{"id":9608,"date":"2021-08-26T06:55:58","date_gmt":"2021-08-26T09:55:58","guid":{"rendered":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=9608"},"modified":"2021-08-26T06:55:58","modified_gmt":"2021-08-26T09:55:58","slug":"tributo-a-professora-eunice-prudente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=9608","title":{"rendered":"Tributo \u00e0 Professora Eunice Prudente"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Isadora Brand\u00e3o<\/strong>*<\/em><\/p>\n<p><em>Em 26.08.2021<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><i>\u201c\u2026 h\u00e1 caminhos, dentro das sutilezas do imagin\u00e1rio, nos quais podemos elaborar mem\u00f3rias que ainda vir\u00e3o ou escrever as cartas que j\u00e1 foram enviadas. Onde podemos definir a linearidade ou n\u00e3o de nossas hist\u00f3rias. A mem\u00f3ria pode ser trai\u00e7oeira, mas tamb\u00e9m guarda a pot\u00eancia das escolhas. E assim, n\u00e3o mais deixaremos nossos \u00e1lbuns esvaziados\u201d. (<\/i><i>Beatriz Lemos)<\/i><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O genoc\u00eddio negro, enquanto fen\u00f4meno multifacetado, n\u00e3o opera apenas por meio da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de nossos corpos. A imagem de corpos negros alvejados e inertes, t\u00e3o corriqueira nos notici\u00e1rios policiais, corresponde apenas \u00e0 dimens\u00e3o mais vis\u00edvel desse fen\u00f4meno. O genoc\u00eddio tamb\u00e9m se consuma por meio da castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica das possibilidades de elabora\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria coletiva engendrada a partir da nossa experi\u00eancia enquanto coletividade afro-diasp\u00f3rica.<\/p>\n<p>Estamos enganados se acreditarmos que essa interdi\u00e7\u00e3o ocorreu de forma pontual e ficou atrelada a um passado remoto. Ela n\u00e3o se encerrou quando Ruy Barbosa, em 1890, na qualidade de Ministro da Fazenda, determinou a elimina\u00e7\u00e3o dos arquivos da escravid\u00e3o, diminuindo as nossas chances de conhecer uma realidade hist\u00f3rica na qual estamos diretamente implicados.<\/p>\n<p>Essa tentativa de apagamento \u00e9 um processo cont\u00ednuo, que se reinventa e se sofistica a todo instante. Ela tamb\u00e9m pode ser encontrada na narrativa hegem\u00f4nica sobre a na\u00e7\u00e3o, que pressup\u00f5e que a hist\u00f3ria dos afro-brasileiros tem como ponto de partida a escravid\u00e3o. Podemos constatar a persist\u00eancia dessa ideologia na moderna literatura historiogr\u00e1fica, que insiste no uso da nomenclatura \u201cescravos\u201d ao inv\u00e9s de escravizados.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em compreender como sujeitos foram tornados \u201cescravos\u201d, torna-se poss\u00edvel naturalizar o tratamento de pessoas negras como socialmente descart\u00e1veis. Dessa forma, o resgate e interpreta\u00e7\u00e3o de nossa mem\u00f3ria compartilhada \u00e9 tarefa de ordem vital.<\/p>\n<p>\u00c9 o que diz, em outras palavras, o prov\u00e9rbio gan\u00eas \u201cSe wo were fi na wo sankofa a yenkyi\u201d, que significa \u201c<i>N\u00e3o \u00e9 tabu voltar para tr\u00e1s e recuperar o que voc\u00ea esqueceu (perdeu)\u201d.\u00a0<\/i><\/p>\n<p>Dito isso, penso que seja nossa tarefa coletiva pavimentar os nossos caminhos rumo ao futuro lan\u00e7ando luz para as pedras colocadas por quem nos antecedeu, sem as quais n\u00e3o estar\u00edamos de p\u00e9, tampouco ser\u00edamos capazes de projetar o devir sem reproduzir os mesmos erros do passado.<\/p>\n<p>No campo jur\u00eddico, n\u00e3o h\u00e1 como edificar essa estrada com solidez sem nos apropriarmos do legado em constru\u00e7\u00e3o da Professora Eunice Aparecida de Jesus Prudente.<\/p>\n<p>O livro \u201cProfessoras negras: mulheres, acad\u00eamicas e intelectuais\u201d, organizado pelo Professor Dagoberto Jos\u00e9 Fonseca e recentemente publicado pela Editora Brazil Publishing resgata, por meio de um di\u00e1logo delicadamente tecido entre as Professoras Eunice Prudente, Josildeth Consorte e Petronilha Gon\u00e7alves, os principais aspectos da trajet\u00f3ria pessoal, profissional e intelectual de cada uma dessas tr\u00eas figuras emblem\u00e1ticas respons\u00e1veis por formar muitos quadros da atual gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mim foi atribu\u00edda a imensa responsabilidade de contribuir com um dos posf\u00e1cios desta obra.