{"id":9547,"date":"2021-08-20T13:29:46","date_gmt":"2021-08-20T16:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=9547"},"modified":"2021-08-20T13:29:46","modified_gmt":"2021-08-20T16:29:46","slug":"o-patriarcado-nao-foi-feito-para-homens-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=9547","title":{"rendered":"O patriarcado n\u00e3o foi feito para homens negros"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Salom\u00e3o Rodrigues da Silva Neto*<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Em 20.08.2021<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>\u201cCad\u00ea meu celular?<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>Eu vou ligar pro 180<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>Vou entregar teu nome<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>E explicar meu endere\u00e7o<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>Aqui voc\u00ea n\u00e3o entra mais<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>Eu digo que n\u00e3o te conhe\u00e7o<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>E jogo \u00e1gua fervendo<\/i><\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><small class=\"\"><i>Se voc\u00ea se aventurar\u201d<\/i>\u00a0<\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><small class=\"\">(Maria da Vila Matilde, Elza Soares)<\/small><\/p>\n<p>Recentemente vivenciamos o anivers\u00e1rio de quinze anos da Lei Maria da Penha. Tal legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea que \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o de todos \u2013 da Defensoria, do Judici\u00e1rio, do Minist\u00e9rio P\u00fablico, das pol\u00edcias, da sociedade e de cada um individualmente \u2013 a miss\u00e3o de contribuir para a erradica\u00e7\u00e3o de\u00a0 todas as formas de viol\u00eancia contra a mulher, especialmente a dom\u00e9stica. Logo em seu in\u00edcio, o diploma elenca formalmente a universaliza\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, afirmando que independentemente de classe, ra\u00e7a, etnia, orienta\u00e7\u00e3o sexual, renda, cultura, n\u00edvel educacional, idade e religi\u00e3o, a todas as mulheres devem ser asseguradas as oportunidades e facilidades para viverem sem viol\u00eancia, preservarem sua sa\u00fade f\u00edsica e mental e seu aperfei\u00e7oamento moral, intelectual e social. Entretanto, pesquisas e estudos t\u00eam demonstrado que tamb\u00e9m nesse \u00e2mbito o racismo cordial brasileiro tem grande impacto na vida ou para a morte das mulheres negras.<\/p>\n<p>Dados do Atlas da Viol\u00eancia\/2020 <small class=\"\">[1]<\/small> apontam que em 2018 uma mulher foi assassinada no Brasil a cada duas horas, totalizando 4.519 v\u00edtimas, inclu\u00eddas as ocorr\u00eancias de feminic\u00eddio. A pesquisa tamb\u00e9m exp\u00f5e que no mesmo ano, 68% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. Ainda, fazendo uma an\u00e1lise do per\u00edodo entre 2008 e 2018 (per\u00edodo em que j\u00e1 estava em vig\u00eancia a Lei Maria da Penha), a desigualdade racial de prote\u00e7\u00e3o se torna mais evidente: enquanto a taxa de homic\u00eddios de mulheres n\u00e3o negras caiu 11,7%, a taxa entre as mulheres negras aumentou 12,4%. Os \u00edndices demonstram que os desafios antirracistas para as pol\u00edticas p\u00fablicas de g\u00eanero no Brasil ainda s\u00e3o gigantescos e muito ainda h\u00e1 para ser superado nesse pa\u00eds com bases coloniais, fundado no racismo e no sexismo e que, no entrecruzamento das din\u00e2micas de opress\u00e3o, perpetua a mulher branca como sujeita universal a ser alcan\u00e7ada pelas redes de prote\u00e7\u00e3o. Ainda n\u00e3o temos muito a comemorar no que diz respeito \u00e0s mulheres negras.