Artigo

Religião, gênero e território: a atuação das mulheres religiosas no Cabo à luz do Censo de 2022

Ricardo Jorge Silveira Gomes[1]

Em 30.07.2025

 Introdução

As mulheres sempre ocuparam um lugar de destaque nas vivências religiosas brasileiras, sendo maioria nas fileiras das igrejas e terreiros, responsáveis por práticas cotidianas de fé, cuidado, oração e sustento dos espaços sagrados. Apesar disso, sua atuação é frequentemente invisibilizada pelas estruturas patriarcais das instituições religiosas e negligenciada pelos registros oficiais, inclusive pelas políticas públicas. Essa realidade revela uma contradição histórica: embora centrais no funcionamento das religiões, as mulheres raramente têm sua liderança plenamente reconhecida nos níveis formais de poder.

No município do Cabo de Santo Agostinho, situado na Região Metropolitana do Recife, essa contradição adquire contornos territoriais. Segundo o Censo Demográfico de 2022, a cidade apresenta uma diversidade religiosa expressiva, com forte presença evangélica (43,73%), seguida por católicos (28,16%) e por um contingente crescente de pessoas sem religião (21,97%). Ainda que os dados não apresentem um recorte de gênero detalhado por religião no nível municipal, é possível — com base em levantamentos anteriores e na observação empírica — afirmar que as mulheres são maioria nas práticas religiosas populares, especialmente nas igrejas pentecostais, nos grupos católicos de base e nas comunidades de matriz africana.

Este artigo busca compreender como as mulheres se articulam religiosamente no território cabense e de que maneira seus corpos e práticas de fé desafiam ou reproduzem as estruturas de poder, exclusão e gênero. Partimos da premissa de que a religiosidade feminina é tanto uma forma de resistência quanto de mediação social, especialmente nos bairros mais vulneráveis, onde o Estado é ausente e o sagrado se territorializa em garagens, casas adaptadas, terreiros e templos improvisados.

A reflexão proposta se ancora nos aportes teóricos de Ivone Gebara (2000), que denuncia o silenciamento das mulheres nas tradições cristãs patriarcais, de Judith Butler (2003), com sua crítica às normas de gênero reiteradas pela performatividade religiosa, e de Pierre Bourdieu (1998), que analisa como o poder simbólico das instituições religiosas legitima e reproduz a dominação masculina. Também dialogamos com a perspectiva de Michel de Certeau (1994) sobre as táticas cotidianas de resistência, e com Milton Santos (2002), que nos permite pensar o território como um produto da ação social — onde as práticas religiosas femininas reorganizam espaços urbanos marcados pela precariedade.

Assim, o objetivo deste artigo é lançar luz sobre a religiosidade das mulheres no Cabo de Santo Agostinho como uma força vital nas periferias urbanas, destacando sua centralidade na sustentação espiritual e material das comunidades, bem como suas estratégias de organização, enfrentamento da exclusão e construção de pertencimento. Em tempos de retrocessos sociais e religiosos, refletir sobre a fé vivida por mulheres pobres e periféricas é um exercício de escuta, reconhecimento e justiça epistêmica.

  1. Religião, Gênero e Invisibilidades

A relação entre religião e gênero, sobretudo no contexto das religiões institucionalizadas, revela uma longa história de silenciamento, controle e exclusão das mulheres. Como denuncia Ivone Gebara (2000), “as mulheres foram sistematicamente silenciadas pelos discursos religiosos patriarcais”, sendo relegadas a papéis secundários ou meramente decorativos, mesmo quando são as principais responsáveis por manter vivas as práticas da fé cotidiana.

Essa realidade é especialmente visível nas igrejas cristãs — tanto na tradição católica quanto nas evangélicas — onde o protagonismo feminino é, em grande parte, simbólico ou invisível. Contudo, nas periferias urbanas, como em vários bairros do Cabo de Santo Agostinho, esse protagonismo se torna incontornável. São as mulheres que organizam cultos, lideram círculos de oração, coordenam corais, limpam e decoram os templos, cuidam da catequese, das crianças, dos idosos e dos doentes. Em comunidades de matriz africana, são elas que comandam os terreiros, zelam pelos orixás e sustentam financeiramente e espiritualmente as casas religiosas.

Segundo Pierre Bourdieu (1998), o poder simbólico das religiões opera de forma a naturalizar a desigualdade entre os sexos, legitimando a dominação masculina como expressão da “vontade divina” ou de “ordens espirituais superiores”. Assim, mesmo quando participam intensamente das atividades religiosas, as mulheres são mantidas fora dos espaços institucionais de decisão e liderança formal, o que reforça um ciclo de invisibilidade e subordinação.