\u00a0 Gostaria de compartilhar com voc\u00eas, nesse artigo, algumas das reflex\u00f5es ali desenvolvidas, as quais dizem respeito aos ensinamentos que a vida e obra inconclusa da Professora Eunice Prudente transmitem para a nossa luta contra o racismo, o sexismo e todos os sistemas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Causa admira\u00e7\u00e3o que a Professora Eunice, primeira e ainda \u00fanica professora negra da Faculdade de Direito da USP, n\u00e3o tenha sucumbido \u00e0s tentativas de descaracteriza\u00e7\u00e3o que o \u201cpacto narc\u00edsico da branquitude\u201d \u00e9 capaz de nos impor, notadamente nesses espa\u00e7os de poder historicamente vinculados \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o do <i>status quo.<\/i><\/p>\n<p>\u00c9 extremamente \u00e1rduo sobreviver psiquicamente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o cotidiana, expl\u00edcita ou velada, da superioridade moral, intelectual e est\u00e9tica do branco e aos desdobramentos no campo das rela\u00e7\u00f5es interpessoais dos sentimentos inconfess\u00e1veis mobilizados em pessoas brancas a partir da conviv\u00eancia com pessoas negras que atingem o mesmo patamar de poder que elas. Igualmente desafiador \u00e9 lidar com a nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e dissimula\u00e7\u00e3o do racismo, ao mesmo tempo em que se observa a converg\u00eancia de interesses de grupos privilegiados para produzir a discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Contudo, a Professora Eunice n\u00e3o se deixou consumir pelo racismo e nos diz, atrav\u00e9s do seu exemplo, que podemos vislumbrar caminhos alternativos a essa tecnologia de domina\u00e7\u00e3o, na esteira do que nossos ancestrais j\u00e1 demonstraram.<\/p>\n<p>Ao buscar identificar os fatores que permitiram \u00e0 Professora Eunice Prudente trilhar esse caminho exitoso, pude identificar redes familiares e comunit\u00e1rias decisivas.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o dos av\u00f3s da Professora Eunice na Frente Negra Brasileira, certamente contribuiu para que ela, desde cedo, desenvolvesse consci\u00eancia cr\u00edtica racial, algo que lhe permitiu se manter firmemente identificada e vinculada aos preceitos cosmol\u00f3gicos da nossa coletividade afro-diasp\u00f3rica. No livro, a Professora Eunice revela extrair esses pilares filos\u00f3ficos da poesia de Nelson Cavaquinho e de Cartola, da m\u00fasica orquestrada pelas Escolas de Samba, dos dribles arrojados que caracterizam o nosso futebol-arte.<\/p>\n<p>Esse contexto familiar e comunit\u00e1rio tamb\u00e9m permite compreender a centralidade do tema do racismo na produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da Professora Eunice Prudente.\u00a0 Em disserta\u00e7\u00e3o de mestrado pioneira defendida em 1982 sob o t\u00edtulo \u201c<i>Preconceito racial e igualdade jur\u00eddica no Brasil\u201d<\/i>, ela sustenta a criminaliza\u00e7\u00e3o de condutas discriminat\u00f3rias baseadas na ra\u00e7a, tese que veio a ser consagrada pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. Sem d\u00favidas, trata-se de obra precursora do campo de estudos sobre \u201cDireito e rela\u00e7\u00f5es raciais\u201d no Brasil, refer\u00eancia ainda atual para compreens\u00e3o de como as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da <i>intelligentsia<\/i> brasileira levaram \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o do racismo e ao <i>apartheid<\/i> racial latente que nos define enquanto sociedade.<\/p>\n<p>De outro lado, a milit\u00e2ncia dos pais da Professora Eunice na Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica (JOC) e no movimento sindical possivelmente subsidiou uma leitura cr\u00edtica \u00e0 resist\u00eancia dos \u201ccomunistas\u201d ao debate da condi\u00e7\u00e3o peculiar do negro no Brasil e, consequentemente, cravou um alerta quanto \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es da ret\u00f3rica emancipat\u00f3ria da esquerda.