{"id":19922,"date":"2025-07-29T06:25:03","date_gmt":"2025-07-29T09:25:03","guid":{"rendered":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=19922"},"modified":"2025-07-29T06:25:03","modified_gmt":"2025-07-29T09:25:03","slug":"ha-5-anos-a-estetica-do-liso-como-desfiguracao-do-belo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=19922","title":{"rendered":"H\u00c1 5 ANOS &#8211; A est\u00e9tica do liso como desfigura\u00e7\u00e3o do belo"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Nelino Azevedo de Mendon\u00e7a*<\/em><\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"815\" data-permalink=\"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?attachment_id=815\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/PHOTO-2020-06-07-22-00-57-NELINO-2.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"640,640\" data-comments-opened=\"1\" data-image-title=\"PHOTO-2020-06-07-22-00-57 NELINO 2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/PHOTO-2020-06-07-22-00-57-NELINO-2.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" class=\"size-medium wp-image-815 alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/PHOTO-2020-06-07-22-00-57-NELINO-2.jpg?resize=300%2C300&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/PHOTO-2020-06-07-22-00-57-NELINO-2.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/PHOTO-2020-06-07-22-00-57-NELINO-2.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/PHOTO-2020-06-07-22-00-57-NELINO-2.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Vivemos um momento muito mais de adaptabilidade e de aus\u00eancia de resist\u00eancia do que de transgress\u00e3o emancipat\u00f3ria. Adaptar \u00e9 uma forma desumanizante de se referir a seres humanos, pois expressa uma coisifica\u00e7\u00e3o do ser, uma objetifica\u00e7\u00e3o do humano, como se pud\u00e9ssemos no ajustar, numa esp\u00e9cie de justaposi\u00e7\u00e3o, a qualquer outra coisa ou situa\u00e7\u00e3o. Adaptar n\u00e3o \u00e9 da condi\u00e7\u00e3o humana, mas de coisas e objetos. Por isso, muito me assusta quando vejo <em>outdoors<\/em> em letras garrafais anunciando que determinada institui\u00e7\u00e3o de ensino prop\u00f5e uma forma\u00e7\u00e3o educacional para adaptar os estudantes ao mercado de trabalho ou coisa parecida. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos vivenciando um anestesiamento coletivo em que se rompe qualquer possibilidade de questionamento ou contraposi\u00e7\u00e3o ao socialmente estabelecido. Assim, elimina-se tamb\u00e9m qualquer possibilidade de negatividade. A negatividade \u00e9 imprescind\u00edvel para a transgress\u00e3o emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han \u2013 ver Sociedade do Cansa\u00e7o (Editora Vozes, 2017) \u2013 vivemos numa sociedade do desempenho marcada pela positividade, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade disciplinar, marcada pela negatividade, que \u00e9 da vigil\u00e2ncia e da puni\u00e7\u00e3o, de acordo com Foucault, da qual estamos nos distanciando cada vez mais. A positividade, para Han, elimina a inst\u00e2ncia dominadora e de controle e estabelece uma condi\u00e7\u00e3o de vida marcada pela liberdade e autonomia do sujeito sobre si mesmo. Nesse modelo, o sujeito se desprende da negatividade de obedecer \u00e0s ordens de outrem. No entanto, a ideia de positividade aqui n\u00e3o estabelece um sentido de bem-estar ou favorecimento das humanidades do sujeito, mas de explora\u00e7\u00e3o de si, na medida em que toda a responsabilidade de desempenho e produ\u00e7\u00e3o passa a ser somente sua. A positividade representa novas formas de viol\u00eancias mais sutis e mais eficazes e \u00e9 pr\u00f3pria da sociedade do desempenho.