Cuba para sempre!
Enildo Luiz Gouveia*
Em 20.02.2026
Sim, fui à Cuba. Durante quase treze dias (15 a 27.01.2026), dos quais a maioria fiquei hospedado em casas de cubano(a)s, pude ver de perto a situação da ilha. A primeira questão a ser dita é que Cuba está numa situação muito difícil economicamente. Muitos irão dizer que isto se deve ao modelo socialista implantado depois da revolução triunfante de Fidel e seus companheiros em 1959. Mas afirmar isto é uma grande distorção histórica.
O sistema cubano, mesmo com alguns erros, acabou com o analfabetismo, garantiu a gratuidade e qualidade da educação até o nível universitário, além de uma saúde que serve de modelo pra outros países, acabou com o racismo estrutural, reduziu drasticamente a violência (Cuba é, no geral, um país muito seguro) e continua com uma expectativa de vida maior que outros países da região. Mas na economia não tem conseguido superar as dificuldades.
Nunca é demais lembrar que o grande e maior culpado pela atual situação é o bloqueio econômico criminoso imposto pelos EUA e seus países comparsas. Já são mais de 60 anos de bloqueio e, na atualidade, o governo Trump tem sido ainda mais enfático, incluindo ameaças de invasão militar à ilha.
Vi muitos jovens com acesso livre à internet, apesar desta ser em muitas localidades instável. Alguns sites e aplicativos (a exemplo do spotify) são bloqueados não pelo governo e sim, pelas próprias empresas de tecnologias sediadas, provavelmente por medo de represálias dos EUA. Não vi ninguém reclamar da tão alarmada “ditadura cubana”. Aliás, a título de esclarecimento, há de se fazer uma distinção entre regime de partido único (existente em Cuba) e ditadura. Em Cuba há eleições. Lá, a população elege delegados distritais, que elegem os deputados provinciais, que por sua vez, elegem o presidente num processo que se estrutura de baixo pra cima.
O povo cubano é musical e tem um zelo por sua história e cultura como nunca vi em outro lugar. As cidades cubanas (visitei cinco incluindo a capital Havana) sempre têm ao menos um teatro, uma escola de música, muitas praças arborizadas e monumentos. Em Cuba há liberdade religiosa. Visitei uma catedral católica e um templo de religião afro-cubana.
Os efeitos nefastos do bloqueio econômico dos EUA contra a ilha são vistos por toda parte: apagões, falta de combustíveis para limpeza urbana, transporte público e até pra ambulâncias. Dificuldades para importar produtos e matéria–prima e para demais transações econômicas e comerciais. O apoio da Rússia e da China não tem sido suficientes ainda para amenizar a situação.

Apesar de tudo, inclusive de críticas de cubanos ao governo, não vi revolta generalizada pedindo a implantação do capitalismo na ilha. O povo cubano é informado e sabe os males que este sistema provoca especialmente na América Latina. Reconhecem os avanços advindos da revolução, mas a situação econômica aperta, e não há ideologia que resista a “barriga vazia”. Por isso, há muitos jovens deixando o país.
Cuba terá que mais uma vez que se reinventar. É um país de guerreiros e guerreiras, humildes e solidários. A Ilha é linda, cheia de história e praias cristalinas (de águas um pouco frias se comparadas às do Nordeste brasileiro). Oxalá consiga um dia voltar e visitar a parte sul da ilha. Hasta la victoria siempre!
*Enildo Luiz Gouveia – Professor, poeta, compositor, cantor e teólogo. Membro da Academia Cabense de Letras – ACL
Foto destaque: Enildo Luiz Gouveia.
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