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de assumir uma postura ativa no combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher dentro dos ambientes tidos como masculinos, a import\u00e2ncia de n\u00f3s, como homens negros, falarmos sobre g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, demonstra sobretudo respeito \u00e0s lutas constantes marcadas pela for\u00e7a e pela dor das mulheres pretas e para as quais Vilma Piedade <small class=\"\">[2]<\/small> unificou como Dororidade, ou seja, as viv\u00eancias que s\u00e3o acompanhadas das dores de perdas cont\u00ednuas, tais como a de seus filhos para a viol\u00eancia letal e de seus maridos e irm\u00e3os para os c\u00e1rceres e para o desemprego, e ao mesmo tempo atingida pela viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar, com todas as barreiras de supera\u00e7\u00e3o que s\u00e3o inerentes a suas individualidades. Essa dor \u00e9 vivenciada pelas mulheres negras desde os primeiros passos daquele momento de onde n\u00f3s somos produtos e dever\u00edamos ter o maior zelo e admira\u00e7\u00e3o, a maternidade. A dor da viol\u00eancia obst\u00e9trica tem cor no Brasil e ela \u00e9 negra. <small class=\"\">[3]<\/small><\/p>\n<p>Os dados de como a viol\u00eancia atinge em maior propor\u00e7\u00e3o as mulheres negras no Brasil, coloca-nos a refletir sobre a persistente invisibilidade das pautas levantadas pelos movimentos de mulheres negras no nosso pa\u00eds. E aqui \u00e9 preciso ressaltar que dentro das institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelo combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher e pelo seu acolhimento, a faceta do racismo por omiss\u00e3o\u00a0 \u00e9 revelado por meio da inexist\u00eancia ou insufici\u00eancia de dados acerca do perfil \u00e9tnico-racial das mulheres que conseguem alcan\u00e7ar as pol\u00edcias ou os n\u00facleos especializados dos diversos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. \u00c9 comum a identidade racial constar nos formul\u00e1rios de atendimento, mas n\u00e3o serem devidamente preenchidos e publicizados, implicando tamb\u00e9m na dificuldade de constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas essenciais para o alcance de mulheres pretas e pardas. Precisamos saber a cor das Marias de Vila Matilde que discam o 180 e acompanhar qual o tratamento tem sido dado aos casos de viol\u00eancia denunciados por essas mulheres.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas d\u00e9cadas L\u00e9lia Gonzalez j\u00e1 apontava sobre a aus\u00eancia de discuss\u00f5es no seio do feminismo para o combate de outra discrimina\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave quanto \u00e0 de g\u00eanero e tamb\u00e9m sofrida pela mulher: a de car\u00e1ter racial. Em suas geniais contribui\u00e7\u00f5es, ao conclamar um feminismo afro-latino-americano, a autora ressalta a realidade hist\u00f3rica amefricana de que para as mulheres negras desta regi\u00e3o a consci\u00eancia da opress\u00e3o, antes de qualquer outra categoria, ocorreu por causa da ra\u00e7a.<small class=\"\">[4]<\/small> As caracter\u00edsticas da explora\u00e7\u00e3o de classe e da discrimina\u00e7\u00e3o racial s\u00e3o comuns na luta de homens e mulheres negras, racialmente subordinados nesse pa\u00eds. Outra forte raz\u00e3o para continuarmos de m\u00e3os dadas e lutando com afinco pela liberta\u00e7\u00e3o com respectivo acesso a direitos das mulheres negras, que s\u00e3o nossas m\u00e3es, nossas companheiras, nossas filhas e nossas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Por outro lado, conversar sobre essa tem\u00e1tica tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de colocar-me \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, na esteira do pensamento de Patr\u00edcia Hill Collins <small class=\"\">[5]<\/small>, para superar as barreiras criadas por minhas experi\u00eancias de opress\u00e3o vinculadas \u00e0s tr\u00eas categorias citadas com a constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es que efetivamente trar\u00e3o mudan\u00e7as sociais.<\/p>\n<p>Tenho, de fato, empatia \u00e0s causas levantadas pelas mulheres negras? O que e como tenho contribu\u00eddo para a supera\u00e7\u00e3o da realidade vivenciada por elas dentro dos meus espa\u00e7os de conviv\u00eancia? Essas e outras perguntas similares t\u00eam me acompanhado ultimamente e com elas a responsabilidade de respond\u00ea-las com a\u00e7\u00f5es efetivas. Como grande obst\u00e1culo, surge a necessidade de supera\u00e7\u00e3o de uma ideologia que foi internalizada especialmente nas mentes masculinas: o patriarcado. Entender a exist\u00eancia de uma estrutura hier\u00e1rquica que colocam os homens em posi\u00e7\u00f5es de vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres desde os n\u00facleos familiares at\u00e9 o ambiente de trabalho, embora dif\u00edcil, \u00e9 urgente