A luta antirracista tem que ser diária e o tempo inteiro
José Ambrósio dos Santos*
Em 04.09.2025
Numa distante manhã de 1975 eu assisti a uma cena que ficou gravada na minha memória e com frequência retorna, motivada por circunstâncias que disparam o gatilho de alerta para manifestações de racismo.
Caminhando pela Rua Dr. Antônio de Souza Leão, no Centro do Cabo de Santo Agostinho, na calçada que finda na igreja do Livramento, um jovem casal seguia alegremente, de mãos dadas. Ele branco e ela negra.
Do outro lado da rua, nas imediações do antigo Bar do Sátiro – bem próximo de onde hoje funciona a loja da rede de eletrodomésticos Casas Bahia -, uma saudação dirigida à jovem.
Oi, amiga! Querendo ‘limpar‘ a família?
A resposta foi imediata e, infelizmente, no mesmo tom:
Igual a você, amiga!
A amiga, também negra, tinha ao lado o namorado, um jovem branco.
87 anos após a Lei Áurea, jovens negras reproduzindo – ainda hoje creio que de modo inconsciente – o preconceito racista. Filhas de prósperos comerciantes, ambas cursando faculdade, mas ainda cativas do sentimento de inferioridade racial. Condição impiedosamente imposta pela elite branca da sociedade herdeira das muitas casas grandes dos muitos engenhos de cana-de-açúcar e de outras famílias abastadas da região, beneficiárias dos açoites e da humilhação a que eram submetidos os negros escravizados.
Um jugo ainda muito presente entre afrodescendentes, potencializado pelo racismo estrutural…
Aquelas jovens negras talvez pouco conhecessem da luta abolicionista do quase cabense Joaquim Nabuco (1849-1910), que viveu parte da infância no Engenho Massangana, um dos principais cartões postais do município. Foi a convivência com negros cativos naquele engenho que fez aflorar a consciência antiescravocata em Nabuco.
Há exatos 145 anos, em 30 de agosto de 1880, o deputado Joaquim Nabuco fez um discurso histórico na Câmara, que acabaria registrado nos anais sob o título “Urgência para um Projeto Abolindo a Escravidão”.

“A despeito da conspiração de todos os interesses, criados pelo trabalho do próprio escravo contra sua liberdade, uma ação mais poderosa, que é a atração do País pelas grandes forças morais do nosso século, há de fazer que um dia essa mesma lei diga aos que hoje sustentam a escravidão e que não querem que se lhe toque, com receio de que sem ela o País sucumba: não há mais escravos no Brasil!”, discursou Joaquim Nabuco.
Esse dia chegou oito anos depois, no dia 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela princesa Izabel.
O Brasil foi o último grande País ocidental a pôr fim à escravidão. De forma muito mal resolvida.
Sete gerações depois, assistimos manifestações diárias de racismo. E lamentavelmente, cenas como as protagonizadas pelas jovens negras há 50 anos, na Rua Dr. Antônio de Souza Leão, se repetem, apesar dos muitos avanços na consciência racial.

“Isso [os avanços na consciência racial] é fruto da luta de há muito e de muitas; a mudança de olhar, de práticas, de sonhos, o olhar no concreto da juventude”, reflete a filósofa e ativista da luta antirracista Piedade Marques, ressaltando que lhe anima ver a juventude exibindo com altivez o cabelo crespo por todo o Brasil.
A luta antirracista tem que ser diária e o tempo inteiro.
*José Ambrósio dos Santos é jornalista e integrante da Academia Cabense de Letras.
Foto destaque: Web
Fotos Engenho Massangana e ilustração: Web
Foto Piedade Marques: Acervo Piedade Marques
