Crônicas

Inclusão e cidadania

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José Ambrósio dos Santos*

Em 24.06.2025

Ontem saí entre satisfeito e confiante de um supermercado em Candeias, Jaboatão dos Guararapes (PE).

Satisfeito com o pronto atendimento de uma funcionária na busca por um produto novo para mim e que seria utilizado no preparo do bolo de tapioca, típico do período de festejos juninos.

Feliz pela constatação de que a inclusão por esse lado das Américas ainda não foi brutalmente afetada pelos ventos que sopram dos EUA solapando direitos e postos de trabalho de vulneráveis, resultado da excludente política do governo Trump para segmentos que historicamente já sofrem com as poucas oportunidades mundo afora.

Com a pressa de quem deixa para comprar as coisas de última hora, logo que entrei no supermercado Arco-Mix procurei ajuda. Com a imagem do produto na tela do smartphone, me dirigi à primeira colaboradora, como são identificados os trabalhadores da rede varejista. Ela abriu um sorriso e sem dizer uma palavra me conduziu à gondola específica.

Como ela se comunicava por gestos, apontando para a imagem e o produto na gondola, compreendi tratar-se de uma pessoa com dificuldade na fala.

Por não conhecer a Língua de LIBRAS agradeci com a mão fechada e o polegar para cima, o tradicional legal. Ela sorriu irradiando a satisfação com a ajuda prestada.

A rede de supermercados Arco-Mix adota a inclusão em seu quadro de colaboradores já a partir de 1998. A política está registrada em livro que conta a trajetória do seu fundador, o franciscano Armínio Guilherme dos Santos, cuja ação altruísta fez uma comunidade adotar o seu nome, alterando-o para Armínio da Paz.  Naquele ano, 11 alunos do curso de Libras fundado em 1987 por Armínio, o padre Albérico, a enfermeira norte-americana Ana Nett e a evangelizadora Zelia de Oliveira foram contratados para trabalhar na primeira loja do supermercado Arco-Íris – primeiro nome da rede fundada em 1980 – no centro comercial do Cabo de Santo Agostinho, cidade vizinha a Jaboatão.

O curso de LIBRAS começou a ser articulado em 1985, época em que a surdez era considerada um estorvo para muitas famílias e um problema social para o qual o Estado brasileiro não dava atenção. Um padre, um franciscano, uma jovem evangelizadora e uma freira abraçaram a missão de resgatar um segmento segregado e que vivia à margem até mesmo da igreja. O pequeno grupo sabia que seria grande o desafio de fundar uma escola para surdos no Cabo de Santo Agostinho, mas não maior do que o compromisso com a inclusão de crianças e jovens cujo futuro era sempre uma incógnita, e ainda fazê-las conhecer e entender o evangelho, participando de missas.

Entre 1987 e 2007 – em 2008 Zelia passou a atuar como intérprete – foram alfabetizadas mais de 200 crianças e adolescentes, proporcionando-lhes cidadania, como destaca Zelia de Oliveira no livro Armínio da Paz. Muitos hoje estão trabalhando, mesmo sendo ainda muito baixo o índice de inserção no mercado de trabalho. Algo em torno de 20%, como estima Zelia na publicação.

“Seriam hoje ainda mais segregados não fosse a nossa ação pioneira”, constata Zelia de Oliveira, citando especificamente o padre Albérico, o franciscano Armínio Guilherme e a irmã Ana Nett, na página 68 do livro Armínio da Paz.

De autoria do jornalista e escritor José Ambrósio dos Santos, o livro Armínio da Paz está à venda em todas as mais de 20 lojas da rede espalhadas pelo Recife, Região Metropolitana e Mata Sul.

*José Ambrósio dos Santos é jornalista e escritor. Integrante da Academia Cabense de Letras.

Imagem destaque: Web

 

 

 

 

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