Religiões de terreiro no Cabo de Santo Agostinho: resistência cultural e invisibilidade estatística no Censo 2022
Ricardo Jorge Silveira Gomes*
Em 14.07.2025
Introdução
O Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que apenas 0,31% da população do município do Cabo de Santo Agostinho, localizado na Região Metropolitana do Recife, se autodeclara pertencente às religiões de matriz africana, como o candomblé, a umbanda e a jurema sagrada. Embora estatisticamente modesto, esse percentual carrega consigo significados profundos que vão além da quantificação populacional: trata-se de uma expressão de identidade étnico-religiosa, de resistência cultural e de uma invisibilidade social e política que marca a trajetória histórica desses grupos no Brasil.
As religiões de matriz africana têm sido, ao longo dos séculos, alvo de estigmatização, criminalização e preconceito, tanto por parte do Estado quanto da sociedade civil, especialmente nas regiões onde predominam tradições cristãs hegemônicas. No entanto, como sublinha Beatriz Góis Dantas (2006), “a religião é, para os afrodescendentes, um dos principais lugares de reconstrução da memória, da história e da cultura.” Ou seja, os terreiros funcionam não apenas como espaços de fé, mas como núcleos de resistência simbólica e cultural diante de um contexto marcado pela persistência do racismo estrutural.
No caso do Cabo de Santo Agostinho, essa realidade se manifesta de modo particular. A cidade, marcada por uma intensa urbanização e por desigualdades sociais profundas, abriga uma pluralidade religiosa crescente, mas nem sempre reconhecida de forma equitativa. A baixa autodeclaração de pertencimento às religiões afro-brasileiras pode estar relacionada ao medo da intolerância, à desinformação dos recenseadores, ou ainda a uma identidade religiosa fluida, onde muitos praticantes frequentam simultaneamente igrejas católicas ou terreiros, numa lógica que desafia os modelos binários de classificação religiosa.
Além disso, como aponta Reginaldo Prandi (2005), “o candomblé e a umbanda são formas religiosas que, ao contrário do que se pensava, não estão em extinção, mas em permanente processo de reinvenção”. Isso significa que as religiões de matriz africana não apenas sobrevivem, mas se adaptam e se transformam, criando novas formas de expressão e pertencimento no cenário contemporâneo. No Cabo de Santo Agostinho, é possível observar a atuação de terreiros urbanos e periféricos que articulam práticas tradicionais com demandas comunitárias, como ações sociais, atendimento espiritual e promoção da identidade negra.
Portanto, o que o Censo revela — ou oculta — sobre essas religiões exige uma leitura crítica e contextualizada. É preciso reconhecer que os números não são neutros, e que a sub-representação dessas tradições religiosas é resultado direto de um processo histórico de silenciamento, de racismo religioso e de invisibilização institucional. Como bem argumenta Vagner Gonçalves da Silva (2010), o enfrentamento ao preconceito contra religiões de matriz africana passa pela valorização da sua presença nos territórios, pela garantia da liberdade religiosa e pelo reconhecimento do seu papel na formação da cultura brasileira.
Este artigo, portanto, tem como objetivo analisar a presença das religiões afro-brasileiras no Cabo de Santo Agostinho à luz dos dados mais recentes do Censo 2022, dialogando com autores que discutem os desafios e as reinvenções dessas tradições. A partir de uma abordagem crítica e interdisciplinar, busca-se compreender como tais religiões resistem, se transformam e continuam a desempenhar um papel fundamental na construção da diversidade religiosa e cultural do município.
- Panorama Demográfico e Territorial
De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2022, o município do Cabo de Santo Agostinho conta com uma população de aproximadamente 203.440 habitantes. Desse total, apenas 641 pessoas, o que equivale a 0,31%, declararam professar alguma religião de matriz africana, incluindo o candomblé, a umbanda, a jurema sagrada e outras tradições afro-brasileiras.
