“O mundo está ao contrário e ninguém reparou”
Enildo Luiz Gouveia*
Em 24.03.2026
Uma terceira grande guerra pode parecer improvável, mas é absolutamente possível pois um império decadente (econômica e moralmente) não poupará nenhum esforço para recuperar sua hegemonia.
Sirvo-me desta citação de um clássico da música brasileira (Relicário, de Nando Reis) para explicitar o contexto do mundo na atualidade. Já disse em outros textos e verbalmente que a verdade reside no fato em si. A partir daí, tende-se a fazer interpretações dos fatos de acordo com nossas convicções ideológicas sejam elas políticas, religiosas ou de outra natureza.
Ao longo da história os impérios e as potências ao verem seu poderio e domínio ameaçados, recorreram à violência e a pressões das mais diversas categorias para manter-se como algo respeitado e temido por todos. Para isto, recorre-se ao fortalecimento das próprias convicções e forte propaganda do nós contra eles, do bem contra o mal. Foi assim com o Império Romano, com a Alemanha Nazista e tem sido atualmente com os EUA.
Ao final da segunda grande guerra, capitaneados pelas duas maiores potências da época (EUA e a ex-URSS), a maioria dos países concordou com a criação de um organismo internacional para tornar o mundo mais seguro. Contraditoriamente, este organismo, no caso a Organização das Nações Unidas (ONU), já nasceu fazendo um “apartheid” político e ideológico onde cinco países detinham (e ainda detém) o voto de veto no Conselho de Segurança. A despeito da criação de outros organismos dentro da própria ONU, como o Unicef, a OIT, UNESCO, OMS… que atuam na redução das desigualdades, combate às doenças e preservação histórica, cultural e patrimonial, a principal função da ONU, de garantir a paz, nunca foi levada a sério pelas potências militares e econômicas. A Rússia e especialmente os EUA tem frequentemente desrespeitado as resoluções e o próprio direito internacional, fazendo valer a lei do mais forte.
Após o período da Guerra Fria (1948 – 1991) viu-se um período de reinado quase que absoluto dos EUA em termos econômicos, militar e tecnológico. Deste período para cá, intensificaram-se as intervenções militares dos EUA e seus aliados disfarçadas das mais esdrúxulas justificativas: implantação de democracia, perigo de armas nucleares, derrubada de ditadores, defesa de minorias. Até mesmo messianismo judaico-cristão tem sido evocado para justificar tais intervenções.
A verdade é que no século XXI o império estadunidense se vê ameaçado por uma potência econômica, tecnológica e militarmente com capacidade de mexer no tabuleiro geopolítico global. A China ganhou espaço e respeito mundial não pelas guerras e sim por sua capacidade inovadora e de investimentos ao redor do globo.
Os últimos acontecimentos inauguram ou, melhor dizendo, requentam a Guerra Fria: intervenção na Palestina e em vários países do Oriente Médio; ameaça de anexação da Groelândia; golpe na Venezuela; ampliação do bloqueio à Cuba… e mais recentemente, o ataque ao Irã. Há quem acredite e defenda tais intervenções que são uma violação grave ao direito internacional e aos direitos humanos (as potências não ponderam em atacar civis, prender ilegalmente, torturar, usar armas proibidas etc.).
De fato, tudo isso é muito triste, mas, infelizmente não me surpreende. Diante do avanço da extrema-direita mundial, cujas características principais são a xenofobia, a arrogância, o neoliberalismo econômico, o uso político do discurso religioso, a realidade não aponta para um futuro seguro. Uma terceira grande guerra pode parecer improvável, mas é absolutamente possível pois um império decadente (econômica e moralmente) não poupará nenhum esforço para recuperar sua hegemonia.
*Enildo Luiz Gouveia – Professor, poeta, cantor, compositor e teólogo. Membro da Academia Cabense de Letras – ACL
Este artigo não reflete necessariamente o pensamento do blog Falou e Disse.
