Direitos Humanos

Quem inventou a fome são os que comem’: 111 anos de Carolina Maria de Jesus

Estevam Silva/ Opera Mundi São Paulo

Em 16.03.2025

Moradora da favela do Canindé e catadora de papel, Carolina Maria de Jesus se tornou uma das primeiras autoras negras a obter destaque no Brasil

Há 111 anos, em 14 de março de 1914, nascia a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus.

Moradora da favela do Canindé e catadora de papel, Carolina se tornou uma das primeiras autoras negras a obter destaque no Brasil, sensibilizando o público com seus relatos contundentes sobre a miséria, desigualdade, exclusão social e a opressão aos marginalizados nas periferias do país.

Seu livro mais conhecido, Quarto de Despejo, tornou-se um grande sucesso internacional, sendo traduzido para 16 idiomas e distribuído em mais de 40 países.

De Sacramento a São Paulo

Carolina Maria de Jesus nasceu na zona rural de Sacramento, no interior de Minas Gerais, como uma dos oito filhos da lavadeira Maria Carolina de Jesus. Seu pai, João Cândido Veloso, já possuía outra família e nunca a reconheceu como filha legítima.

Carolina teve uma infância muito difícil, repleta de privações. Frequentou a escola por apenas dois anos, entre 1923 e 1924, após uma filantropa da região viabilizar sua matrícula no Colégio Allan Kardec. Embora breve, a experiência escolar despertaria um interesse pela escrita e leitura que Carolina cultivaria pelo resto da vida.

Ainda em 1924, a jovem se mudou para uma fazenda nos arredores de Uberaba, onde trabalhou na lavoura com sua família por três anos. Posteriormente, a família foi chamada para trabalhar em uma plantação de café no interior paulista, onde sofreram com os maus tratos e a exploração dos patrões, sendo forçados a fugir.

Em 1930, Carolina se estabeleceu em Franca, onde trabalhou como empregada doméstica e auxiliar de cozinha. Passou por várias outras cidades do interior paulista nos anos seguintes, sempre em busca de novas oportunidades.

A situação de penúria em que vivia se agravou ainda mais após o falecimento de sua mãe. Carolina decidiu então se mudar para a cidade de São Paulo, vislumbrando a chance de obter na metrópole uma vida mais digna.

As expectativas, entretanto, logo foram frustradas. Sem dinheiro ou conhecidos que pudessem ajudá-la, Carolina se tornou moradora de rua. Passava as madrugadas acordada rodando a cidade, coletando papel e sucata para tentar sobreviver.

Em 1947, Carolina foi morar na Favela do Canindé, erguendo um barraco com pedaços de madeira e papelão às margens do Rio Tietê. Conseguiu emprego como faxineira de hotel e logo recebeu indicações para trabalhar como doméstica nas casas da elite paulistana.

Entre seus patrões estava o famoso cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini, que permitia que Carolina lesse os livros de sua biblioteca durante as folgas.

Em 1948, Carolina engravidou de um marinheiro português que logo a abandonou. A condição de mãe solteira era considerada um escândalo pelos empregadores.

Carolina foi demitida e teve de voltar a catar papelão e a fazer bicos para se sustentar. O filho, batizado João José de Jesus, nasceu em 1949. Carolina teve mais dois filhos — José Carlos de Jesus, nascido em 1950, e Vera Eunice de Jesus, nascida em 1953.

Os cadernos de Carolina

Em meio às dificuldades da vida na favela, Carolina encontrou na literatura um refúgio e uma forma de externar seus sentimentos e reflexões. Seu barraco era repleto de livros e de cadernos que ela recolhia nas andanças pela cidade.

Nos cadernos, Carolina registrava o cotidiano sofrido da comunidade, a dor da fome, o flagelo da miséria, as angústias, humilhações e preconceitos a que ela e todos os seus vizinhos estavam submetidos.

Entre 1955 e 1960, Carolina produziu 35 desses diários. Trata-se de um compilado de enorme valor histórico, literário e sociológico, retratando a realidade das favelas sob a perspectiva de seus moradores — uma leitura da realidade sempre ignorada pelos meios de comunicação.

Foi em 1958 que o jornalista Audálio Dantas conheceu Carolina enquanto realizava uma matéria sobre a Favela do Canindé para a Folha da Noite. O repórter se impressionou com “lucidez crítica” de Carolina e, sobretudo, com a qualidade literária e documental de seus textos.

