Artigo

Transformação do culto/missa à performance da boa imagem e do consumo leva líderes religiosos à exaustão

Erivaldo Alves*

Em 19.02.2026

Aqui os líderes religiosos são influencers e os seguidores discípulos. Os personagens bíblicos – Abraão, Moisés, Jesus, Paulo… – são substituídos por pessoas de sucesso independentemente do caráter. 

Líderes religiosos estão cansados, exaustos e até deprimidos em vista da transformação do culto/missa à performance da boa imagem e do consumo. Nesse particular, a religião sai da categoria de repressora para permissiva onde Freud, Nietzsche e Max não teriam o que criticar.

A cultura de falar ao povo e não falar a si mesmo (sociedade da hipocrisia) caracteriza uma sociedade doente emocional e fisicamente. A imposição divina envolve pregar para si mesmo antes de pregar para os outros. O tempo presente padece de falta de disciplina e está imerso na performance. As redes sociais nos oferecem a possibilidade de ser o que quisermos, e por nunca chegamos onde queremos.

A teologia coach é a novidade no momento e os líderes religiosos deixaram de ser profetas para serem agradáveis a “fiéis” ávidos por massagem nos seus egos.

Aquilo que antes era um problema pelo exagero, hoje faz falta por sua ausência. Freud, Nietzsche e até Max, não teriam o que criticar na realidade atual da religião de mercado. Aquilo de que éramos criticados em séculos anteriores – da teologia bíblica para a teologia da autoajuda. Os tempos do “não” terminaram e deram lugar aos tempos do “sim” – a pregação da positividade onde não há nada que o cristão não possa fazer: está tudo liberado. A palavra pecado foi definitivamente extinta do vocabulário. Não se fala mais no que não se deve fazer, apenas no que se pode fazer.

A pessoa que se submete a essa pregação da positividade acreditando que nada é impossível, acaba se questionando quando não percebe em si mesmo aquilo que supostamente deveria poder alcançar. Essa é maneira ver um “deus” que age para nós. Aqui não há conversão. Em seu lugar aparece a benção oferecida. O “seja feita tua vontade” é substituído por “seja feita a minha vontade” (com referência a Mateus 26.39). Nesta visão, Deus é um serviçal. Aqui a religião não é negada, mas sujeita à cultura vigente.

Visto que a religião indica o que as pessoas devem ou não fazer, a teologia da positividade esbarra no ensino de Jesus – o negar-se a si mesmo (Lucas 9.23). Essa tendência vai de encontro a essência do Evangelho. Os “fiéis” saem do teocentrismo e ingressam no egocentrismo, que por sua vez substituiu o antropocentrismo. A religião motivacional ocupa cada vez mais espaço em nossos templos que já não têm mais aparência de templo. Aqui os líderes religiosos são influencers e os seguidores discípulos. Os personagens bíblicos – Abraão, Moisés, Jesus, Paulo… – são substituídos por pessoas de sucesso independentemente do caráter. 

RELIGIÃO NARCISIFICADA –  O outro não existe, o que existe é a absorção do outro em  objeto da minha extensão. As relações instáveis e fluídas permanecem e os novos “discípulos” não desejam inteiração nem proximidade. No máximo uma noite apenas e nada mais em ocasiões festivas. Um aspecto ignorado nessa relação diz respeito ao aprisionamento de si mesmo em um mundo digital de redes sociais. Uma verdadeira deturpação do Evangelho onde se estabelece uma religiosidade voltada para si mesmo. Os pregadores dessa corrente buscam apenas agradar a si mesmos e o outro é apenas aquele que ouve o que quer ouvir. As relações são fluídas através das redes sociais e quando se fala de “amigos” o significado é diferente do verdadeiro significado. São 500, 1000 e basicamente nenhum.