Esse percentual aparentemente reduzido contrasta fortemente com a presença concreta de terreiros, casas de culto e práticas religiosas afrodescendentes no território municipal, como constatado por observações empíricas, registros culturais e pesquisas etnográficas realizadas por pesquisadores locais. Essa discrepância entre a realidade das práticas e os dados quantitativos pode ser compreendida como reflexo de uma invisibilidade estatística, associada a um contexto histórico de estigmatização religiosa e racial.
Para Vagner Gonçalves da Silva (2010), essa sub-representação é parte de um fenômeno mais amplo que ele denomina de “racismo religioso”, um tipo de preconceito que atinge especificamente religiões vinculadas à ancestralidade africana, e que se expressa em forma de discriminação, violência simbólica e apagamento institucional. Segundo o autor, “o medo da intolerância empurra muitos praticantes para o silêncio e a omissão, inclusive diante de recenseadores do IBGE”.
Essa situação é confirmada por Silva (2007), ao afirmar que “o preconceito e a intolerância empurram os praticantes para o silêncio censitário, ocultando sua identidade religiosa”. Em outras palavras, muitos adeptos dessas religiões preferem não declarar publicamente sua fé, por receio de represálias sociais ou mesmo familiares. O resultado disso é um apagamento quantitativo que compromete o reconhecimento público e político desses grupos.
Além do receio da discriminação, a falta de preparo dos recenseadores e a ausência de categorias mais sensíveis à diversidade religiosa afro-brasileira também contribuem para esse cenário. Como observa Matos (2022), “as metodologias censitárias ainda carregam a herança de um olhar hegemônico e cristão sobre a religiosidade no Brasil, o que gera distorções nos dados e negligência quanto às manifestações ditas ‘minoritárias’.”
No caso do Cabo de Santo Agostinho, diversos relatos indicam a existência de uma rede expressiva de terreiros, alguns com longa tradição, funcionando tanto em áreas urbanas quanto nas zonas rurais do município, especialmente nos bairros de Pontezinha, Ponte dos Carvalhos, Garapu, Gaibu e Pirapama. Esses espaços operam como centros religiosos e comunitários, mas, muitas vezes, são invisíveis aos olhos do poder público e dos órgãos de estatística, por não estarem formalizados ou por funcionarem de maneira discreta.
Como destaca Reginaldo Prandi (2005), “os terreiros vivem sob a sombra de séculos de perseguição e preconceito, e muitos preferem permanecer ocultos a correr o risco de ataques e discriminações”. Essa afirmação ajuda a compreender porque há um descompasso entre o número de praticantes declarados e a vivência religiosa efetiva em diversas comunidades.
Outra questão relevante é que muitos praticantes das religiões de terreiro mantêm uma identidade religiosa fluida, transitando entre diferentes tradições religiosas. É comum, por exemplo, que adeptos do candomblé também frequentem missas católicas, fenômeno que Beatriz Góis Dantas (2009) chama de sincretismo plural, e que desafia os modelos rígidos de classificação religiosa aplicados pelo IBGE.
Portanto, o panorama demográfico das religiões de matriz africana no Cabo de Santo Agostinho não pode ser interpretado apenas pelos números oficiais. É necessário compreendê-lo à luz das tensões entre identidade, reconhecimento e resistência, inseridas em um contexto de persistente desigualdade racial e religiosa no Brasil.
- Invisibilidade Estatística e Racismo Religioso
A persistente sub-representação das religiões de matriz africana nos dados censitários, como observado no caso do Cabo de Santo Agostinho, não é um fenômeno isolado nem casual. Trata-se de uma manifestação direta do que o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva (2010) denomina “racismo religioso” — uma forma particular de discriminação que articula o racismo estrutural à intolerância religiosa, atingindo de forma sistemática as tradições afro-brasileiras, como o candomblé, a umbanda e a jurema sagrada.
Segundo Silva, esse tipo de racismo não se expressa apenas em ações explícitas de violência ou perseguição, mas também em práticas cotidianas e estruturas institucionais que marginalizam as religiões negras, desde as escolas até os censos oficiais. “O racismo religioso”, escreve o autor, “é a face espiritual do racismo à brasileira, que transforma a fé dos descendentes de africanos em motivo de exclusão e ataque” (SILVA, 2010, p. 112).
