{"id":20295,"date":"2025-08-27T10:21:56","date_gmt":"2025-08-27T13:21:56","guid":{"rendered":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=20295"},"modified":"2025-08-27T10:21:56","modified_gmt":"2025-08-27T13:21:56","slug":"ha-5-anos-quando-tocamos-as-pessoas-tocamos-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=20295","title":{"rendered":"H\u00c1 5 ANOS &#8211; Quando tocamos as pessoas, tocamos o mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/falouedisse.blog.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/foto-vera-Braga.jpg?resize=227%2C259&#038;ssl=1\" width=\"227\" height=\"259\" \/>Vera L\u00facia Braga de Moura*<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ser\u00e1 se n\u00f3s percebemos que o mundo se comunica com a gente de v\u00e1rias formas e a gente, tamb\u00e9m, se comunica com o mundo? A nossa mente capta a realidade? Estamos atentos para observarmos o que comunicamos? E como expressamos a nossa comunica\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es com as pessoas e com o nosso entorno? Todos n\u00f3s queremos ser felizes, pelo menos essa \u00e9 a nossa expectativa e a da humanidade na busca da felicidade. Mesmo que os caminhos e processos sejam diferentes, mas a busca \u00e9 ser feliz e fugir do sofrimento.<\/p>\n<p>Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi, narrou no pref\u00e1cio do livro \u201cComunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o Violenta\u201d, do psic\u00f3logo americano Marshall Rosenberg (2006), os ensinamentos do seu av\u00f4 sobre como se relacionar de forma n\u00e3o violenta nas comunica\u00e7\u00f5es. Mahatma Gandhi foi ativista, militante humanista e deixou para o neto um legado fundamental para o entendimento das rela\u00e7\u00f5es humanas quando ensinou que n\u00e3o reconhecemos a nossa viol\u00eancia, porque somos ignorantes em rela\u00e7\u00e3o a ela.<\/p>\n<p>O neto de Gandhi conta passagens muito importantes na sua vida que aprendeu com seu av\u00f4. Entre elas, a dimens\u00e3o da n\u00e3o viol\u00eancia e o reconhecimento de que somos todos violentos e que precisamos mudar as nossas atitudes. \u00c9 muito interessante essa percep\u00e7\u00e3o, pois s\u00f3 nos dispomos a mudar aquilo que identificamos e consideramos equivocado e incoerente. Achamos que n\u00e3o somos violentos, porque pensamos que ser violentos se refere somente a\u00a0 matar, espancar, bater etc. Contudo, existem v\u00e1rios tipos de viol\u00eancias e para al\u00e9m da viol\u00eancia f\u00edsica, \u00e9 poss\u00edvel matar, tamb\u00e9m, emocionalmente, psiquicamente, quando ofendemos, xingamos, caluniamos, estigmatizamos, exclu\u00edmos, negamos o outro; quando somos rudes, \u00e1speros, indelicados, grosseiros, julgamos, violentamos direitos, segregamos, desqualificamos, zombamos, nos omitimos, silenciamos, entre tantas outras viol\u00eancias.<\/p>\n<p>Arun, seguindo os ensinamentos de Gandhi, seu av\u00f4, aprendeu com a met\u00e1fora da \u201carvore geneal\u00f3gica da viol\u00eancia\u201d a entender melhor a n\u00e3o viol\u00eancia e, tamb\u00e9m, a viol\u00eancia que impera no mundo. Todas as noites, Gandhi ajudava seu neto a analisar os acontecimentos do dia. Assim, Arun relatava o que fizera aos outros, o que leu, o que viu. Ele registrava na \u00e1rvore da viol\u00eancia, os tipos de viol\u00eancia que infligia as outras pessoas. Se f\u00edsica, se passiva. Em pouco tempo, a parede do quarto estava grafada com registros de viol\u00eancias passivas. Essa era a viol\u00eancia de