No entanto, como analisa Maria José Rosado Nunes (1993), as mulheres reinterpretam, ressignificam e adaptam as normas religiosas ao seu cotidiano, muitas vezes “realizando uma teologia prática e feminista não nomeada, mas profundamente transformadora”. Essa capacidade de reinventar a fé a partir do cotidiano tem sido decisiva para a sobrevivência de comunidades religiosas em contextos de pobreza, violência e ausência do Estado.

No Cabo de Santo Agostinho, essas tensões se expressam com nitidez. Nas igrejas pentecostais, por exemplo, é comum que mulheres atuem como missionárias, diaconisas e pastoras, exercendo papéis de liderança espiritual e comunitária, mas frequentemente subordinadas a uma lógica hierárquica masculina. Já nos terreiros de matriz africana, a figura da mãe de santo possui maior autonomia e autoridade, sendo reconhecida como liderança moral, espiritual e política da comunidade. Essa diferença não elimina as disputas por legitimidade e visibilidade, mas evidencia a pluralidade das formas de vivência religiosa feminina.

Além disso, como propõe Judith Butler (2003), os papéis de gênero são socialmente construídos e reiterados performativamente, o que significa que a própria prática religiosa pode ser um espaço de subversão das normas dominantes. Mulheres que pregam, lideram cultos, conduzem rituais e organizam suas comunidades religiosamente estão, ainda que simbolicamente, desestabilizando o monopólio masculino sobre o sagrado.

Assim, as mulheres religiosas do Cabo de Santo Agostinho não apenas resistem à invisibilidade imposta pelas tradições patriarcais, como também produzem novos modos de fazer religião, vinculados às realidades territoriais e aos desafios concretos enfrentados em suas comunidades. Sua atuação cotidiana torna-se, portanto, uma prática espiritual, social e política — ao mesmo tempo tradicional e subversiva — que merece reconhecimento e análise crítica.

  1. Religião, Gênero e Invisibilidade

A relação entre religião e gênero no Brasil é marcada por uma profunda assimetria entre a participação das mulheres nas práticas religiosas e sua representatividade nas lideranças institucionais. Embora sejam maioria entre os fiéis em praticamente todos os grupos religiosos, as mulheres seguem invisibilizadas ou secundarizadas nos espaços de poder formal das tradições religiosas.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, em nível nacional, as mulheres representam a maioria dos fiéis em quase todos os segmentos religiosos. Entre os evangélicos (grupo que mais cresce), 58,2% são mulheres; entre os católicos, 54,7%; nas religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, a proporção chega a 61,5% de mulheres. Mesmo entre os que se declaram “sem religião”, 51,8% são mulheres — o que indica também uma crescente autonomia feminina em relação aos modelos religiosos tradicionais.

No entanto, essa predominância feminina não se traduz em liderança. Como destaca Pierre Bourdieu (1998), as instituições religiosas funcionam como “espaços de produção e reprodução do poder simbólico masculino”, onde as mulheres participam de forma intensa, mas permanecem como “legitimadas a servir, não a comandar”. Isso cria um paradoxo: são as mulheres que sustentam as igrejas e os terreiros com seu trabalho voluntário, sua fé e sua presença constante, mas são os homens que ocupam, em sua maioria, os púlpitos, os altares e os cargos hierárquicos.

No contexto do Cabo de Santo Agostinho (PE), essa realidade se manifesta de forma semelhante. Embora os dados locais desagregados por gênero ainda não estejam disponíveis, estudos qualitativos e observações empíricas confirmam que as mulheres são a base das igrejas evangélicas e católicas, além de predominarem nos terreiros de matriz africana. Nas periferias cabenses — como Pontezinha, Charneca, Garapu, Cohab e Ponte dos Carvalhos — são elas que lideram os cultos domésticos, organizam os círculos de oração, cuidam dos enfermos, distribuem alimentos e constroem redes de solidariedade com base na fé.

Como observa Ivone Gebara (2000), “a religião vivida pelas mulheres é, muitas vezes, uma forma de sobreviver à exclusão, ao machismo e à ausência do Estado”. No entanto, essa religiosidade cotidiana e popular nem sempre é reconhecida como teologia, liderança ou poder. Judith Butler (2003) ajuda a compreender que essas dinâmicas não são naturais, mas produzidas socialmente por meio de normas de gênero que se repetem e se reforçam culturalmente — inclusive nos espaços religiosos.

