A diversidade do segmento evangélico no Cabo de Santo Agostinho: entre tradições, renovação e expansão
Ricardo Jorge Silveira Gomes*
Em 25.06.2025
Os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE revelam que o segmento evangélico representa 43,73% da população do Cabo de Santo Agostinho (PE), consolidando-se como o maior grupo religioso do município. Esse percentual supera os católicos (28,16%) e indica uma reconfiguração importante no campo religioso local. No entanto, mais do que o crescimento numérico, é fundamental destacar a diversidade interna do segmento evangélico, que não pode ser reduzido a uma identidade homogênea ou exclusivamente pentecostal.
O campo evangélico é composto por três grandes vertentes: igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais, cada uma com suas doutrinas, estratégias de expansão e inserção territorial distintas.
As igrejas evangélicas históricas, como a Igreja Batista, a Presbiteriana e a Metodista, estão presentes na cidade desde meados do século XX e geralmente possuem forte tradição educacional e doutrinária. Essas denominações são marcadas por liturgias mais sóbrias, ênfase na leitura bíblica e organização institucional estável, sendo comumente associadas a setores da classe média urbana.
Já as igrejas pentecostais, como a Assembleia de Deus, a Congregação Cristã no Brasil, a Igreja Cristã Maranata e a Igreja Casa da Bênção, apresentam forte penetração nos bairros populares do município, com cultos marcados por manifestações carismáticas, como o dom de línguas, curas e profecias. Essas igrejas foram responsáveis por uma significativa expansão evangélica a partir da segunda metade do século XX, por meio de intensa capilaridade territorial, redes de vizinhança e atuação comunitária.
As igrejas neopentecostais, por sua vez, como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), a Igreja Mundial do Poder de Deus e a Igreja Internacional da Graça de Deus, apresentam uma proposta teológica mais voltada para a teologia da prosperidade e para a batalha espiritual. São conhecidas pelo uso estratégico dos meios de comunicação (rádio, televisão, redes sociais), pela ocupação de grandes centros urbanos e por forte envolvimento político, inclusive no contexto eleitoral local.
Essa tripla composição — histórica, pentecostal e neopentecostal — ajuda a compreender a complexidade do evangelismo no Cabo de Santo Agostinho. Cada vertente possui dinâmicas próprias de crescimento e disputa por fiéis, revelando formas diversas de presença religiosa: algumas mais tradicionais, outras mais adaptadas à lógica do consumo religioso contemporâneo.
Assim, à luz do Censo 2022, é possível afirmar que a força evangélica no município não está apenas nos números, mas também em sua capacidade de se diversificar e ocupar múltiplos espaços sociais: dos bairros periféricos aos centros comerciais, das praças públicas aos meios digitais, das rádios comunitárias às câmaras legislativas.
Esse panorama revela que o avanço evangélico no Cabo de Santo Agostinho não é apenas uma mudança religiosa, mas também social, política e territorial. Trata-se de uma nova configuração no campo religioso que desafia os modelos tradicionais de pertencimento e que impõe à sociedade e aos estudiosos da religião o dever de compreender esse fenômeno em toda a sua complexidade.
Portanto, compreender o crescimento evangélico na cidade requer não apenas contabilizar fiéis, mas reconhecer suas múltiplas formas de expressão, suas implicações na vida cotidiana, e suas interações com o poder público, a cultura local e os processos de urbanização. Ignorar essa pluralidade é perder a chance de interpretar com profundidade a reconfiguração das identidades religiosas no século XXI.
REFERÊNCIAS
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Alves, J. E. D. Diversos estudos (2006–2017) sobre as dinâmicas de filiação evangélica, impactos econômicos e políticas religiosas no Brasil ihu.unisinos.br.
Mendonça, A. G. Autor de obras importantes, como O celeste porvir, que analisam a inserção do protestantismo e suas transformações institucionais no Brasil pt.wikipedia.org.
*Ricardo Jorge Silveira Gomes – Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro Efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro Efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho – IHAGCCABO.
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