Um grande passo para a humanidade
Arnaud Mattoso*
Em 10.11.2020
A dramática eleição presidencial americana de 2020 mais do que uma vitória do Partido Democrata é um alívio para o mundo. Desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos em 2017, as relações institucionais do país com os organismos internacionais e os países do continente europeu foram desconstruídas. Acordos importantes que levaram anos para serem debatidos, formulados e assinados foram desfeitos pelo homem sem preparo para a função à qual foi eleito em 2016.
A gravidade da situação foi sentida pelos americanos com alguma lucidez e senso de urgência em desfazer o erro de quatro anos atrás. A ausência dos bons favorece os maus. A votação maciça da sociedade nesta eleição foi a resposta às mentiras, à prepotência, arrogância, aos desvarios ideológicos e ao negacionismo de Donald Trump, já considerado um dos piores presidentes da história dos EUA.
Não apenas pelas mentiras explícitas, desmentidas a todo o tempo pela imprensa, pelos mecanismos de controle e até pelas redes sociais, mas pela ameaça a maior e mais longeva democracia do Ocidente. Donald Trump agiu como se presidisse uma republiqueta de regime autoritário, onde a sociedade é obrigada a ouvir calada a voz do líder supremo.
É espantoso que os EUA tenham eleito alguém tão despreparado para um cargo de tamanha importância. Pior ainda que ele tenha obtido setenta milhões de votos, nesta tentativa à reeleição, sendo o segundo presidente com maior número de votos na história das eleições americanas. Joe Biden é o primeiro nesse ranking com 74 milhões, segundo a apuração até 07/11/2020.
Parte do problema está no Populismo e no culto ao personalismo, seja no campo da Esquerda ou de Direita. É prática entre políticos falastrões tanger grupos como se tangessem rebanhos de viés ideológicos extremos, sem contestações e dispostos a crer na verdade do líder populista. Assistimos a esse expediente no Brasil com o ex-presidente Lula da Silva e agora com o atual Jair Bolsonaro. Cada um em seu quadrado e com seu viés ideológico, eles manipulam pessoas dentro de um pensamento hegemônico.
Ambos os populistas tupiniquins agregam grupos minoritários, mas barulhentos. Gente que não é o todo da sociedade, mas disposta a defender ideias estapafúrdias, apenas para garantir a sua verdade absoluta em detrimento da realidade. Foi assim, e continua sendo para muitos, o processo de impeachment de Dilma Rousseff, onde “golpe” foi a narrativa construída para ser repetida mil vezes; ou a crença cega na inocência de Lula como um preso político, perseguido pelo juiz federal treinado pela CIA (Inteligência Central Americana).
Para o rebanho lulista não é possível enxergar o ex-presidente como um político comum que cometeu erros, foi descoberto e condenado pela justiça brasileira por crimes de corrupção. Fato recorrente com diversos personagens da política, mas só com o líder supremo há a desconstrução da realidade para justificar a narrativa. Ou entender que o processo político do impeachment seguiu por nove meses todos os trâmites legais, dentro do Senado e com o aval do Supremo Tribunal Federal. Não é possível encaixar um golpe de estado nessa configuração.
Culpar os imperialistas americanos é mais fácil do que aceitar que Nicolás Maduro se assumiu como um corrupto ditador de esquerda.
Na Venezuela de Hugo Chávez, agora sob o comando de Nicolás Maduro, não é diferente. O autoritarismo raiz do “Socialismo do Século Vinte e Um” destruiu o país vizinho e só não invadiu o Brasil por força das instituições democráticas que impediram o avanço autoritário. O governo petista apoiou o processo autoritário chavista; e, ainda hoje, os principais atores da legenda pregam um negacionismo perverso sobre a realidade venezuelana. Culpar os imperialistas americanos é mais fácil do que aceitar que Nicolás Maduro se assumiu como um corrupto ditador de esquerda.
As instituições da jovem Democracia brasileira revidaram os ataques autoritários de parte de uma Esquerda anacrônica e sectária pelos treze anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no poder. Alguns explícitos como a tentativa de regular os Veículos de Comunicação com o argumento de torná-los democráticos. Quantas vezes no atual governo também assistimos o presidente atacar a imprensa? Desconstruir a imprensa e as instituições republicanas está na raiz do Populismo.
Agora, o Brasil resiste à extrema Direita psicótica de Jair Bolsonaro. O presidente se mostra cada vez mais incapacitado à função pública para a qual foi eleito. Quem acompanhava sua atuação na Câmera dos Deputados sabia do comportamento errático, da mente doentia e do mau-caratismo. No caldeirão de desvarios autoritários do Populismo, não importa ser Direita ou Esquerda. Importa a capacidade em manter mobilizados os rebanhos com viseiras ideológicas bem amarradas para serem tangidos como gado, crentes absolutos na palavra do líder populista.
O ranço ideológico leva a massa ideológica a se afundar no autoengano da mentira disseminada pelo grupo. A crença na informação de fontes suspeitas em detrimento da informação do jornalismo profissional. Populistas atuam sobre esses grupos como missionários religiosos agem sobre uma seita, onde quem está dentro é obrigado a manter o pensamento hegemônico. Os membros têm a função de converter outros a crer e qualquer contraditório é tratado como inimigo. Na Era Petista, o contraditório era classificado “direita-reacionária”; na Era Bolsonarista é “comunista-esquerdista”.
A derrota de Donald Trump é um alento no combate ao populismo e no fortalecimento do poder moderador e sóbrio de Joe Biden. Este senador longevo que atua na vida pública desde o início de 1970 não apresenta riscos à Democracia dos EUA, nem ao mundo. É a voz serena contra a arrogância e as mentiras recorrentes do agora ex-presidente de peruca loira, rosto vermelho e trejeitos de quem está acima de todos. Coloque alguém com um ego maior do que o cérebro para exercer o posto de homem mais poderoso do mundo e se tem a fórmula para o desastre.
O planeta escapou do segundo mandato de Donald Trump. A vitória daria a ele a certeza da aprovação de suas mentiras e das atitudes erráticas. Ele sairia mais forte e mais perigoso das urnas. Os líderes de outros países, a despeito da própria insensatez do presidente brasileiro, teriam que lidar, a contragosto, com mais quatro anos de falácias administrativas e ataques verbais. É possível e desejável que a derrota de Trump ajude o Brasil a não repetir o erro de 2018; que o cidadão-eleitor escolha um candidato fora dos dois extremos ideológicos já exauridos. Alguém com histórico de gestão pública, equilíbrio, sensatez nas palavras e nas atitudes. Sem mitologia, sem ufanismo, sem idolatria.
No presidencialismo, a figura do candidato é muito mais forte do que o grupo político ou a legenda partidária que ele representa, mas é importante fazer a análise do todo, não apenas da retórica, nem sempre verdadeira. É necessário analisar o candidato além das palavras. De onde ele vem, o que fez até este momento, qual a sua realização como homem público ou no setor privado. Quais as suas ideias e as suas contradições. O histórico de realizações e de crimes. O voto é muito importante para ser depositado na urna para uma pessoa qualquer. O eleitor não é uma pessoa qualquer. Nem o voto do eleitor na urna é um troço qualquer.
*Arnaud Mattoso é jornalista e escritor.
Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do blog Falou e Disse.
Foto destaque: EFE
One thought on “Um grande passo para a humanidade”