MEMÓRIA – 75 anos de Tuninho da Cultura
José Ambrósio dos Santos
Em 09.10.2026
Tuninho, registrado no Cartório de seu Tuni – seu pai – com o nome de Antonino José de Oliveira Júnior no dia 09 de outubro de 1951, no Cabo de Santo Agostinho (PE), completaria hoje 75 anos de idade. A data foi sempre festiva até o dia 20.12.20213, quando encerrou a sua jornada terrena aos 62 anos deixando um denso, vasto e diversificado legado literário, considerado um dos maiores da história recente da cidade.
Tuninho das crônicas, das poesias, da dramaturgia, das produções jornalísticas; Tuninho do teatro ou, simplesmente, Tuninho da Cultura.
Tuninho que lutou com todas as suas forças até o último dia pela criação da Casa da Memória, enquanto juntava objetos, documentos e fotografias formando um rico acervo que já não cabia em sua casa, na Rua Marechal Dantas Barreto, número 28, na parte velha e alta da cidade, e agora se encontra sob a guarda da Biblioteca da Escola Técnica Federal Luiz Alves Lacerda, no Cabo de Santo Agostinho.
Foi tão intensa a sua produção literária que em um livro de sua autoria, SENTIMENTOS POEMADOS, de 2013, Tuninho publicou 101 poemas e crônicas, produzidas em quatro décadas, abordando tremas variados, mas que no final, o ‘ser humano se faz presente’, como destacou na orelha do livro, acrescentando ser o ser humano o seu grande argumento, a sua inspiração.
Na página 23 do livro SENTIMENTOS POEMADOS o leitor pode apreciar o poema A COR DA PELE.
A COR DA PELE
Tempos negros da ditadura,
Preto de raiva,
Tempo feio, escuro,
Negro como a fome,
Preto de alma branca…
Falas do preconceito,
Da injustiça,
Da hipocrisia…
Vejo a negra linda,
O grande dançarino negro,
O batuque dançante,
As lutas da liberdade,
A alegria, o amor, a vida…
África,
Mama África…
E eu, tão sem cor,
Olho estrelas que brilham
E que brilham porque o céu é negro.
Em outro livro, ESCREVENDO A VOZ, Tuninho revela toda a sua paixão por sua cidade na crônica COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ, na página 35.
COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ
A minha paixão por você é coisa antiga. Desde pequeno. Cresci com essa paixão alimentando esse amor no meu coração. Muitas vezes, viajei, e meus olhos encantaram-se com os mais diversos tipos de beleza. E cheguei a ser infiel, por alguns momentos. Mas foram apenas aqueles momentos de fraqueza humana. De volta, já perto de você, o amor antigo, sincero, definitivo, sempre reacendeu, preservando nossa história de amor. Uma história conturbada, eu sei, mas de amor, do mais puro amor. Doía muito e ainda dói, quando alguém machuca você, e por isso, às vezes eu gostaria de ser um cara possessivo, daqueles que transformam amor em propriedade individual e intransferível, de forma que você só tivesse olhos para mim e que só eu pudesse curtir você, ao amanhecer e despertar. Porém, muito pelo contrário, sempre fui liberal e nada egoísta, a ponto de aceitar você cortejada, tocada e usada por tanta gente, que às vezes, nem lhe merecia. E quantas brigas tivemos! Como sofri esses anos todos, alimentando o ciúme que senti todas as vezes que davas ouvido e atenção a quem se aproximava de você, para apenas a usar e jogar fora. Mas, inegavelmente, também tivemos muitos momentos de alegria, juntos. No segredo de nossos encontros, de nossa intimidade afetiva, soubemos curtir como ninguém essa grande paixão e em cada banco de praça, em cada rua estreita, em cada beco ladeiroso, em cada momento de sua história, o nosso amor se fez presente.
Velha, maltratada e vilipendiada, você olha triste para mim, como quem pede socorro… e chora. E eu choro com você. Sinto raiva de quem lhe magoa e queria agora abraçar você todinha, colocar no meu colo e dizer baixinho ao seu ouvido: “Ah!, minha cidade, como é grande o meu apor por você!”
Com tanto envolvimento com a cultura, Tuninho exerceu diversas atividades na área, tendo sido Chefe da Divisão de Cultura, Diretor de Cultura e Coordenador de Eventos Culturais na Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho.
Ele foi um dos fundadores e presidente da Associação Cabense de Teatro Amador (ACTA), Diretor do Povoarte Grupo Teatral, Diretor da Federação de Teatro de Pernambuco (FETEAPE) e escreveu oito textos para teatro: Prostivida; Chapeuzinho Vermelho e Velho da Floresta; Os Escravos; Um Homem chamado Jesus; Viver Missões; E por falar em Amor; Coração Lilás, e o monólogo E Pedro andou sobre as águas.
O incansável ativista cultural foi um dos principais articuladores e membro fundador da Academia Cabense de Letras, cujos primeiros 15 membros tomaram posse no dia 04 setembro de 2009. A Antonino José de Oliveira Júnior foi destinada a Cadeira de número 05, que tem como patrono Otávio Lins. Ele costumava sentar-se ao lado ou próximo aos seus irmãos Fred e Douglas Menezes, este último também falecido (Quarta-feira de Cinzas de 2020).
*José Ambrósio dos Santos é jornalista e escritor. É integrante da Academia Cabense de Letras.

Que homenagem linda a este cabense que muito conheci, era incansável a sua luta pela cultura da nossa amada cidade, Cabo de Santo Agostinho, que eu nascida em Rio Formoso, a adotei como minha cidade aos 5 anos de idade. Convivi muito com Tuninho, Romário, Douglas, e toda a família do Sr. Tuni e D. Terezinha (ela parecia um camafeu). Seus filhos, quase todos nasceram com muito talento literário e cultural. Parabéns Tuninho, você se foi, mas, seu legado ficou, para que você seja sempre lembrado. Que você esteja em paz na sua morada e que receba o carinho de todos que o admiram. Eternas saudades. Ana Maria Monteiro de Bourbon Reinaldo.