Essa marginalização se estende ao campo da produção estatística, onde os instrumentos de medição da realidade social — como o Censo Demográfico — tendem a reproduzir silêncios e invisibilidades históricas. A baixa autodeclaração de pertencimento às religiões de terreiro é, nesse sentido, não apenas um problema metodológico, mas também um sintoma das violências simbólicas sofridas por seus praticantes.
Djamila Ribeiro (2018) alerta para o fato de que a invisibilidade é, em si mesma, uma forma de opressão: “A invisibilidade das religiões afro-brasileiras nos dados oficiais é uma forma de violência simbólica, pois nega sua existência e importância cultural” (RIBEIRO, 2018, p. 84). Ao serem apagadas dos registros públicos, essas tradições são também excluídas das políticas públicas, da proteção legal efetiva e do reconhecimento cultural amplo.
A ausência de dados confiáveis e amplos sobre as religiões afro-brasileiras tem efeitos concretos na formulação de políticas voltadas para a liberdade religiosa, combate à intolerância e valorização do patrimônio imaterial. Como destaca Rosemberg (1999), “a produção do desconhecimento sobre os grupos subalternizados é uma das estratégias de manutenção do status quo racial”. Isso se aplica com clareza ao caso das comunidades de terreiro, cuja atuação social, pedagógica e cultural muitas vezes passa despercebida pelas instâncias de poder.
No campo jurídico e político, essa invisibilidade se manifesta também na ausência de proteção efetiva aos terreiros diante de ataques, violências físicas ou perseguições legais motivadas por preconceito religioso. Embora existam dispositivos constitucionais que garantam a liberdade de culto e criminalizem a intolerância religiosa (como a Lei nº 9.459/1997), sua aplicação é frequentemente negligente, seletiva ou ineficaz quando se trata das religiões afrodescendentes.
Além disso, como argumenta Sueli Carneiro (2003), o racismo no Brasil opera de forma velada, simbólica e institucional, o que torna suas manifestações religiosas especialmente vulneráveis. “O racismo brasileiro se caracteriza por sua negação. Ele existe, mas não se reconhece como tal, especialmente quando se manifesta no campo religioso, onde é travestido de guerra espiritual ou de conflito moral” (CARNEIRO, 2003, p. 56).
No caso do Cabo de Santo Agostinho, essa realidade pode ser observada nas práticas de silenciamento, nas restrições ao uso público dos terreiros, na dificuldade de obtenção de alvarás ou na resistência institucional em reconhecer tais espaços como centros de referência cultural e comunitária. Esse processo de invisibilização estatística, portanto, não é neutro, mas carrega implicações políticas que impactam diretamente a vida dos praticantes e a preservação dessas religiões como expressões legítimas da diversidade brasileira.
Assim, o racismo religioso e a invisibilidade estatística devem ser compreendidos como fenômenos interdependentes, que impedem o pleno reconhecimento e valorização das tradições de matriz africana, tanto no plano simbólico quanto nas políticas públicas. Reconhecer esse quadro é o primeiro passo para transformar as formas como o Estado e a sociedade brasileira lidam com a pluralidade religiosa e com o legado africano presente em nossa cultura.
- Terreiros e Territorialidade no Cabo
Apesar da expressiva sub-representação estatística registrada no Censo Demográfico de 2022 — que aponta apenas 0,31% da população do Cabo de Santo Agostinho como adepta das religiões de matriz africana —, o município abriga uma significativa e diversa rede de terreiros de umbanda, candomblé e jurema sagrada. Esses espaços não se limitam à prática ritualística, mas se constituem como centros de resistência cultural, afirmação identitária e produção de saberes ancestrais.
Presentes em bairros periféricos como Pontezinha, Charneca, Garapu, Ponte dos Carvalhos, Gaibu e Pirapama, os terreiros desempenham um papel crucial na dinâmica comunitária e espiritual local. São espaços nos quais se transmitem tradições orais, se preserva a memória africana e se praticam formas alternativas de cuidado e acolhimento. Como enfatiza Vagner Gonçalves da Silva (2010), os terreiros “não são apenas lugares de culto, mas também espaços de sociabilidade, cura e reinvenção da cultura afro-brasileira”.