<\/p>\n<p>A est\u00e9tica do liso \u00e9 algo novo, fruto da contemporaneidade e \u00e9 um fen\u00f4meno da sociedade do desempenho. A est\u00e9tica do liso se evidencia na positividade e por isso reconfigura o belo, desfigurando-o. O mundo do liso, nos dias atuais, \u00e9 acima de tudo o mundo do belo, pois elimina toda forma de negatividade, \u00e9 desprovido de senso cr\u00edtico e n\u00e3o \u00e9 questionador. \u00c9 polido. \u00c9 o mundo da positividade, por isso \u00e9 marcado tamb\u00e9m pelo consumo. De acordo com Byung-Chul Han, o mundo do liso \u00e9 \u201cda pura positividade, no qual n\u00e3o h\u00e1 dor, ferimento nem culpa\u201d (A salva\u00e7\u00e3o do belo. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2019, p. 14). Para Han (2019), o <em>smartphone<\/em> representa bem essa est\u00e9tica do liso, pois cada vez mais ele \u00e9 adapt\u00e1vel \u00e0s prefer\u00eancias de consumo e uso, na medida em que vai se tornando polido em suas formas, pois j\u00e1 existem no mercado modelos male\u00e1veis e flex\u00edveis e com capas inquebrant\u00e1veis e autorregenerativas, capazes de continuar polidos, mesmo que sofram arranh\u00f5es e riscos. Essa condi\u00e7\u00e3o de ser adapt\u00e1vel e n\u00e3o oferecer resist\u00eancias, segundo Han, \u00e9 uma caracter\u00edstica da est\u00e9tica do liso. Al\u00e9m do mais, o <em>smartphone <\/em>corporifica a comunica\u00e7\u00e3o do liso, do polido no mundo digital, pois se estabelece essencialmente pela troca de<em> likes<\/em> e curtidas. \u00c9 sempre marcado pela positividade, nunca pela negatividade.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 16px;\"><em><strong>\u00c9 pr\u00f3prio do liso eliminar a dist\u00e2ncia e, dessa forma, tudo passa a ter o imediatismo do toque. Por isso, o tato surge como o sentido predominante e determina as a\u00e7\u00f5es que v\u00e3o marcar as prefer\u00eancias e as vontades de cada pessoa. Desse modo, o liso est\u00e1 bem estetizado pelo touch. A touchscreen \u00e9 plana, lisa, n\u00e3o tem ondula\u00e7\u00e3o e \u00e9 nela que se materializa o mundo digital (HAN, 2019), em que likes e curtidas se sobressaem como a plenitude da reciprocidade: curte-se para ser curtido. Basta apenas um toque para determinar a nossa capacidade de consumir e de gostar. A palavra gostar vem de gustare em latim, que significa sentir sabor, gostar. Em ingl\u00eas, representada pelo verbo to like.<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Desse modo, cada curtida representa um <em>like<\/em> e tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o de saciedade, pois proporciona certo prazer que preenche vazios interiores que s\u00e3o ocupados atrav\u00e9s de aparentes demonstra\u00e7\u00f5es de carinho, apre\u00e7o, predile\u00e7\u00e3o. Tudo isso apenas em um toque. Han diz que \u201ccurtindo, os humanos se encontram apenas ainda em si mesmos\u201d (2019, p. 42). Aquela distancia necess\u00e1ria e fundamental que marca a condi\u00e7\u00e3o existencial do outro e estabelece uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia entre os seres humanos \u00e9 eliminada. O toque suprime a dist\u00e2ncia e despresentifica a condi\u00e7\u00e3o existencial das pessoas porque dissolve o di\u00e1logo e possibilidades de subjetiva\u00e7\u00e3o do humano. Como afirma Han (2019), \u201cA vis\u00e3o guarda dist\u00e2ncia, enquanto o tato a suprime. Sem dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver m\u00edstica. A desmistifica\u00e7\u00e3o torna tudo fru\u00edvel e consum\u00edvel. O tato destr\u00f3i a negatividade do totalmente outro\u201d.