Artigo de Opinião

Quando a paz vale mais do que ter opinião

Tereza Soares*

25.03.2026

A bem da verdade, tornou-se complicado formar uma opinião própria emancipada, que conduza a um pensamento evolutivo, libertador ou algo parecido, em meio à guerra de narrativas, pois infelizmente são as mesmas que levam à outras guerras, a das bombas, a tecnológica, a biológica e a pior delas, a nuclear. 

Recentemente estive difundindo informação sobre uma palestra com o tema Ecoteologia, a ser realizada por um pastor, e alguém contestava o tipo de iniciativa, pois segundo defendia, seria atitude hipócrita, pois não considerava ser esse o caminho que levaria o povo a se revoltar contra os agressores da natureza, como fez no Brasil o Chico Mendes, nos idos anos 1980.

De acordo com a argumentação feita pela pessoa, a mensagem de um teólogo ou de um intelectual não teria a mesma eficácia que a ação propriamente de alguém que passa pela ameaça, como no caso de um seringueiro que lutou contra o desmatamento predatório da Amazônia, contra a ação nefasta dos grandes latifundiários (fazendeiros), grileiros de terras e a especulação imobiliária no Acre, visando proteger a floresta e os companheiros dos seringais.

Ora, o Leonardo Boff como teólogo, sempre propôs, em seus seminários, o pensar a Ecologia Profunda, formando inúmeros “discípulos”, promovendo a cosmovisão e a visão holística, e não estava propriamente ligado à terra, mas sendo ele inconteste defensor da causa dos povos e das culturas ancestrais. Boff nunca pegou em armas, nunca foi defensor da luta armada, antes talvez, da luta silenciosa e restrita de classes, por meio da tomada de consciência e a consequente mudança de comportamento.

Acredito que para defender causas ecológicas precisamos de quem ilumine as ideias também, não somente de quem vá para o enfrentamento nas ruas, nas discussões, nos espaços de intervenção, assim como fez o Chico Mendes! Me incomoda perceber essa distinção entre ecológicos da batalha e ecológicos de tribunas, entre os que internalizaram o senso ecológico e os que sentem na pele e gritam.

No mundo das redes sociais, que é um mundo diferente de muitos outros em que a era digital não interfere ainda, é muito raro encontrar um pensamento realmente livre, levando a um desfecho crivado pelo discernimento noético, indo além da lógica racional pura ou da observação sensorial. A bem da verdade, tornou-se complicado formar uma opinião própria emancipada, que conduza a um pensamento evolutivo, libertador ou algo parecido, em meio à guerra de narrativas, pois infelizmente são as mesmas que levam à outras guerras, a das bombas, a tecnológica, a biológica e a pior delas, a nuclear.

Atualmente temos uma questão tão controversa quanto estranha e confusa, quando se pensa em bandeiras a serem defendidas. Todos vimos, ironicamente, mulheres do mundo inteiro se manifestarem contra o assassinato pelo Pentágono, ordenado por Donald Trump, do líder iraniano defensor das crianças em Gaza, sendo ele uma das maiores autoridades do regime do Talibã, que vinha matando mulheres no Teerã, por desafiarem a polícia de costumes. Lá, mulheres que não seguem os preceitos impostos pelo regime são apedrejadas, como na época de Jesus, há mais de dois mil anos, por não usarem o véu, a burca, hijab, ou seja lá o que for, para não mostrarem seus rostos a outros homens que não seja o marido apenas.

Como podemos entender que agora, com a morte do líder Khamenei – esse é o nome do sujeito – as mesmas mulheres que choravam pelas crianças de Gaza estejam contra esse episódio da morte do líder iraniano, sabendo que era ele quem defendia Gaza de Israel, tendo elas o instinto materno que acompanha o papel da mulher?

Essas mesmas mulheres são as que discordam do imperialismo norte-americano, e ora se contrapõem aos EUA, mesmo não concordando com a violação dos direitos humanos, em especial dos direitos das mulheres, de dizerem não ao costume secular do uso da burca! Não que os EUA estejam defendendo o feminismo, não é isso, e até soa engraçado, mas é justamente onde reside o paradoxo da moralidade neste caso.

Independente da questão de gênero, já ficou clara a manobra que permeia essa guerra insana. Aliás, toda guerra é insana, concordam? Mas falo desta deflagrada recentemente pelos EUA deliberadamente. Enquanto Donald Trump alegava que mandou matar por ter descoberto o plano que previa a sua morte, o outro lado da moeda diz que esse foi o recurso do “vampiro” estadunidense para ofuscar sua implicação nos arquivos de Epstein, que o coloca na posição de “comedor de criancinha”. Meu Deus! A que ponto chegamos! Ora os comedores de criancinhas não eram os comunistas? Tenho que rir…

Enfim, não se sabe mais para onde vão os aplausos morais! Enquanto Trump chegou a ser aprovado por parte das mulheres do mundo inteiro, nas redes sociais, por serem contrárias ao regime de um país cuja polícia de costumes vem matando suas congêneres, é o Trump o mesmo cara que ordena a morte daquele que defendia os filhos dessas mulheres. Como enxergar justiça nisso a ponto de dedicar aprovações, curtidas, comentários favoráveis?

Se é ou não uma visão unilateral, o que vi foi que, enquanto as ideias anticolonialistas e antiocidentais do Irã não mexiam diretamente na falsa moral dos líderes americanos não existia tanto ódio, mesmo com a questão do petróleo em jogo.

*Tereza Soares é jornalista, poetisa e psicopedagoga. Integrante da Academia Cabense de Letras.
Imagem destaque: Iranianas nas ruas de Teerã, capital do país; uso do véu (hijab) é obrigatório para as mulheres no Irā – 31/01/2023 – Fatemeh  Bahraml/Anadolu Agency via Getty Images

A publicação deste artigo não reflete necessariamente o pensamento do blog Falou e Disse.

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