O reconhecimento da importância desses espaços extrapola a religiosidade. Como afirma Reginaldo Prandi (2004, p. 48), “os terreiros são verdadeiros quilombos urbanos, guardiões de uma memória que resiste à escravidão e ao apagamento cultural”. Essa imagem é particularmente adequada ao Cabo de Santo Agostinho, um território marcado por intensas desigualdades sociais e raciais, onde os terreiros se constituem como zonas de refúgio e reexistência para populações negras e periféricas.
Além disso, os terreiros exercem um papel ativo na produção do território religioso, reconfigurando o espaço urbano a partir de práticas simbólicas e rituais. Beatriz Góis Dantas (2009) observa que “as religiões afro-brasileiras constroem seus territórios não apenas fisicamente, mas também cosmologicamente, criando eixos de ligação entre o sagrado e o cotidiano”. Essa territorialidade sagrada — expressa em lugares de axé, árvores sagradas, encruzilhadas e rios — reforça a sacralização do espaço vivido e desafia as lógicas eurocêntricas de organização urbana.
No contexto cabense, essa territorialidade se manifesta na ocupação de casas simples, muitas vezes não regularizadas, que funcionam como terreiros, nas festas de orixás abertas à comunidade e nos atendimentos espirituais gratuitos. Em muitos casos, tais espaços também oferecem apoio material a famílias carentes, promovem atividades culturais com jovens da comunidade e atuam como polos de preservação da identidade negra e da memória afro-brasileira. Como afirma Sodré (1999, p. 133), “os terreiros são, ao mesmo tempo, arquivos de uma memória viva e laboratórios de uma cultura em transformação”.
Por outro lado, a permanência desses espaços no tecido urbano enfrenta inúmeros desafios, desde a falta de regularização fundiária, passando pela hostilidade de vizinhos neopentecostais, até a inércia do poder público. Muitos pais e mães de santo relatam dificuldades para registrar suas casas como associações religiosas, impedindo o acesso a políticas públicas e à proteção legal.
Esse cenário de vulnerabilidade é também resultado do que Rafael Sampaio (2021) identifica como “colonialidade do espaço religioso”, isto é, uma lógica urbana que valoriza as formas cristãs de culto e marginaliza as manifestações afrodescendentes, mesmo quando estas cumprem funções sociais relevantes. O autor propõe que o reconhecimento dos terreiros como espaços de cidadania e direitos culturais seja incorporado nas políticas públicas urbanas e de patrimônio imaterial.
Portanto, pensar os terreiros do Cabo de Santo Agostinho é compreender sua centralidade na vida espiritual, cultural e política de centenas de pessoas. Esses espaços, longe de serem resíduos de um passado folclórico, são formas vivas de resistência afro-brasileira, capazes de articular tradição e contemporaneidade em contextos urbanos marcados pela desigualdade e pela luta por reconhecimento.
- Desafios Atuais: Intolerância e Políticas Públicas
No cenário contemporâneo, as religiões de matriz africana no Brasil, e particularmente no município do Cabo de Santo Agostinho, enfrentam uma série de desafios estruturais e conjunturais que limitam sua atuação e ameaçam sua permanência territorial e simbólica. Tais desafios derivam de dois eixos principais: de um lado, o avanço político e ideológico de grupos religiosos fundamentalistas; de outro, a fragilidade das políticas públicas de promoção da igualdade racial e religiosa, que se mostram insuficientes diante da complexidade das demandas dessas comunidades.
O crescimento do fundamentalismo religioso — notadamente o neopentecostal — tem gerado cenários de conflito e hostilidade, sobretudo nas periferias urbanas, onde os terreiros convivem com igrejas neopentecostais de orientação agressivamente proselitista. Como observa Flávio Pierucci (2004), “os segmentos neopentecostais tendem a demonizar as religiões afro-brasileiras, representando-as como práticas malignas e perigosas”. Essa visão se traduz em ações de intolerância religiosa, que vão desde agressões verbais e difamações públicas até ataques físicos a terreiros e destruição de objetos sagrados.