e necess\u00e1rio, pois ao mesmo tempo que dita privil\u00e9gios em raz\u00e3o do g\u00eanero, determinam padr\u00f5es de masculinidade t\u00f3xica \u2013 modelo que n\u00e3o \u00e9 voltado para os homens negros, mas por n\u00f3s absorvido \u2013 que limitam nossas atitudes, por muitas vezes inibe nosso crescimento pessoal e chega a nos levar ao colapso. <small class=\"\">[6]<\/small><\/p>\n<p>Quando interseccionamos a categoria ra\u00e7a e as representa\u00e7\u00f5es sociais que elas engendram, com mais evid\u00eancia enxergamos a urg\u00eancia de rejeitarmos esse prot\u00f3tipo que subjuga cotidianamente os homens negros e, mais ainda, as mulheres negras no nosso pa\u00eds. Definitivamente, o patriarcado n\u00e3o nos contempla. O homem negro sequer \u00e9 visualizado por essa ideologia \u2013 que tem o racismo como um de seus pilares \u2013 como poss\u00edvel detentor de poder. Precisamos fugir da ilus\u00e3o de estarmos performando um papel que n\u00e3o se encaixa em nossos corpos, n\u00e3o s\u00f3 pelo fato de contribuirmos para os efeitos danosos sofridos pelas mulheres negras, mas tamb\u00e9m em raz\u00e3o da essencial busca de supera\u00e7\u00e3o do nosso lado opressor.<\/p>\n<p>A escrita de hoje \u00e9 um convite (voltado para mim mesmo, mas tamb\u00e9m compartilhado), para uma imers\u00e3o masculina nas li\u00e7\u00f5es do feminismo negro. Podemos ter como ponto de partida e orienta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica a afirma\u00e7\u00e3o de bell hooks <small class=\"\">[7]<\/small> de que o feminismo \u00e9 para todo mundo. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas para as mulheres e tamb\u00e9m n\u00e3o tem como objetivo apenas benefici\u00e1-las. A luta que deve ser travada \u00e9 da reeduca\u00e7\u00e3o do mundo, a fim de imagin\u00e1-lo e constru\u00ed-lo em uma perspectiva que, acolhendo as diferen\u00e7as, suplante a desigualdade. O combate ao racismo e ao sexismo deve ser feito por todas, todes e todos, mas a assun\u00e7\u00e3o da responsabilidade e a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas concretas por parte dos homens negros constitui compromisso racialmente \u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o a nossa ancestralidade. Essa deve ser nossa ORIenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>*Salom\u00e3o Rodrigues da Silva Neto<\/strong> \u00e9 defensor p\u00fablico coordenador do Grupo de Trabalho pela Igualdade Racial da Defensoria P\u00fablica do Estado de Goi\u00e1s<\/em><\/p>\n<p><em>Artigo publicado originalmente no portal <strong>Justificando<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>Este texto n\u00e3o reflete necessariamente a opini\u00e3o do blog <strong>Falou e Disse<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>Foto destaque: <small class=\"\">Dave McClinton<\/small><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><small class=\"\">Notas:<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[1] \u2013 https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/download\/24\/atlas-da-violencia-2020<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[2] \u2013 PIEDADE, Vilma. Dororidade. S\u00e3o Paulo: Editora N\u00f3s, 2017.<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[3] \u2013 https:\/\/www.abrasco.org.br\/site\/noticias\/8m-mulheres-negras-sofrem-mais-violencia-obstetrica\/45463\/<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[4] \u2013 GONZALEZ, L\u00e9lia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[5] \u2013 COLLINS, Patricia Hill. Em dire\u00e7\u00e3o a uma nova vis\u00e3o: Ra\u00e7a, classe e g\u00eanero como categorias de an\u00e1lise e reflex\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Sempreviva Organiza\u00e7\u00e3o Feminista, 2015. pp. 13-42.<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[6] \u2013 BOLA, JJ. Seja homem: a masculinidade desmascarada. Porto Alegre: Dublinense, 2020.<\/small><\/p>\n<p><small class=\"\">[7] \u2013 hooks, bell. O feminismo \u00e9 para todo mundo: pol\u00edticas arrebatadoras. Rio de janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.<\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salom\u00e3o Rodrigues da Silva Neto* Em 20.08.2021 \u201cCad\u00ea meu celular? 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