Artigo

HÁ 5 ANOS – O Cabo já foi Capital Nacional da Cultura

Frederico Menezes*

Parece ser “fake news” ou exagero de quem escreveu o artigo tal afirmativa. Os que são mais recentes no município e até alguns mais antigos dos seus moradores podem já ter empurrado para os porões da memória este fato. Sim, nossa cidade já teve imenso destaque em todo o país em função da grande efervescência cultural que viveu na década de 1980. Essa pulsação cultural deu colossal contribuição para que o município superasse o apelido de Cidade da Morte, face ao alto índice de violência, e passasse a ser vista como a cidade em que algo diferente ocorria por suas ladeiras e casarões seculares no campo das artes, dos debates culturais e do turismo. Sim, para quem ainda não sabe, o Cabo de Santo Agostinho (PE) foi escolhido por especialistas do setor como o município turístico do ano em Pernambuco.

Se alguém está perplexo ao ler este artigo, reforçarei o que digo especificando o que levou nossa cidade a ter tanta projeção naquela década já um tanto distante. A cidade promoveu o Primeiro Congresso Norte-Nordeste de Teatro e a Primeira Mostra de Arte no mesmo período. Grupos de destaque do teatro não só da região, mas de todo o Brasil, levaram ao deslumbramento os moradores e visitantes, fazendo com que os olhos da imprensa nacional se voltassem para o município.

Nas terras de Pinzón foi também realizado o Encontro Nacional da Confederação do Teatro.

Cabo – capital do teatro brasileiro

Manchete do Diario de Pernambuco

O Cabo realizou o seu Primeiro Festival Nacional de Arte, auge de um movimento  que impulsionou o nome da cidade por todas as regiões do país. Grupos de dança de todo o Brasil; expositores de artes plásticas de quase todos os Estados; o artesanato brasileiro; oficinas diversas de vários setores culturais; debates com extraordinários palestrantes; música de variada expressão por vários recantos da cidade; espetáculos de dança de grupos do Rio de Janeiro, São Paulo e Fortaleza, em praça pública.  Naquela ocasião, toda a cúpula do Ministério da Cultura do Brasil veio ao Cabo assistir o que ocorria na cidade, pois o país já não conseguia ficar indiferente à vibração cultural que impressionava até os mais descrentes. Para que se tenha ideia do que escrevo, confira a manchete do tradicional e secular Diario de Pernambuco: Cabo – capital do teatro brasileiro.

O município realizou um festival em homenagem ao grande sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, autor da obra-prima Casa Grande e Senzala.

Ruínas do Forte de São Francisco Xavier, na praia de Gaibu

A praia de Gaibu, até então joia do litoral cabense, de beleza reconhecida, viu nascer em suas areias finas e junto às ruínas de palcos marcantes da sua história o Festival de Verão. Milhares de visitantes aportavam na praia para assistir desde o grupo Barão Vermelho, à época considerado  o melhor  grupo de rock do país, Até a magnifica Orquestra Sinfônica de Recife, passando por grandes nomes da música regional.

Um dos maiores sucessos teatrais do Nordeste, a peça “Um sábado em 30”, montada pelo Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), se apresentou em nossa cidade, causando imensa admiração na cena regional, pois o grupo teatral pouco saía de sua própria casa de espetáculos em Recife.

Cena da peça teatral Um sábado em 30

Numa articulação impressionante junto à Fundarpe, fundação Roberto Marinho e grupo Votorantim, foi possível restaurar a igreja de Santo Amaro, carregada de história, onde, inclusive, se reunia grupo que trabalhava pela libertação dos escravos na cidade e no estado antes da promulgação da Lei Àurea pela princesa Isabel. Foram encontrados documentos que comprovam o movimento abolicionista no Cabo e que se reunia na igreja.

Esses são só alguns aspectos que levaram a terra de Pinzón ao destaque nacional. Até mesmo o programa Jô Soares Onze e Meia, na época apresentado pelo SBT, se rendeu à força do que ocorria no Cabo, pois levou o pesquisador Luiz Alves Lacerda para ser entrevistado a respeito do controverso tema: o Brasil teria sido descoberto no Cabo de Santo Agostinho pelo navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón, antes de Cabral chegar em Porto Seguro, na Bahia.

Na construção de uma cidade moderna e com qualidade de vida, a cultura e as artes são imprescindíveis.

Não foram as artes as únicas beneficiadas naquele momento mágico e dinâmico vivido pela cidade. Pela primeira vez, Porto de Galinhas deixou de ser a principal notícia turística do estado. O Cabo conquistara a instalação do seu primeiro hotel cinco estrelas, o Blue Tree Park, hoje o hotel Villa Galé, instalado na praia de Suape. O município também sediou, pela primeira vez, a reunião da Associação dos Municípios Turísticos de Pernambuco (Astur).  E a cidade ganhou rica folheteria promocional de suas belezas naturais e da sua história, confeccionada por competente agência de publicidade e com lançamento impactante para jornalistas e empresas de agências de viagem.  Sucesso estrondoso, com artigos em vários jornais noticiando o fato. Também pela primeira vez o Cabo recebia o presidente da Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur), para discutir ações que contemplassem a cidade. Não deu outra: nosso Cabo de Santo Agostinho foi escolhido por jornalistas especializados como o município do ano na área do turismo, superando grandes destinos turísticos badalados nacional e intencionalmente, como Recife, Olinda e Porto de Galinhas.

Tudo isto foi uma luminosa realidade nesta terra de tanta história, talento e pujança econômica. Precisamos acreditar que podemos retomar esse dinamismo, esse destaque. A efervescência cultural está adormecida, apenas adormecida. Não está morta. Os mesmos elementos que catapultaram um dia a “terra que Pinzón pisou” permanecem guardados nas páginas da história ou numa dobra do tempo, esperando, ansiosos, serem libertados, para  novamente fazer sorrir de orgulho a gente cabense. As memórias recordam o passado, mas também preparam o futuro. Na construção de uma cidade moderna e com qualidade de vida, a cultura e as artes são imprescindíveis. Não basta ter dinheiro. É preciso ter alma para ter vida.

*Frederico Menezes é escritor e membro da Academia Cabense de Letras.

Imagem em destaque:  Praia de Gaibu – Internet

NOTA DO EDITOR: Artigo publicado pela primeira vez em 24.11.2020.

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