Criacionismo/Evolucionismo

Como ‘julgamento do macaco’ marcou confronto entre ciência e religião nos EUA há 100 anos

Alessandra Corrêa

De Washington para a BBC News Brasil

Em 04.04.2025

Cem anos atrás, as atenções dos Estados Unidos e do mundo se voltavam para Dayton, uma cidadezinha de menos de 2 mil habitantes no interior do Estado do Tennessee.

Foi lá que, em 1925, o professor John T. Scopes foi acusado de violar uma lei recém-aprovada que proibia o ensino da teoria da evolução em escolas públicas.

Seu julgamento, acompanhado pela imprensa mundial e o primeiro a ter transmissão nacional ao vivo por rádio, transformaria-se em algo muito maior do que uma simples disputa legal.

Ao longo de pouco mais de uma semana, o chamado “julgamento do macaco” expôs as profundas divisões na sociedade americana.

O caso ilustrou o confronto entre fundamentalismo religioso e ciência, entre fé e razão e entre valores tradicionais e modernos.

Incômodo crescente com a teoria da evolução

Apesar de ter sido publicado em 1859, o livro A Origem das Espécies e a obra de Darwin passaram a enfrentar mais resistência dos fundamentalistas após a Primeira Guerra-GETTY IMAGES

O ensino da obra do naturalista britânico Charles Darwin não era novo na época.

A Origem das Espécies, livro em que Darwin explicou sua teoria da evolução por meio da seleção natural, foi publicado mais de meio século antes, em 1859.

No entanto, no período após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ganhou força nas denominações protestantes dos Estados Unidos uma disputa entre os chamados fundamentalistas e os modernistas sobre como interpretar a Bíblia (e a história da criação) e sobre rejeitar ou abraçar a teoria de Darwin.

Os primeiros se atinham a uma leitura mais literal e tradicional da Bíblia, além de refutar a teoria da evolução, enquanto os modernistas eram mais flexíveis com tudo isso.

“Os fundamentalistas também estavam preocupados com outros aspectos da modernidade”, diz à BBC News Brasil o diretor adjunto do National Center for Science Education (Centro Nacional para Educação em Ciências, ou NCSE, na sigla em inglês), Glenn Branch.

Segundo Branch, também ganhou destaque nesse período a noção de que ideias evolucionistas eram responsáveis pelo militarismo alemão, que havia levado à devastação da Primeira Guerra. Na época, havia um debate sobre como líderes militares alemães usavam o conceito da “sobrevivência do mais apto”, presente na teoria da evolução, para justificar agressão militar.

A ampliação da educação científica nos Estados Unidos nesse período também alarmou os fundamentalistas.

“Houve uma grande expansão das escolas secundárias, e os alunos passaram a ser expostos a mais do que apenas leitura, escrita e aritmética. Passaram a estudar, entre outras disciplinas, Biologia”, explica Branch, cuja organização monitora leis que ameaçam o ensino da evolução ou sobre as mudanças climáticas no país.

Foi nesse contexto que surgiu o movimento para proibir o ensino da teoria da evolução nas escolas públicas.

Na década de 1920, pelo menos 20 Estados americanos consideravam adotar proibições.

Uma proposta apresentada em 1922 no Kentucky já havia ganhado atenção nacional, mas acabou não sendo aprovada. Três anos depois, o Tennessee se tornou o primeiro Estado do país a aprovar uma lei do tipo.

A lei Butler, promulgada em 21 de março de 1925, proibia professores de universidades e escolas públicas no Tennessee “de ensinar qualquer teoria que negue a história da Criação Divina do homem como ensinada na Bíblia, e de ensinar, em vez disso, que o homem descende de uma ordem inferior de animais”.

O autor da lei, o deputado estadual John Washington Butler, era um fazendeiro de milho e fumo do interior do Estado que, mais tarde, admitiu que “não sabia nada sobre evolução” quando apresentou a proposta.

