Artigo de Opinião

Brasil sem fome

José Ambrósio dos Santos*

Em 24.10.2026

“Somente descansarei quando cada brasileiro tiver direito a três refeições ao dia.” Foi com essa frase carregada de emoção que Luiz Inácio Lula da Silva iniciou, há 33 anos e seis meses, no dia 23 de abril de 1993, a Caravana da Cidadania, marcha que o fez percorrer 4.500 km por sete estados a partir de Garanhuns (PE), sua terra natal, com o propósito de conhecer de perto os problemas enfrentados pelos brasileiros de áreas remotas e construir  uma alternativa de governo popular e democrático que respondesse às reais necessidades do país. O combate à fome e à pobreza era uma das prioridades.

A fome foi uma realidade vivida por Lula e a sua família, que precisou migar para São Paulo em 1952 para não sucumbir à dureza do Sertão e do Agreste na metade do século passado. Antes mesmo de chegar a Garanhuns para o início oficial da marcha, partindo do Recife, a fome foi escancarada em um acampamento de Sem-terra no município de São Bento do Una., no Agreste Meridional. Homens, mulheres e crianças se alimentavam com carne de raposa. Uma parte do animal ainda estava pendurada em um galho de árvore, onde foi esquartejado. A pele era disputada por cães famintos.

Logo depois de deixar Garanhuns com destino a Canapi (AL), terra da ex-primeira-dama Roseane Collor, a fome se mostrou mais uma vez implacável: às margens da rodovia agricultores comiam palma, espécie de cacto originário do México, adaptado a regiões áridas e semiáridas. A  palma pode ser consumida por humanos, mas, no Nordeste brasileiro, é utilizada principalmente como forragem para animais, sendo picada ou triturada. O seu valor nutricional é semelhante à silagem de milho.

Lula pegou um pedaço de palma que lhe foi oferecido, mordeu e disse parecer estar mastigando pneu.

Foi a partir dessa parada que, como repórter do Jornal do Commercio, eu tive acesso ao ônibus que conduzia Lula e comitiva, formada por técnicos, especialistas, sindicalistas, lideranças do PT e jornalistas. A equipe do JC que incluía o repórter fotográfico Aluízio Arruda e o motorista Reginaldo Araújo acompanharia a Caravana da Cidadania apenas até a cidade alagoana de Canapi.

Cerca de 32 milhões de pessoas ou nove milhões de famílias brasileiras viviam em situação crítica de fome e indigência. Derrotado nas urnas na primeira eleição presidencial após da ditadura civil-militar (1964/1985), em 1989, para Fernando Collor de Mello, o líder sindical petista decidiu continuar mobilizado, discutindo e apresentando temas considerados importantes para o Brasil. Um dos temas priorizados foi o combate à fome e à pobreza. Daí a necessidade de conhecer profundamente seu país e seu povo.

Ao lado de Lula, nas primeiras poltronas do ônibus, fui objetivo: como acabar com a fome no Brasil? Se preparando para a sua segunda campanha presidencial e ainda com poucas dezenas de quilômetros percorridos, Lula foi direto e enfático: “Somente descansarei quando cada brasileiro tiver direito a três refeições ao dia.”

Lula precisou disputar outras três eleições presidenciais para finalmente poder iniciar o seu plano de combate à fome e à pobreza, a partir de 2003. Em 1994 e 1998 foi vencido por Fernando Henrique Cardoso. Em 2002 ele superou o ex-ministro da Saúde, José Serra, candidato apoiado por FHC. Reeleito em 2006, Lula elegeu e reelegeu Dilma Roussef em 2010 e 2014. Naquele ano o Brasil saiu do Mapa da Fome. O Mapa da Fome é elaborado pela FAO, agência da Organização das Nações Unidas (ONU) especializada em Alimentação e Agricultura, e mede o acesso da população à alimentação suficiente para uma vida ativa e saudável. Segundo o levantamento, menos de 2,5% da população está em risco de subalimentação (situação em que uma pessoa consome, de forma habitual, menos calorias do que o necessário para manter uma vida ativa e saudável).

Entretanto, o trabalho de combate à fome desenvolvido durante três mandatos e meio do PT (o segundo mandato de Dilma foi interrompido  por um impeachment) em seis anos de governos das forças de direita e extrema-direita (Michel Temer e Jair Bolsonaro) a fome voltou a assolar o Brasil. Após a análise dos dados de 2018 a 2020, a ONU recolocou o Brasil no Mapa da Fome. A fila do osso, como ficou conhecida, é emblemática daquele período.

Eleito para o seu terceiro mandato em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o Brasil novamente fora do Mapa da Fome em julho do ano passado, após menos de três anos de reimplementação das suas políticas de inclusão social. Com base na média de dados de 2022 a 2024, o novo relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025” concluiu que no Brasil o índice de risco caiu novamente abaixo do limite de 2,5%, considerado o critério para saída do Mapa da Fome.

No debate de ontem à noite na TV Globo Lula falou das viagens ao Brasil profundo realizadas nas caravanas da cidadania, para ressaltar que conheceu bem os problemas e as reivindicações da população, se preparando para disputar a Presidência da República, que exerce pela terceira vez. Amanhã o Brasil vai decidir qual Brasil vai querer a partir de 2027. Que Nossa Senhora Aparecida ilumine o povo brasileiro diante das urna.s

*José Ambrósio dos Santos é jornalista e escritor. É integrante da Academia Cabense de Letras.

 

 

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