No Cabo de Santo Agostinho, diversos relatos de mães e pais de santo apontam para perseguições cotidianas, como a proibição de toques de tambor, denúncias anônimas infundadas e a atuação de conselhos tutelares e delegacias em casos de iniciações religiosas de menores, mesmo quando consentidas pelos responsáveis legais. A intolerância religiosa, como alerta Sueli Carneiro (2003), é também uma forma de violência racial, pois visa suprimir uma cultura marcada pela ancestralidade negra e pela resistência histórica ao colonialismo.
Paralelamente, os instrumentos legais e institucionais de proteção às religiões de terreiro ainda são frágeis, mal aplicados ou inexistentes em muitas cidades brasileiras. A Constituição Federal de 1988 garante a liberdade de crença (art. 5º, VI), mas sua efetivação depende de políticas públicas que reconheçam e valorizem a pluralidade religiosa, o que raramente acontece no caso das tradições afro-brasileiras. A Lei nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas, por exemplo, ainda encontra forte resistência e baixa implementação, inclusive em contextos onde os terreiros desempenham papel educativo informal.
Como destacam Gomes e Silva (2021), “é necessário o reconhecimento jurídico e institucional dos terreiros como espaços de preservação cultural e direitos humanos, e não apenas como locais de culto”. Tal reconhecimento implica regularização fundiária, proteção contra ataques, inserção em políticas culturais e urbanísticas, além do incentivo à salvaguarda das tradições orais e rituais. No entanto, o que se observa, na prática, é uma negligência do Estado e uma resistência institucional à legitimação desses espaços, tratados muitas vezes como “problemas” urbanos ou alvos de intervenção disciplinadora.
A regularização fundiária dos terreiros é um dos pontos mais críticos. Muitas casas funcionam em terrenos não titulados, o que impede o acesso a editais, financiamento público e proteção patrimonial. Edson Lopes Cardoso (2015) argumenta que a questão fundiária está no cerne da luta por direitos das religiões afro-brasileiras: “Sem território, não há terreiro. E sem terreiro, não há preservação da cultura afro-brasileira.”
Além disso, há uma lacuna na formação de agentes públicos, como professores, assistentes sociais, policiais e servidores da saúde, no que diz respeito ao reconhecimento da religiosidade afro-brasileira como legítima e constitucionalmente protegida. O desconhecimento ou o preconceito desses profissionais reproduz formas institucionais de racismo religioso, como apontado por Ferreira (2018): “O Estado brasileiro, mesmo laico, ainda opera sob uma lógica cristã, que trata as religiões afro como exóticas, ameaçadoras ou secundárias.”
Para enfrentar esse quadro, é necessário avançar em políticas de promoção da igualdade religiosa, como a criação de conselhos municipais de diversidade religiosa, campanhas públicas de combate à intolerância, incentivos culturais específicos e programas de memória e valorização dos terreiros enquanto patrimônio cultural imaterial, como já reconhecido em estados como Bahia e Maranhão.
Assim, os desafios enfrentados pelas religiões de matriz africana no Cabo de Santo Agostinho exigem ações concretas do poder público, mas também a mobilização da sociedade civil, das universidades, das escolas e dos próprios coletivos religiosos. A defesa dos terreiros não diz respeito apenas à liberdade de culto, mas à preservação de uma herança civilizatória negra, fundamental para a identidade e a diversidade cultural brasileira.
- Considerações Finais
Apesar da representação estatística modesta revelada pelo Censo Demográfico de 2022 — com apenas 0,31% da população do Cabo de Santo Agostinho se identificando como adepta das religiões de matriz africana —, as religiões de terreiro permanecem como expressões fundamentais da diversidade cultural, religiosa e racial do município. Sua importância transcende os números. Elas sustentam formas de sociabilidade, espiritualidade e resistência que têm sido cruciais na construção da identidade negra e popular no contexto urbano e periférico da cidade.