car\u00e1ter emocional que deixava marcas de sofrimentos cruciais na pessoa e essa, segundo Gandhi, era mais danosa que a viol\u00eancia f\u00edsica, pois, como explicava o av\u00f4 de Arun, a viol\u00eancia passiva gerava raiva na v\u00edtima, e, assim, essa pessoa integrante de uma comunidade respondia violentamente no grupo, nas suas rela\u00e7\u00f5es. Dessa forma, a viol\u00eancia passiva gera viol\u00eancia f\u00edsica. Questiona Gandhi: como apagar um inc\u00eandio se n\u00e3o suprimirmos o combust\u00edvel que alimenta as chamas?<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as s\u00f3 acontecer\u00e3o se n\u00f3s mesmos formos o vetor dessas mudan\u00e7as, como ensinou Gandhi. Do contr\u00e1rio, nada ocorrer\u00e1. N\u00e3o podemos aspirar mudan\u00e7as esperando apenas pelas outras pessoas. A n\u00e3o-viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia que usamos hoje e amanh\u00e3 esquecemos, ela \u00e9 uma ferramenta permanente. A n\u00e3o viol\u00eancia n\u00e3o vislumbra que nos tornemos doces, passivos, mas que n\u00e3o alimentemos concep\u00e7\u00f5es negativas. Que n\u00e3o ca\u00edamos no individualismo e ideias autocentradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 16px;\"><em><strong>\u201cA linguagem \u00e9 muito poderosa. Ela n\u00e3o apenas descreve a realidade. Ela cria a realidade que descreve.\u201d<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>A n\u00e3o viol\u00eancia \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigma. \u00c9 uma atitude de permitirmos que sejamos nutridos pelo amor, pelo respeito, pela compreens\u00e3o, pela compaix\u00e3o, pela gratid\u00e3o, pela generosidade. Imbu\u00eddos dessa energia da amorosidade, refletiremos a nossa comunica\u00e7\u00e3o com o mundo. A nossa linguagem \u00e9 uma das formas de operarmos uma mudan\u00e7a significativa. Eu sempre me lembro de expressar que aquilo que comunicamos ao nos dirigirmos a uma pessoa, tamb\u00e9m toca o mundo. A nossa comunica\u00e7\u00e3o fica grafada na pessoa e essa leva esse acervo humano de alguma forma consigo, deixando rastros no seu caminhar. Assim, aquilo que registramos em algu\u00e9m \u00e9 a nossa marca, \u00e9 como comunicamos ao mundo. Estejamos atentos no ato de falar, como alertou Desmond Tutu, Nobel da Paz, \u201cA linguagem \u00e9 muito poderosa. Ela n\u00e3o apenas descreve a realidade. Ela cria a realidade que descreve.\u201d<\/p>\n<p>Etty\u00a0 Hillesum foi uma jovem judia cujos di\u00e1rios descrevem a sua vida com a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3. Viveu em campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista e mesmo nessa condi\u00e7\u00e3o totalmente adversa, terr\u00edvel, a jovem relata, na obra de Marshall Rosenberg (2006,\u00a0 p.20), que ao ser interpelada aos gritos por um jovem oficial da Gestapo &#8211; pol\u00edcia secreta do Estado alem\u00e3o &#8211; antes de ela ficar indignada, sente compaix\u00e3o por aquele oficial e sentiu desejo de perguntar: \u201co senhor teve uma inf\u00e2ncia infeliz, brigou com a namorada\u201d? \u00c9 salutar nos perguntarmos por que algumas pessoas, como reflete Rosenberg, permanecem integradas com sua natureza compassiva, mesmo em situa\u00e7\u00f5es limite, mesmo em circunst\u00e2ncias extremas?