Por outro lado, nas religiões de matriz africana, as mães de santo exercem um protagonismo mais visível, liderando casas e sendo referências espirituais e políticas. Vagner Gonçalves da Silva (2007) aponta que, “nos terreiros, as mulheres constroem autoridade a partir da ancestralidade, do axé e da experiência acumulada”, sendo reconhecidas como guardiãs da tradição, mesmo enfrentando racismo religioso e marginalização.

Em todos os casos, a fé das mulheres é performada no corpo, na voz, no trabalho e na resistência cotidiana. Essa espiritualidade feminina transforma espaços comuns em territórios sagrados, onde o cuidado, a cura e a solidariedade se manifestam em práticas que transcendem os limites da doutrina oficial.

Resumo das porcentagens por religião (dados nacionais – Censo 2022)

GRUPO RELIGIOSO PROPORÇÃO DE MULHERES (%)
Evangélicos 58%
Católicos 54,7%
Religiões de Matriz Africana 61,5%
Sem Religião 51,8%
Espíritas 55,4%

 

A análise da religiosidade feminina no Cabo de Santo Agostinho, a partir dos dados do Censo 2022 e do aporte teórico crítico, evidencia a centralidade das mulheres nas práticas religiosas locais. Embora ausentes ou marginalizadas nos espaços formais de poder institucional das religiões, são elas as principais agentes de sustentação espiritual, social e territorial das comunidades de fé.

Nas igrejas evangélicas, nas comunidades católicas e nos terreiros de matriz africana, as mulheres não apenas frequentam, mas organizam, cuidam, lideram e transformam os espaços religiosos em verdadeiros territórios de resistência e cuidado, sobretudo nas periferias urbanas marcadas por vulnerabilidade e ausência do Estado. Sua religiosidade, muitas vezes invisibilizada pelas estatísticas e discursos oficiais, carrega uma força simbólica e prática decisiva para a vida coletiva.

Como afirmam Gebara (2000), Bourdieu (1998) e Butler (2003), a religião é também um campo de disputa simbólica onde gênero, poder e exclusão se entrecruzam. No entanto, o que se observa no Cabo de Santo Agostinho é que, mesmo diante de estruturas religiosas patriarcais e conservadoras, as mulheres constroem modos próprios de viver e reinventar o sagrado, desafiando normas e reafirmando suas identidades a partir da fé.

  1. Território, Exclusão e Resistência Feminina

A participação religiosa feminina no Cabo de Santo Agostinho está profundamente enraizada nas dinâmicas territoriais e nas condições sociais de exclusão que marcam os bairros periféricos do município. Regiões como Charneca, Charnequinha, Garapu, Ponte dos Carvalhos e Pontezinha, historicamente negligenciadas pelo poder público, apresentam não apenas os maiores índices de pobreza e precariedade urbana segundo os dados do CadÚnico, mas também uma intensa efervescência religiosa, majoritariamente sustentada por mulheres.

Esses territórios são espaços onde a fé feminina se inscreve nos corpos, nos gestos, nas vozes e nas redes de solidariedade, dando forma a uma religiosidade que ultrapassa os limites das instituições formais. As mulheres oram, lideram grupos, pregam, tocam, organizam cultos, cuidam das outras pessoas e transformam espaços residenciais — como garagens, salões de beleza desativados, varandas e terrenos baldios — em territórios do sagrado.

Segundo Milton Santos (2002), o território não é apenas o chão físico, mas “o lugar onde se realizam as ações concretas dos homens” — ou, neste caso, das mulheres. É onde se manifestam relações de poder, cuidado, pertencimento e exclusão. No Cabo, esse território é vivido por mulheres que, ao exercerem a religiosidade na prática cotidiana, produzem sentido e estrutura em meio ao caos urbano, resignificando espaços vulneráveis como centros de espiritualidade, apoio e resistência.

Michel de Certeau (1994) contribui para esse entendimento ao afirmar que os sujeitos sociais se apropriam do espaço por meio de “táticas do cotidiano”, transformando práticas marginais em formas de resistência. Assim, as mulheres religiosas do Cabo não apenas ocupam o território; elas o reconfiguram simbolicamente por meio de suas práticas de cuidado, oração, alimentação comunitária, rituais e mediação de conflitos.