Audálio publicou um artigo sobre a autora no periódico, contendo alguns trechos dos diários. A matéria despertou o interesse do público e Audálio foi incumbido de produzir mais uma matéria com textos de Carolina para a revista O Cruzeiro.

Em seguida, o jornalista procurou Carolina e propôs a publicação de um livro. A obra foi lançada em agosto de 1960 com o título de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. Tratava-se de uma seleção de textos retirados de 20 dos diários de Carolina.

Arquivo Nacional / Wikimedia Commons Carolina Maria de Jesus autografando seu livro ‘Quarto de Despejo’

“Quarto de Despejo” e a carreira literária de Carolina

Quarto de Despejo fez um sucesso enorme. A tiragem inicial de 10 mil exemplares foi esgotada em menos de uma semana. A obra se destaca pela linguagem objetiva, direta, e pela narrativa coesa, apresentando um retrato cru e realista da miséria e da exclusão social.

O registro documental é pontuado liricamente por reflexões e pensamentos de Carolina, reforçando o caráter memorialista da obra. A autora registra tudo: os horários em que acorda, o seu estado de espírito, a indignação e o sofrimento diante das privações materiais.

A fome é o tema central do livro. Em vários trechos, Carolina descreve a angústia de não ter dinheiro para alimentar sua família: “hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive, precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?”.

Em outras passagens, Carolina descreve o alívio e a alegria de ter o que comer: “a comida no estômago é como combustível nas máquinas. Passei a trabalhar mais depressa. Eu tinha a impressão que eu deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na vida.”

A obra foi comentada e elogiada por autores consagrados como Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. Quarto de Despejo foi traduzido para 16 idiomas e lançado em mais de 40 países, vendendo, ao todo, mais de 3 milhões de exemplares.

O livro inspirou filmes, peças de teatro, canções, ilustrações e outras obras de arte. Quarto de Despejo se tornou um marco da literatura brasileira, inaugurando o gênero que viria a ser conhecido como “literatura das vozes subalternas”.

O sucesso da obra permitiu a Carolina sair da favela. A autora comprou uma casa no Alto de Santana, um bairro de classe média alta na Zona Norte de São Paulo. A convivência, entretanto, era muito atribulada. Os vizinhos se incomodavam com a presença da família negra no bairro e buscavam segregá-los de todas as atividades — chegando até mesmo proibir seus filhos de interagirem com os filhos da autora.

Carolina deu continuidade à sua carreira de escritora, registrando o cotidiano e as experiências no novo bairro. Os textos foram compilados e lançados em 1961 no livro Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-Favelada.
Dois anos depois, em 1963, Carolina publicou Pedaços da Fome, seu único romance, e em 1965 lançou Provérbios.

As obras posteriores de Carolina, entretanto, não despertaram interesse do mercado editorial, que considerava que a fórmula estava esgotada. A autora não teve ajuda para a divulgação, não recebeu novas ofertas de editoras e acabou sendo relegada ao esquecimento pela mídia.

Os últimos anos

Sentindo-se infeliz em Santana, Carolina se mudou para Parelheiros, um bairro periférico na Zona Sul de São Paulo. Em sua nova residência, continuou escrevendo, mas nunca mais encontrou mais espaço nas editoras.

A situação se agravou após o golpe de 1964, quando suas obras, consideradas inadequadas pelo teor de crítica social, foram submetidas a uma “censura branca”. Pouco tempo depois, os pagamentos por direitos autorais foram interrompidos, embora os livros de Carolina continuassem sendo comercializados por editoras estrangeiras.

A edição de Quarto de Despejo lançada nos Estados Unidos, por exemplo, deveria ter rendido a Carolina mais de 150 mil dólares, mas a autora nunca recebeu um centavo desse dinheiro. Forçada a gastar suas economias, a escritora enfrentou problemas financeiros e teve de voltar a catar latinhas e garrafas nos últimos anos de vida.

Carolina Maria de Jesus faleceu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos de idade, vitimada por problemas respiratórios. A maior parte de seus livros foi publicada postumamente, incluindo Um Brasil para Brasileiros (1982), Diário de Bitita (1986) e Antologia Pessoal (1996).

Carolina empresta seu nome à biblioteca do Museu Afro Brasil em São Paulo. Em 2021, a escritora recebeu o título póstumo de “Doutora Honoris Causa” concedido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Imagem destaque: Web

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