“Eu havia lido nos jornais que meninos e meninas estavam voltando da escola e dizendo às suas mães que a Bíblia era uma bobagem”, disse Butler em entrevista durante o julgamento.

“Eu não achava que isso era certo.”

A busca por um réu ‘voluntário’

John T. Scopes tinha 24 anos quando aceitou participar do caso para contestar a lei na Justiça-Biblioteca do Congresso dos EUA

A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês), atualmente uma das principais organizações de defesa dos direitos civis nos Estados Unidos, havia sido fundada apenas cinco anos antes da lei Butler, em 1920.

Com a entrada em vigor da lei, a ACLU e outros ativistas viram uma oportunidade para testar a constitucionalidade desse tipo de proibição.

A organização anunciou que iria defender na Justiça qualquer professor acusado de violar a lei.

O objetivo era encontrar um professor que estivesse disposto a ser réu em um processo judicial para desafiar a lei. Se o caso chegasse à Suprema Corte, a mais alta instância da Justiça americana, poderia estabelecer um precedente importante sobre a separação entre Estado e religião.

Ao mesmo tempo, na cidade de Dayton, cuja população de apenas 1,8 mil habitantes vinha diminuindo, líderes empresariais viram em um possível julgamento sobre um tema dessa magnitude a oportunidade de gerar publicidade e movimentar a economia.

Eles passaram a encorajar professores locais a desafiar a lei e aceitar a proposta da ACLU.

John T. Scopes, que na época tinha 24 anos de idade e lecionava em Dayton havia um ano, aceitou participar.

Ele era técnico de futebol americano na escola de ensino médio do Condado de Rhea, subdivisão administrativa da qual Dayton faz parte, mas às vezes também atuava como professor substituto de ciências.

Nessas aulas, ele usava o livro didático obrigatório do Estado, A Civic Biology (“Uma Biologia Cívica”, em tradução livre), publicado em 1914 por George William Hunter e que incluía trechos sobre a evolução humana.

Após ter sido sondado pelos líderes locais, Scopes concordou em admitir que ensinava a teoria da evolução e participar do caso.

Assim, em maio de 1925, ele foi detido pela polícia e indiciado por um grande júri por violar a nova lei.

Estrelas na acusação e na defesa

A acusação foi comandada por William Jennings Bryan, advogado, político e orador de renome. Biblioteca do Congresso dos EUA.

A acusação, em favor de manter a lei e condenar Scopes, foi comandada por William Jennings Bryan, representando o Estado.

Advogado, político e orador de renome, Bryan havia servido como Secretário de Estado e concorrido à Presidência três vezes pelo Partido Democrata.

Em sua longa carreira, Bryan adotou muitas políticas progressistas e ficou conhecido por seus esforços em prol dos trabalhadores. Mas ele também tinha opiniões religiosas conservadoras e defendia o fundamentalismo na leitura da Bíblia.

Bryan estava envolvido nos esforços ao redor do país para aprovar leis proibindo o ensino da teoria da evolução.

Ele rejeitava principalmente a ideia de darwinismo social, a aplicação distorcida da teoria de Darwin à sociedade, a qual pregava que apenas as pessoas mais fortes estariam aptas a sobreviver. Para Bryan, isso poderia gerar conflitos e prejudicar os mais fracos e mais pobres.

“Ele fez discursos, lobby e escreveu sobre essas leis ao redor do país”, disse em palestra recente na Universidade do Tennessee o historiador Edward Larson, professor da Universidade Pepperdine.

Larson é autor de um livro sobre o julgamento, Summer for the gods: The Scopes trial and America’s continuing debate over science and religion (“Verão para os deuses: O julgamento de Scopes e o debate contínuo da América sobre ciência e religião”, em tradução livre).

Já a equipe de defesa foi liderada por Clarence Darrow, o advogado mais famoso da época. Ele havia ganhado destaque nacional inicialmente como defensor de sindicatos e líderes trabalhistas e, depois, em casos criminais.

Agnóstico, ele defendia liberdade acadêmica e se ofereceu para defender Scopes de graça.