É importante destacar que essa atuação não se restringe ao âmbito espiritual. Muitas mulheres funcionam como agentes comunitárias informais, substituindo o Estado na prestação de serviços essenciais. Elas distribuem cestas básicas, organizam cozinhas solidárias, fazem visitas a doentes e enlutados, acolhem crianças em risco social e oferecem acolhimento emocional a mulheres vítimas de violência doméstica. Essa atuação, embora informal e não remunerada, constitui uma rede de cuidado e resistência que sustenta a vida nas periferias.

Como aponta Sabrina Sedlmayer (2013), as práticas religiosas femininas nas periferias urbanas brasileiras são “formas de cuidado de si e dos outros que tensionam as fronteiras entre o religioso e o político, entre o privado e o público”. No Cabo de Santo Agostinho, essas fronteiras são cotidianamente cruzadas por mulheres que, mesmo sem títulos formais ou reconhecimento institucional, exercem liderança, organização comunitária e autoridade espiritual.

Essa religiosidade territorializada, construída nos interstícios urbanos e sustentada por mulheres pobres, negras e periféricas, é também um ato de resistência frente às ausências estatais. Ao reorganizar os espaços da cidade com sua fé, essas mulheres afirmam suas existências, criam pertencimento e elaboram, na prática, um outro modo de habitar o mundo — um modo onde o cuidado, a espiritualidade e a solidariedade são expressões políticas de sobrevivência e dignidade.

  1. Entre a Resistência e a Repressão: Ambivalências Religiosas

As práticas religiosas femininas no contexto do Cabo de Santo Agostinho, como em muitas outras realidades brasileiras, apresentam uma dimensão ambígua e multifacetada, situada na intersecção entre resistência e repressão. Por um lado, as mulheres constroem redes solidárias, espaços de cuidado e sentido, articulando estratégias de sobrevivência e afirmação identitária em territórios marcados pela exclusão social. Por outro lado, essas mesmas práticas muitas vezes reproduzem e reforçam discursos conservadores e normativas rígidas sobre o que significa ser mulher.

Como aponta Judith Butler (2003), as normas de gênero são performativas, ou seja, são reiteradas continuamente por meio de atos que consolidam as identidades como naturais e imutáveis. Nesse processo, as religiões institucionais desempenham um papel crucial na manutenção de certos padrões morais e comportamentais, especialmente no que se refere à submissão feminina, controle da sexualidade e papel domesticado da mulher. Muitas igrejas, sobretudo as evangélicas tradicionais, impõem códigos estritos de conduta, onde o lugar da mulher é, idealmente, o da esposa submissa, mãe zelosa e participante obediente da comunidade, limitando suas possibilidades de expressão e agência.

No entanto, essa leitura unilateral da religiosidade feminina como mero espaço de repressão ignora a complexidade das experiências vividas pelas mulheres. A fé, para muitas delas, constitui um refúgio psicológico e emocional, uma fonte de força diante das múltiplas violências cotidianas, como o desemprego, o machismo estrutural, a violência doméstica e a insegurança urbana. Conforme argumenta Ivone Gebara (2000), as mulheres religiosas encontram, no sagrado, possibilidades de reconstrução subjetiva e de luta por dignidade, mesmo dentro de contextos marcados por desigualdades de gênero.

Além disso, a religiosidade pode ser compreendida como uma prática política e simbólica de resistência, onde as mulheres resignificam os discursos religiosos para criar espaços de autonomia e solidariedade Destacamos que “mesmo sob condições adversas, as mulheres tecem redes de cuidado e mobilização que desafiam o patriarcado e ampliam suas possibilidades de ação”. Isso revela a dimensão ambivalente da religiosidade feminina: simultaneamente sujeita a repressões normativas, mas também um campo aberto para a reinvenção de si e do coletivo.

Essa tensão entre controle e emancipação religiosa é uma forma de luta permanente, onde as mulheres precisam negociar, resistir e se posicionar diante de expectativas sociais e religiosas muitas vezes contraditórias. Como ressaltam os estudos de gênero contemporâneos, a experiência feminina na religião não pode ser reduzida a um binarismo simplista entre opressão e libertação, mas deve ser vista como um campo complexo, atravessado por múltiplas negociações de poder, afeto, identidade e fé.

No Cabo de Santo Agostinho, esse cenário se manifesta em práticas cotidianas, onde mulheres ora exercem papéis tradicionais de cuidado e submissão, ora assumem lideranças comunitárias e espirituais, desafiando as limitações impostas e abrindo caminhos para novas formas de protagonismo religioso e social.