As pregações na Internet são medidas pelo que agrada e o que desagrada e tem-se a oportunidade de se melhorar de acordo com o gosto do cliente e não com a direção de Deus. Esses tipos de fiéis ou acompanham os cultos pela internet – “os crentes online” – ou decidem participar de forma discreta na multidão de uma grande igreja da moda. E ainda há os que pulam de igreja em igreja alegando dificuldade de relacionamento e hipocrisia por parte dos seus membros. Esses esquecem que a igreja de Cristo tem Judas, Simão Zelote, Pedro e até Tomé.

As relações estão cada vez mais impessoais. Não se vai mais a funerais nem a aniversários e muito menos a hospitais. Se manda uma mensagem de texto do tipo: “meus pêsames, parabéns, tudo de bom, estou orando por você”. É a chamada digitalização da fé, onde curtir é o amém da fé. Os altares são as redes sociais. As confissões não são mais nas igrejas, mas nas redes sociais. A exposição deixou de ser em ambiente seguro (igreja) e passou a ser na Internet a fim de se tornar importante ou reconhecido, banalizando-se suas alegrias e dores. Buscando obter benefícios com essa exposição findam frustrados e decepcionados. Por outro lado, muitos líderes religiosos têm assumido a posição de terapeutas evitando o confronto, limitando-se a ouvir ou permitir falar sem interferir sem qualquer contestação. O líder religioso não pode negligenciar sua função profética e portanto espiritual. Cada vez mais as igrejas têm visto pessoas que são frequentadoras sem compromisso, que não querem participar das atividades da igreja.

Não se pode esquecer que sociedade atual não é mais uma sociedade repressora, mas uma sociedade permissiva. Apesar disso assusta o número de pessoas depressivas e o número de suicídio dentro de nossas igrejas inclusive no seio da liderança pastoral. Isso muitas vezes em decorrência da imposição da lógica do mercado com vista na produtividade. Os pastores que estão em evidências são aqueles que têm um grande número de membros em suas igrejas. Isso muitas vezes às custas de sua saúde emocional e física. Sem contar com os problemas familiares de divórcios e filhos envolvidos com drogas. Para esses líderes a droga é a ação – o ativismo.

O descuido com a verdade. Observamos com frequência que muitos cristãos que deveriam observar a verdade a qualquer custo estão servido e se municiando de notícias falsas para seus propósitos partidários/ideológicos caindo na ilusão de que nossa rede social particular é diferente e detentora da verdade. Quando algo contraria nossa visão simplesmente a negamos e evitamos a qualquer custo ao invés de considerar que pode haver validade em uma declaração que não se coaduna com a nossa visão. Assim se vai colocando ideologias e preferencias políticas acima da fé em Jesus Cristo. Não podemos esquecer que a comunicação dirigida por algoritmos nas mídias sociais não é nem livre, nem democrática.

Cabe aqui o conselho do velho Saulo de Tarso: “Não permitam que outros os escravizem com filosofias vazias e invenções enganosas provenientes de raciocínio humano, com base nos princípios espirituais deste mundo, e não em Cristo” (Colossenses 2.8). 

A cultura da imagem em detrimento do conteúdo. As pregações são proferidas com vistas em cortes a fim de gerarem engajamento no formato das mídias digitais. Tudo preparado para que o melhor seja apresentado sem a preocupação da “verdade sobre a verdade”. Me pego fazendo a seguinte reflexão:

                                                Estão pensando por mim por meio dos algoritmos,  

                                                Estão me conduzindo por onde eu nem sei pra onde, 

                                                Estão no controle de mim, 

                                                Estão me robotizando, 

                                                Estão me desumanizando  

                                                Não sinto falta de ninguém 

                                                Sinto falta de mim mesmo

NOTA DO AUTOR: Este artigo é uma reflexão a partir da leitura de Sociedade do Cansaço, de Byung Chul Han, e Igreja do Cansaço, de Willibaldo Ruppenthal Neto.

Erivaldo AlvesTeólogo e membro da Academia Cabense de Letras 

 

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