<\/p>\n<p>A Comunica\u00e7\u00e3o N\u00e3o Violenta (CNV) se caracteriza pela abordagem espec\u00edfica da comunica\u00e7\u00e3o, do falar e ouvir com o cora\u00e7\u00e3o. Ligando-se a n\u00f3s mesmos e a outras pessoas, como diz Marshall Rosenberg (2006, p.20), de forma tal que permite que nossa (com) paix\u00e3o aflore. Nessa intera\u00e7\u00e3o com os escritos de Rosenberg, lembro-me do fil\u00f3sofo alem\u00e3o Martin Heidegger, quando afirma que o desenraizamento do ser \u00e9 que nos afasta de nossa ess\u00eancia humana. Ouso pensar, tamb\u00e9m, que talvez a compaix\u00e3o e a generosidade da jovem Etty com a atitude atroz e desumana do oficial alem\u00e3o, submetida \u00e0s barbaridades dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazista, se deva ao seu ser que permanecia totalmente enraizado em sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Fica esse convite; ao nos comunicarmos, ao tocarmos o mundo e estabelecermos nossas comunica\u00e7\u00f5es, procuremos nos lembrar o quanto o nosso ser est\u00e1 enraizado, o quanto a viol\u00eancia est\u00e1 fora do nosso cora\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o consideremos a forma de falarmos violenta, podemos estar violentando as subjetividades dos sujeitos e a nossa mesma, pois quando ferimos as outras pessoas, nos machucamos tamb\u00e9m. N\u00e3o tem como lan\u00e7armos nossa m\u00e3o no fogo e n\u00e3o chamuscar nada. A CNV nos ensina a desenvolvermos uma rela\u00e7\u00e3o emp\u00e1tica. A nos observarmos diariamente, repetidas vezes. Olharmos para os nossos comportamentos, atitudes, a\u00e7\u00f5es, nos reavaliarmos e refazer a nossa caminhada. A simples, eficaz e necess\u00e1ria pergunta precisa ser feita infinitas vezes, permanentemente: o que estou comunicando? Como estou comunicando? Estamos afetando as outras pessoas. Sempre tocamos o ser humano, at\u00e9 quando pensamos que n\u00e3o h\u00e1 toque, at\u00e9 na aus\u00eancia, existe a marca do n\u00e3o vivido. Assim, de que forma estamos veiculando, imprimindo, registrando a nossa comunica\u00e7\u00e3o nas pessoas, no mundo? O que estamos deixando nos rastros humanos?<\/p>\n<p>A CNV \u00e9 um processo de comunica\u00e7\u00e3o multidimensional. Envolve a pessoa de formas m\u00faltiplas. Para imprimir no mundo, nas nossas rela\u00e7\u00f5es com as pessoas uma linguagem da compaix\u00e3o, de afetividade, de amorosidade, n\u00f3s precisamos primeiro ressignificar as viol\u00eancias impostas a n\u00f3s mesmos. Nos curar. Tem um ad\u00e1gio popular que diz com muita sabedoria: <em>a gente s\u00f3 d\u00e1 aquilo que tem<\/em>. Faz todo o sentido. Como vamos oferecer ao outro o que n\u00e3o temos nem para n\u00f3s mesmos?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 16px;\"><em><strong>Muitas vezes proferimos na nossa comunica\u00e7\u00e3o uma palavra mal dita, intitulada \u201cpalavra impensada\u201d, por Luiz Schettini( 2010, p.36), na sua Obra \u201cPedagogia da Ternura. Diz ainda o psic\u00f3logo e professor Schettini que n\u00e3o existem \u201cpalavras impensadas\u201d, elas sempre est\u00e3o atreladas ao pensar. E somos respons\u00e1veis pelo nossos atos e atitudes. Existem, sim, palavras que n\u00e3o deveriam ser ditas pelo teor de adoecimento que transmite e pela dor emocional que imp\u00f5e \u00e0 pessoa que escuta.