Crônicas

Cabo de Santo Agostinho: fé e violência

Enildo Luiz Gouveia*

Em 29.07.2025

Nossa fé não pode nos alienar dos problemas do mundo nem muito menos nos tornar ingênuos a ponto de cair em discursos fáceis e falaciosos.

Acredito que todas as pessoas pelo menos uma vez na vida já ouviu dizer que, quando alguém ou algum local está passando por dificuldades é por falta de fé. Desde a minha adolescência comecei a desconfiar de afirmações fatalistas envolvendo questões espirituais, de fé, etc. O padre Júlio Lancelotti, que atua junto à população em situação de rua no município de São Paulo, disse certa vez que na cidade existiam mais de 60 mil templos e que, portanto, o problema (da fome no caso específico) não era de fé, visto que quem frequenta alguma religião, em especial cristã, acredita em Deus e, portanto, tem fé. O problema da fome e de tantas outras questões sociais é de outra ordem.

Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que no Brasil existem mais templos que escolas e hospitais. A população cristã ultrapassa os 80% da população geral. Quando consideramos o Cabo de Santo Agostinho este percentual chega acima dos 70% e existem outros municípios com dados ainda maiores. Diante desses dados, como se explica as mazelas a exemplo da violência num país/município com tantas pessoas de fé?

Como católico praticamente desde a adolescência, graças a um processo formativo intenso fui amadurecendo a ponto de desconfiar de explicações genéricas, infundadas e tendenciosas dadas pretensamente à luz da fé, da Bíblia, etc. Acredito que se de fato os que se dizem crentes (de todas as religiões) entendessem que a fé tem uma dimensão prática, ou seja, além de cantar louvores, fazer adoração, participar de cultos, missas, retiros… as pessoas de fé deveriam se inserir nas lutas que transformam concretamente a vida das pessoas como um todo. Mas o que vemos é o predomínio de uma fé privada, individualista, simplista, demasiadamente devocional e pouco reflexiva/ativa, uma cruzada pra “converter” e ter mais adeptos. Parece que tudo se resolve com uma massagem no íntimo, um transe que leva a lágrimas e arrepios. Enquanto isso, nossa cidade, o Cabo de Santo Agostinho, ostenta o vergonhoso título de quinta cidade mais violenta do país.

Entendo que a fé é um elemento importantíssimo na vida das pessoas. E não estou afirmando que tudo se resolverá com a participação popular dos teístas. Mas, definitivamente, os problemas concretos que afetam milhões de brasileiros não se resolverão com mais templos e conversões. Uma fé cuja oração não implica na luta pelo bem comum, pelo respeito ao meio ambiente, pela tolerância… só contribui para agravar este quadro uma vez que, não poucas vezes, em períodos eleitorais aparecem “lobos em pele de cordeiro” que em “nome da fé, moral e dos bons costumes” se elegem e passam a confabular tramas que aprofundam cada vez mais as desigualdades e a violência.

Nossa fé não pode nos alienar dos problemas do mundo nem muito menos nos tornar ingênuos a ponto de cair em discursos fáceis e falaciosos. A tradição cristã e o próprio ministério de Jesus deram-se muito mais fora dos templos que dentro destes. Ele foi e nós hoje somos enviados a promover a vida e vida em abundância para todos e todas, mesmo para os que não creem.

*Enildo Luiz Gouveia – Professor, teólogo, poeta, cantor e compositor. É integrante da Academia Cabense de Letras.

Imagem destaque – Web

 

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