Sol e chuva

Por

Jénerson Alves*

Em 19.05.2023

Terça-feira, 13h. Os roncos de motores e buzinas de automóveis tornam a cidade ensandecida. O calor incomoda, inquieta, irrita. Os múltiplos compromissos pesam nos ombros e sufocam o coração. As vozes ao redor atordoam.

O cenário é desafiador, mas é preciso cumprir a missão. Acelero a moto, ultrapassando carros, apitando para apressar pedestres. Renato Russo estava enganado ao cantar que “temos todo o tempo do mundo”. Não há tempo a perder. Aliás, não há tempo.

Sem perceber, meus pensamentos se desviam. Percebo gotículas caindo-me sobre a pele. Faz sol, mas chove. É como se os pingos de água fossem toques da natureza para me fazer lembrar que a vida vai além das demandas e marcações. Reconecto-me à rota. Entendo que minha missão não é marcar pontos, mas tornar-me gente.

Percebo que o barulho maior estava dentro de mim. Já não me importam as buzinas, os motores, nem as vozes das pessoas. Importava-me silenciar as vozes internas e ouvir uma Voz que traz significados. “O Universo é mental”, diziam os antigos. Cabe a mim atentar para o que realmente importa. Lembro-me de um aforismo de Antônio o Grande: “Para o corpo, a visão são os olhos. Para a alma, a visão é a inteligência”.

Desacelero. Já não estou atordoado. Vejo o céu. Sol e chuva. O Sol da Justiça envia chuva serôdia para aliviar a alma. E traz um Sábado para minha terça-feira.

*Jénerson Alves é jornalista e membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel. Escreve às sextas-feiras.

Imagem: Jénerson Alves