Considerações Finais

A análise da presença das mulheres religiosas no Cabo de Santo Agostinho, com base nos dados do Censo 2022 e no aporte teórico multidisciplinar, revela que a atuação feminina no campo religioso vai muito além da simples dimensão espiritual. Essas mulheres são pilares centrais na organização comunitária, na construção de redes de apoio e solidariedade, na resistência territorial frente às desigualdades sociais e na articulação política cotidiana. Mesmo diante da invisibilidade imposta pelas instituições religiosas patriarcais e pela falta de recortes estatísticos mais detalhados, elas desempenham um papel fundamental na modelagem do espaço urbano e social do município.

Por meio das suas orações, cantos, rituais e práticas de cuidado, essas mulheres constroem e reinventam o território, transformando ruas, becos, salões e lares em territórios sagrados, repletos de significado e resistência. Sua presença é marcada pelo entrelaçamento de afetos, saberes ancestrais e práticas sociais que desafiam os limites da exclusão, conferindo dignidade e esperança às populações mais vulnerabilizadas.

Reconhecer e valorizar essas trajetórias é um passo imprescindível para a formulação de políticas públicas que sejam verdadeiramente inclusivas e sensíveis à diversidade religiosa, de gênero, territorial e cultural do município. A integração dessas perspectivas é essencial para romper com as formas tradicionais de invisibilização e exclusão, promovendo o protagonismo das mulheres como agentes ativos de transformação social.

O corpo feminino religioso, longe de ser um receptáculo passivo de imposições institucionais, emerge como um locus dinâmico de cuidado, resistência e inovação simbólica. Nas interseções entre fé, gênero e território, essas mulheres reivindicam espaços, renovam práticas e fortalecem comunidades, tornando-se, assim, essenciais para a construção de uma cidade mais justa, plural e solidária.

Como sublinha Ivone Gebara (2000), a fé feminina é uma “prática de resistência e esperança que desafia estruturas opressoras”, e Pierre Bourdieu (1998) nos lembra que, mesmo diante da dominação simbólica masculina, o poder das mulheres reside na capacidade de transformar o social por meio do cotidiano. Portanto, ampliar a compreensão sobre a religiosidade feminina no Cabo de Santo Agostinho significa também reconhecer a potência de uma fé que é, ao mesmo tempo, individual e profundamente coletiva, política e espiritual, vulnerável e resiliente.

Referências Bibliográficas (em ordem alfabética)

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

GEBARA, Ivone. Romper o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis: Vozes, 2000.

IBGE. Censo Demográfico 2022: Características Gerais dos Grupos Religiosos por Sexo. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/. Acesso em: [colocar data do acesso].

MARIZ, Cecília Loreto. Oração, cura e caridade: um estudo sobre mulheres pentecostais. Rio de Janeiro: Graal, 1994.

NUNES, Maria José Rosado. Feminismo e religião: resistências e mediações. Cadernos Pagu, Campinas, n. 1, 1993.

SEDLMAYER, Sabrina. Corpos que cuidam: mulheres evangélicas e a produção do social nas periferias urbanas. Revista Religião & Sociedade, v. 33, n. 2, 2013.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 2002.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2002.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da metrópole: representações e práticas religiosas em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2007.

SANTOS, Vagner Gonçalves da Silva. Religiões afro-brasileiras: identidade, resistência e cultura. São Paulo: Ed. PUC-SP, 2009.

[1] – Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro Efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro Efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho – IHAGCCABO. Seis Livros Publicados: GOMES, Ricardo Jorge Silveira. A Jornada de Trabalho do Docente: Ritual de deveres, restrições de direitos. Editora Universitária/UFPE.Recife.2020. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Pode confiar, ele é crente! Igrejas Pentecostais e as eleições cabenses de 2004. Editora Bagaço. Recife, 2018. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Vozes da Educação – Dialogar. Volume VII. A abordagem Freireana e as Ciências da Religião: construindo pontes rumo a Educação e Diversidade Cultural. São Paulo. 2018. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. ACADEMIA DE LETRAS DE ESCADA – VIII ANTOLOGIA de textos Científicos – O Empreendedorismo de Madre Iva. João Pessoa, 2020.  GOMES, Ricardo Jorge Silveira GomesDA MISSA Á MILITÂNCIA: A trajetória Religiosa/Política do Padre Antônio Melo costa no município do Cabo de Santo Agostinho/PE (1963-1977). Curitiba – Appris, 2023. GOMES, Ricardo Jorge Silveira Gomes. Erivaldo Alves: Uma jornada de fé em ação acolhedora. Editora Inovação. 2025.

 

 

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