<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>Para\u00a0 Humberto Maturana, neurobi\u00f3logo chileno, os seres humanos s\u00f3 existem na linguagem. Experi\u00eancias que n\u00e3o est\u00e3o na linguagem, n\u00e3o t\u00eam exist\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 modo de fazer refer\u00eancia a elas, como afirma Maturana, segundo Marco Ant\u00f4nio Moreira (2004), na sua monografia \u201cA \u00a0Epistemologia de Maturana\u201d . O que acontece em nossas vidas mostra que n\u00e3o somos sistemas com uma estrutura fixa, mas um sistema com estrutura de trocas cont\u00ednuas, que ocorrem de acordo com nossas intera\u00e7\u00f5es. Tudo o que acontece com os seres vivos, ocorre por meio de modifica\u00e7\u00f5es na nossa estrutura, diz Maturana. Viver \u00e9 uma arte, sejamos sagazes, na vis\u00e3o de Guimar\u00e3es Rosa, em Grande Sert\u00e3o: veredas: \u201cO real n\u00e3o est\u00e1 no in\u00edcio nem no fim, ele se mostra pra gente \u00e9 no meio da travessia.&#8221; Ou seja, a vida \u00e9 uma travessia num campo de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Assim, alguns caminhos e formas de agir podem contribuir nessas nossas aprendizagens da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta. Um deles \u00e9 olhando para n\u00f3s mesmos, nos enxergando efetivamente, mas n\u00e3o na vis\u00e3o narc\u00edsica, ego\u00edstica e individualista, mas compassivamente, amorosamente, pensando em ser o melhor poss\u00edvel, em termos human\u00edsticos, para ao se relacionar melhor consigo mesmo se relacionar tamb\u00e9m melhor com a outra pessoa. A \u00e9tica da alteridade. Precisamos aprender a nos escutar; a estabelecer um di\u00e1logo interior; reconhecer nossos limites; compreender que somos finitos; enxergar as nossas possibilidades na seara da vida. Tamb\u00e9m apreender e se permitir a compartilhar o afeto, as nossas fragilidades, as m\u00faltiplas possibilidades na vida. Se permitir a comunicar o belo que a vida apresenta a todos n\u00f3s. O mundo \u00e9 envolto por atrocidades, perversidades, mas tem tamb\u00e9m as delicadezas da vida. N\u00e3o deixemos que nossas comunica\u00e7\u00f5es violentas e desatentas passem despercebidas na lindeza do mundo.<\/p>\n<p>Encerro, sem a inten\u00e7\u00e3o de concluir, com a linguagem comunicativa do poeta Rumi: \u201cPara al\u00e9m das ideias do certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com voc\u00ea l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>*Vera L\u00facia Braga de Moura<\/strong> \u00e9 professora e doutora em Hist\u00f3ria. Gerente de Pol\u00edticas Educacionais de Educa\u00e7\u00e3o Inclusiva, Direitos Humanos e Cidadania. SEDE\/ Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e Esportes do Estado de Pernambuco.<\/em><\/p>\n<p><em>Foto destaque: pt.wikipedia.org<\/em><\/p>\n<p><em><strong>NOTA DO EDITOR<\/strong>: Artigo publicado pela primeira vez em 27.08.2020.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vera L\u00facia Braga de Moura* Ser\u00e1 se n\u00f3s percebemos que o mundo se comunica com a gente de v\u00e1rias formas e a gente, tamb\u00e9m, se<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3176,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"wpmdr_menu":0,"wpmdr_menu_extended":{"individualPostRemove":1,"individualPostRemoveDate":1,"individualPostRemoveAuthor":1,"individualPostYoastRemovePublished":1,"individualPostYoastRemoveModified":1},"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-20295","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":3145,"url":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=3145","url_meta":{"origin":20295,"position":0},"title":"Quando tocamos as pessoas, tocamos o mundo","author":"","date":false,"format":false,"excerpt":"Vera L\u00facia Braga de Moura* Em 27.08.2020 Ser\u00e1 se n\u00f3s percebemos que o mundo se comunica com a gente de v\u00e1rias formas e a gente, tamb\u00e9m, se comunica com o mundo? 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