u00e9 evidente quando se observa as persegui\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas religiosas associadas \u00e0 matriz africana, por exemplo.<\/p>\n<p>e) Devem se aproximar e ter pessoas brancas como modelos de ser e viver. Algu\u00e9m j\u00e1 disse que racismo \u00e9 um crime ontol\u00f3gico. Cercar-se de pessoas brancas \u00e9 um excelente sinal de que n\u00e3o se \u00e9 uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>f) Absolutamente n\u00e3o devem falar sobre racismo.<\/p>\n<p>g) Devem se dispor a demarcar diferen\u00e7as entre elas e outras pessoas negras demonstrando que est\u00e3o comprometidas com o processo de assimila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>h) Devem \u201cse limpar\u201d o m\u00e1ximo que puderem de signos e s\u00edmbolos que remetam \u00e0 negritude.<\/p>\n<p>i) Devem ser subservientes demonstrando que entendem as regras que asseguram a hegemonia da branquitude e que n\u00e3o est\u00e3o interessadas em revert\u00ea-las, desafi\u00e1-las ou alter\u00e1-las.<\/p>\n<p>j) Devem aceitar que por maior que seja a subservi\u00eancia isso n\u00e3o as torna complemente confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>k) Devem trabalhar muito mais do que todos os outros, j\u00e1 que, al\u00e9m do trabalho regular, devem acrescentar a isso o trabalho associado ao pagamento das taxas de embranquecimento e de compensa\u00e7\u00e3o pelo estigma. Somada \u00e0 cobran\u00e7a de taxas, h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m negro esteja em d\u00e9bito se tal pessoa n\u00e3o pagou a taxa de embranquecimento.<\/p>\n<p>Em resumo, o que eu chamo de taxa de embranquecimento ou taxa de compensa\u00e7\u00e3o pelo estigma \u00e9 o processo que naturaliza o tratamento dispensado a pessoas negras como se sempre devessem algo a outros e \u00e0 sociedade, ou seja, estivessem sempre socialmente \u201cnegativadas\u201d e precisassem pagar por esse d\u00e9bito dando diferentes demonstra\u00e7\u00f5es de que \u201caceitam\u201d a total nega\u00e7\u00e3o de si mesmas, o que impede que desenvolvam autoestima. Devem, ainda, realizar o esfor\u00e7o e o trabalho cont\u00ednuo, cotidiano e intenso para serem toleradas nesses espa\u00e7os que as negam e n\u00e3o as reconhecem como detentoras de direitos, dignidade, m\u00e9ritos e humanidade.<\/p>\n<p>\u00c9 tido como natural\/normal ter expectativas de que pessoas negras se comportem como descrito acima e \u00e9 visto com estranhamento e maior desconfian\u00e7a quem se porte de outros modos. Portar-se de outro modo, se negando ao pagamento de taxas de embranquecimento e <em>de compensa\u00e7\u00e3o pelo estigma, \u00e9 um processo de resist\u00eancia e luta contra essa estrutura de poder.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>*Gislene Aparecida dos Santos<\/strong>, professora da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades (EACH) da USP<\/em><\/p>\n<p><em>Imagem: Web<\/em><\/p>\n<p><em>Artigo publicado originalmente no Jornal da USP<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gislene Aparecida dos Santos* Em 28.02.2025 Escrevi um texto para reflex\u00e3o intitulado\u00a0Racismo institucional, medos, amea\u00e7as e outros males. 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