<\/p>\n<p>Outro aspecto de relevo para compreens\u00e3o dessa hist\u00f3ria, a meu ver, diz respeito ao fato de que a m\u00e3e da Professora Eunice trabalhou como empregada dom\u00e9stica. Essa realidade laboral possivelmente favoreceu a constru\u00e7\u00e3o de um ponto de vista que Patr\u00edcia Hill Collins denominou de \u201cdupla consci\u00eancia\u201d. De um lado, ela se caracteriza pela familiariza\u00e7\u00e3o e aprendizado dos valores e <i>habitus<\/i> das elites brancas, e, de outro, pelo investimento no projeto educacional como instrumento de ruptura com esse lugar socialmente subalternizado e de conquista de mobilidade social.<\/p>\n<p>Assim, o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade foi determinante para a trajet\u00f3ria exitosa da Professora Eunice e, n\u00e3o \u00e0 toa, continua sendo uma pauta estrat\u00e9gica para os movimentos sociais negros em nosso pa\u00eds, que envidam esfor\u00e7os cont\u00ednuos na defesa da pol\u00edtica de cotas raciais nas Universidades.<\/p>\n<p>Entretanto, a Professora Eunice n\u00e3o se satisfez com os ganhos particulares que essa sua trajet\u00f3ria excepcional lhe proporcionou. Ela tem, generosamente, dedicado a sua vida a colocar os saberes que adquiriu \u00e0 servi\u00e7o da sua comunidade, em um processo dial\u00f3gico em que ensina ao mesmo tempo em que educa a si mesma.<\/p>\n<p>Situada na zona onde as opress\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe se intersectam, a Professora Eunice construiu um caminho semelhante ao de muitas mulheres negras, estabelecendo, especialmente quando esteve \u00e0 frente da Secretaria Estadual de Justi\u00e7a, interlocu\u00e7\u00f5es valiosas com os movimentos feminista, negro e de trabalhadores.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 o exemplo vivo de que a solid\u00e3o estrutural, pol\u00edtica, afetiva e epist\u00eamica que marca as nossas viv\u00eancias de mulheres negras n\u00e3o tem nos impedido de ocupar a vanguarda da luta por um novo modelo de sociedade em que todas as humanidades possam ser reconhecidas.<\/p>\n<p>Por fim, cumpre registrar a rela\u00e7\u00e3o da Professora Eunice com seus orientandos, pois ela vai muito al\u00e9m da disponibiliza\u00e7\u00e3o de referenciais te\u00f3ricos, da supervis\u00e3o das pesquisas e da facilita\u00e7\u00e3o de acesso a redes profissionais. A Professora Eunice tem exercido uma verdadeira \u201cmaternagem de mente e alma\u201d, servindo como um porto seguro para que orientandos e orientandas possam navegar com seguran\u00e7a em busca de seus sonhos.<\/p>\n<p>O legado em constru\u00e7\u00e3o da Professora Eunice Prudente confere sentido \u00e0 nossa luta por autodefini\u00e7\u00e3o e por poder, pois atrav\u00e9s de sua aut\u00eantica jornada ela tem permitido que nos ergamos uns aos outros e umas \u00e0s outras contra todas as tentativas de negocia\u00e7\u00e3o da nossa dignidade.<\/p>\n<p><em><strong>Isadora Brand\u00e3o<\/strong> \u00e9 Defensora P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo. Coordenadora do N\u00facleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial.<\/em><\/p>\n<p><em>Artigo publicado originalmente no portal <strong>Justificando (Coluna Vozes Negras)<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>Este texto n\u00e3o reflete necessariamente a opini\u00e3o do blog <strong>Falou e Disse.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><small class=\"\">Foto destaque: Professora Eunice Prudente (Foto: Cec\u00edlia Bastos \/ USP Imagens)<\/small><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isadora Brand\u00e3o* Em 26.08.2021 \u201c\u2026 h\u00e1 caminhos, dentro das sutilezas do imagin\u00e1rio, nos quais podemos elaborar mem\u00f3rias que ainda vir\u00e3o ou escrever as cartas que<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9609,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"wpmdr_menu":1,"wpmdr_menu_extended":{"individualPostRemove":1,"individualPostRemoveDate":1,"individualPostRemoveAuthor":1,"individualPostYoastRemovePublished":1,"individualPostYoastRemoveModified":1},"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-9608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":7353,"url":"https:\/\/falouedisse.blog.br\/?p=7353","url_meta":{"origin":9608,"position":0},"title":"SANKOFA: A \u00c1frica que te habita","author":"","date":false,"format":false,"excerpt":"I\u00eada Barbosa* Em 18.03.2021 Sankofa, a s\u00e9rie de dez cap\u00edtulos que est\u00e1 dispon\u00edvel na Netflix \u00e9 para mim poesia e aventura. 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