Essas comunidades religiosas continuam a existir e a atuar mesmo diante de um ambiente marcado por intolerância, racismo religioso, invisibilidade institucional e precariedade de direitos. Seus terreiros, muitas vezes instalados em áreas vulneráveis, constituem territórios simbólicos e concretos de resistência, nos quais se articula a herança africana, a sabedoria tradicional e práticas de solidariedade comunitária. Como escreve Milton Santos (2002), “os territórios não se definem apenas pela geografia, mas pela densidade das relações que neles se produzem”. Os terreiros, assim, são territórios de axé, de memória e de pertencimento.
A manutenção dessas práticas religiosas representa, portanto, um ato contínuo de reexistência — uma forma de afirmar a vida negra em meio a um país estruturado pela desigualdade racial. Como defende Sueli Carneiro (2003, p. 59), “a luta contra o racismo no Brasil passa, necessariamente, pelo reconhecimento e valorização das expressões culturais e religiosas de matriz africana”. No contexto cabense, esse reconhecimento precisa ser reforçado por ações concretas que garantam a proteção, a visibilidade e a legitimidade dessas práticas.
É fundamental que o Estado e a sociedade civil reconheçam os terreiros como patrimônio imaterial da cidade, promovendo políticas de salvaguarda cultural, proteção fundiária, inclusão nos editais de cultura e respeito à liberdade religiosa.
Como afirma Beatriz Góis Dantas (2009, p. 115), “a religiosidade afro-brasileira é uma força viva da cultura nacional, e sua sobrevivência é uma questão de justiça histórica”. Isso implica não apenas tolerância, mas reparação histórica e valorização ativa dessas tradições no espaço público. Não basta que o poder público assegure a liberdade de culto — é necessário criar condições para que essas comunidades floresçam, se fortaleçam e transmitam seus saberes às novas gerações.
Além disso, a construção de uma cidade plural e democrática exige o reconhecimento da plurirreligiosidade como elemento estruturante da cidadania. Como observa Reginaldo Prandi (2005), “a religiosidade afro-brasileira desafia os modelos hegemônicos de fé, pois propõe uma outra lógica, onde o sagrado se entrelaça com o corpo, com a ancestralidade e com a coletividade”. Reconhecer isso é reconhecer o direito à diferença e ao pluralismo como valores centrais de uma sociedade justa.
Por fim, este artigo reforça a urgência de se ampliar o debate público sobre as religiões de matriz africana, especialmente em nível local, considerando suas especificidades, desafios e contribuições. O Cabo de Santo Agostinho, ao abrigar essa diversidade religiosa, tem a oportunidade histórica de se tornar um exemplo de respeito, valorização e convivência intercultural. Para isso, é necessário romper com o silêncio estatístico, o preconceito estrutural e o descaso institucional que ainda marcam a trajetória dos terreiros em sua luta por existência e dignidade.
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*Ricardo Jorge Silveira Gomes – Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro Efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro Efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho – IHAGCCABO. Seis Livros Publicados: GOMES, Ricardo Jorge Silveira. A Jornada de Trabalho do Docente: Ritual de deveres, restrições de direitos. Editora Universitária/UFPE.Recife.2020. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Pode confiar, ele é crente! Igrejas Pentecostais e as eleições cabenses de 2004. Editora Bagaço. Recife, 2018. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Vozes da Educação – Dialogar. Volume VII. A abordagem Freireana e as Ciências da Religião: construindo pontes rumo a Educação e Diversidade Cultural. São Paulo. 2018. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. ACADEMIA DE LETRAS DE ESCADA – VIII ANTOLOGIA de textos Científicos – O Empreendedorismo de Madre Iva. João Pessoa, 2020. GOMES, Ricardo Jorge Silveira Gomes. DA MISSA Á MILITÂNCIA: A trajetória Religiosa/Política do Padre Antônio Melo costa no município do Cabo de Santo Agostinho/PE (1963-1977). Curitiba – Appris, 2023. GOMES, Ricardo Jorge Silveira Gomes. Erivaldo Alves: Uma jornada de fé em ação acolhedora. Editora Inovação. 2025.
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