“Foi a única vez em sua vida que ele se ofereceu para atuar de graça”, salienta Larson. “Ele viu uma oportunidade de ficar sob os holofotes e de desmascarar a moralidade fundamentalista, duas coisas que gostava de fazer.”

Bryan e Darrow, antigos amigos, tornaram-se adversários no caso.

“Eram dois dos oradores mais populares do país”, ressalta Larson.

“Bryan e Darrow, litigando as questões profundas da ciência versus religião e da liberdade acadêmica versus controle público sobre a educação, transformaram o julgamento em uma sensação na mídia.”

A defesa foi liderada por Clarence Darrow, o advogado mais famoso da época. Biblioteca do Congresso dos EUA.

Lotação máxima no tribunal

Quando o julgamento começou, em 10 de julho de 1925, o caso já vinha ganhando manchetes nacionais havia meses.

Mais de 200 jornalistas do país inteiro e do exterior estavam em Dayton.

Um dos mais famosos, Henry Louis Mencken, do jornal The Baltimore Sun, foi quem cunhou o apelido de “o julgamento do macaco”.

Apesar de a teoria da evolução não dizer que o homem descende do macaco — e sim que ambos têm um ancestral comum —, Dayton foi inundada por suvenires e imagens remetendo a primatas.

Um chimpanzé, batizado de Joe Mendi, circulava pelas ruas vestido de terno, chapéu e bengala.

A cidade foi tomada por visitantes, curiosos para acompanhar o julgamento. Grupos cristãos organizavam orações ao ar livre, enquanto ambulantes vendiam desde lanches e limonada até lembrancinhas.

Segundo a ACLU, mais de mil pessoas se aglomeravam dentro do tribunal a cada dia do julgamento. Como o local só tinha capacidade para 700 e por conta do calor, após alguns dias o juiz decidiu transferir as sessões para uma área externa, com lugar para 5 mil espectadores.

“O julgamento foi rápido para os padrões de hoje, apenas oito dias”, destaca Branch.

Apesar de ninguém negar que Scopes realmente havia infringido a lei, o argumento de Darrow, na defesa, era de que essa lei violava a Constituição.

Bryan, representando a acusação, argumentava que o ensino da evolução ameaçava os padrões morais oferecidos pela Bíblia.

“Darrow queria lutar contra o que acreditava ser uma tentativa de transformar o país em uma teocracia intolerante”, disse em palestra na Universidade Vanderbilt a escritora Brenda Wineapple, autora do livro Keeping the Faith: God, Democracy, and the Trial that Riveted a Nation (“Mantendo a fé: Deus, democracia e o julgamento que cativou uma nação”, em tradução livre).

“Onde apenas uma versão da Bíblia poderia ser ensinada — a literalista e fundamentalista — e onde a liberdade acadêmica seria destruída. Onde a ciência seria então proibida, onde os direitos civis seriam negados, e onde o preconceito e a ignorância substituiriam o aprendizado e a liberdade.”

Julgamento acabou transferido para área externa. GETTY IMAGES

Os advogados de defesa queriam incluir o testemunho de cientistas especialistas em evolução e de teólogos, mas o pedido foi negado pelo juiz, sob o argumento de que o que estava em julgamento era apenas se Scopes havia ou não violado a lei.

“[A defesa] queria provar que não havia realmente um propósito legítimo para a lei, e que a evolução não era intrinsecamente oposta à religião”, observa Branch.

Darrow, então, anunciou que chamaria o próprio Bryan a testemunhar, como especialista na Bíblia.

Diante do público, ele questionou se Bryan acreditava que Jonas havia sido engolido por uma baleia ou que a terra havia sido criada em seis dias, entre várias outras perguntas sobre o significado — literal ou não — de passagens bíblicas.

Apesar de saber a Bíblia de cor e de ter uma oratória poderosa sobre como as Escrituras poderiam confortar as pessoas, Bryan se mostrou incapaz de debater esses temas, e suas respostas soaram evasivas.