<\/p>\n<p>O risco de introjetar uma autossufici\u00eancia, em que cada pessoa passa a contar apenas consigo mesma para vivenciar a sua exist\u00eancia, numa esp\u00e9cie de <em>eu basto apenas em mim e por mim mesmo, <\/em>\u00e9 a decreta\u00e7\u00e3o da morte da alteridade. Desse modo tamb\u00e9m eliminamos a \u00e9tica como princ\u00edpio condutor da conviv\u00eancia humana. Confirmamos, dessa forma, o pren\u00fancio de uma sociedade absolutamente narc\u00edsica e indiferente ao estranho. Esse estilo autorreferencial, em que o sujeito reconhece apenas a si mesmo, gera uma esp\u00e9cie de amor pr\u00f3prio \u00e0s avessas, que vai consumindo o sujeito no seu interior e, ao mesmo tempo, eliminando suas refer\u00eancias exteriores de conviv\u00eancias e de humanidade. Nasce ent\u00e3o um tipo de interioriza\u00e7\u00e3o de si, que desvirtua o sentido desse amor pr\u00f3prio, fruto desse amar a si mesmo, tornando-o viciante e m\u00f3rbido, porque elimina qualquer possibilidade do encontro dial\u00f3gico que presentifica a existencialidade de cada um com o outro. \u00a0Essa autossufici\u00eancia \u00e9 corrosiva e gera adoecimentos.<\/p>\n<p>O liso retira a vestimenta do belo e, assim, retira tamb\u00e9m a sua ess\u00eancia. Despe-o e o empobrece. A riqueza e a magia do belo na arte \u00e9 o seu velamento. \u00c9 a sua capacidade de se ocultar e de se metaforizar. \u00c9 pr\u00f3prio do belo o seu potencial de habitar os escaninhos e n\u00e3o se explicitar. A beleza da arte esconde-se para manter a magia da sua cria\u00e7\u00e3o e por isso sua ess\u00eancia est\u00e1 na sua forma, no seu vestir-se. Um poema \u00e9 t\u00e3o mais belo quando oculta a sua ess\u00eancia na sua vestimenta para dizer sem dizer. A est\u00e9tica do liso escancara o belo no mundo digital e, dessa forma, transforma-o em produto de f\u00e1cil consuma\u00e7\u00e3o, decreta-lhe um imediatismo e uma permanente efemeridade que se expressa entre <em>likes<\/em> e curtidas (HAN, 2019). O liso \u00e9 pl\u00e1cido, sem resist\u00eancia, por isso ele transforma o belo em mero atrativo para comercializa\u00e7\u00e3o, como faz a ind\u00fastria da beleza. Cria uma cultura consumista e submete o belo a uma fluidez que faz com que o belo se adapte sempre ao que ser\u00e1 determinado pelo modismo fabricado para vender. \u201cO belo vira liso e submete-se ao consumo\u201d (HAN, 2019).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 16px;\"><strong><em>Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio recuperar o belo que faz vivificar o incondicional encontro que fortalece la\u00e7os, ilumina vidas, reconhece-se na diversidade e faz brotar o amor.<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mas o belo que escapa a essa est\u00e9tica do liso \u00e9 o belo que resguarda uma negatividade suficiente para resistir, para n\u00e3o se diluir aos caprichos do consumo desmedido e sem cerim\u00f4nia. Para Han, \u201ca negatividade \u00e9 a for\u00e7a viva da vida. Ela forma tamb\u00e9m a ess\u00eancia do belo\u201d (2019, p. 67). O belo que foge \u00e0 logica do mundo digital, aonde impera a est\u00e9tica do liso, \u00e9 o belo que interage com o outro e por isso estabelece um espa\u00e7o de alteridade em que prevalece a diversidade. No belo natural n\u00e3o acontece a elimina\u00e7\u00e3o do distanciamento, t\u00edpico do belo no digital, por isso, h\u00e1 preval\u00eancia do encontro, do reconhecimento do outro e da sua solidez e perenidade. O belo afirma a outridade como preval\u00eancia do necess\u00e1rio encontro, que n\u00e3o se realiza em <em>likes<\/em> e curtidas, pr\u00f3prias do mundo digital e do belo que se corporifica pela est\u00e9tica do liso. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio recuperar o belo que faz vivificar o incondicional encontro que fortalece la\u00e7os, ilumina vidas, reconhece-se na diversidade e faz brotar o amor.<\/p>\n<p>*<em>Nelino Azevedo de Mendon\u00e7a \u00e9 <\/em><em>professor, mestre e doutorando em Educa\u00e7\u00e3o e integrante da Academia Cabense de Letras.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><strong>NOTA DO EDITOR<\/strong>: Artigo publicado pela primeira vez em 29.07.2020.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelino Azevedo de Mendon\u00e7a* Vivemos um momento muito mais de adaptabilidade e de aus\u00eancia de resist\u00eancia do que de transgress\u00e3o emancipat\u00f3ria. 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