Ele demonstrou ignorância não apenas sobre a teoria da evolução, mas também sobre a Bíblia.

“Darrow o submeteu a um exame devastador, que fez Bryan parecer ignorante e complacente sobre sua ignorância”, afirma Branch.

Humilhado, Bryan acusou Darrow de querer ridicularizar todos os que acreditavam na Bíblia.

O advogado de defesa retrucou que seu objetivo era impedir que “fanáticos e ignorantes” controlassem a educação do país.

Cinco dias após o fim do julgamento, Bryan morreu enquanto dormia.

Darrow e Bryan durante o julgamento, que atraiu a atenção também pela importância dos advogados. GETTY IMAGES

Um julgamento que ainda dá o que falar

O júri levou menos de dez minutos para tomar a sua decisão. Como era esperado, Scopes foi considerado culpado de violar a lei Butler e condenado a pagar uma multa de US$ 100 (cerca de US$ 1,8 mil, ou cerca de R$ 10 mil, em valores atuais).

A defesa apelou da decisão, e o caso chegou à Suprema Corte do Tennessee. Lá, os juízes reverteram o veredito e o pagamento da multa devido a uma questão técnica, mas mantiveram a constitucionalidade da lei.

Apesar de não ter alcançado o objetivo de levar o caso à Suprema Corte dos EUA nem de ter a lei declarada inconstitucional, a defesa foi considerada vitoriosa no debate intelectual, segundo vários pesquisadores que estudaram o julgamento e sua repercussão.

Após o julgamento, dezenas de propostas em diferentes Estados que buscavam proibir o ensino da evolução foram derrotadas, e apenas dois projetos de lei semelhantes foram adotados nos anos seguintes.

A lei Butler, porém, só seria revogada 42 anos depois, em 1967.

O ensino da evolução nas escolas americanas continuou a enfrentar ataques nas décadas seguintes. Em vez de proibição, diferentes esforços tentaram “equilibrar” as lições com o ensino de criacionismo ou design inteligente (crença que contesta a evolução e sugere que o universo e os seres humanos foram criados por uma inteligência superior), mas foram derrotados nos tribunais.

Outra estratégia recente em diversos Estados, segundo Branch, tem sido tentar enfraquecer o ensino da evolução ao permitir que professores apresentem o tema como se fosse cientificamente controverso — mas não há evidências de que professores estejam adotando essa posição.

Branch diz que, apesar de persistirem algumas tentativas de minar o ensino da evolução em escolas públicas nos Estados Unidos, pesquisas indicam que esse ensino vem se ampliando e melhorando.

“[Pesquisas indicam que] mesmo entre os fundamentalistas, a evolução é cada vez mais aceita”, diz Branch.

“Em 1988, apenas 8% dos fundamentalistas diziam aceitar a evolução. Em 2019, eram 32%”, afirma Branch, citando um estudo de 2021 do qual é um dos autores.

Cem anos depois, muitas das questões levantadas pelo julgamento de Scopes continuam atuais, em meio a guerras culturais, profunda polarização nos Estados Unidos e debates sobre ciência, educação, o papel da religião na política e os valores que definem a nação.

Ao longo das décadas, o caso inspirou dezenas de livros e ganhou ainda mais notoriedade com o filme O Vento Será tua Herança, de 1960, baseado na peça teatral de mesmo nome.

O centenário está sendo marcado com eventos ao redor do país, entre eles seminários em diversas universidades e uma comemoração especial em Dayton.

“A resposta dividida e divisiva sobre questões [como as do julgamento] continua até hoje”, disse Larson em um desses eventos, na Universidade do Tennessee, em Knoxville.

“O julgamento de Scopes se tornou, com suas inúmeras releituras, parte do folclore americano. Dezenas de processos receberam a designação de ‘julgamento do século’, mas apenas Scopes correspondeu plenamente a essa promessa, continuando a ecoar não apenas no século passado, mas também neste.”

Pequena cidade de Dayton foi abalada em 1925 por julgamento sobre o ensino da evolução. Getty Images