O preconceito na religião
Valéria Saraiva*
20.02.2026
Domingo, na reunião da Ordem Franciscana Secular, eu ouvi um relato que me deixou impressionada. Uma irmã de mais de 80 anos contou que na adolescência tentou entrar em uma irmandade para ser freira. Fez todos os preparativos, mas quando chegou a hora de fazer os votos ela e outras duas irmãs negras receberam a seguinte recomendação do padre – desconheço o nome: “Não existe freira negra!”
Pelos meus cálculos isso aconteceu no Recife, na década de 1960. Não faz tanto tempo assim. Como é possível coisas como essa acontecerem na nossa sociedade? Hoje em dia existem sim freiras negras. Minha professora de catecismo era negra e era freira, a irmã Severina, no Cabo de Santo Agostinho. Eu nasci na década de oitenta. Fiz catecismo na igreja católica na década seguinte, e na minha inocência não imaginava tudo pelo que as freiras tiveram que passar para estarem ali.
Eu tenho uma tia que é freira há mais de 50 anos. Ela é freira franciscana e trabalha no Abrigo Santa Luzia, em Jaboatão dos Guararapes. Minha mãe foi freira, entrou para o convento aos 14 anos e se tornou freira no Convento do Abrigo São Francisco de Assis, no Cabo. Mas precisou sair do convento por problemas de saúde. E aí conheceu meu pai. Eles se apaixonaram, casaram e hoje eu estou aqui para contar a história. Eu e mais três irmãos, nascidos entre as décadas de setenta e oitenta.
A abolição da escravidão no Brasil aconteceu em 1888. Mas, infelizmente, para algumas pessoas, embora legalmente ela tenha acabado, ainda existe o racismo. Não quero ser redundante, mas é preciso falar sobre racismo nos dias de hoje, sim. Enquanto houver uma pessoa impedida de trabalhar, estudar, viajar, ou, como aquela senhora que fez o relato de não ser freira por causa da cor da sua pele, é necessário falar. Calar diante de uma situação de racismo é compactuar com ele.
O que mais me impressionou no relato da irmã é que todos sabiam que existia racismo na igreja católica até pouco tempo atras. Menos eu. Estava contando essa história para uma amiga minha e ela me disse que isso está entranhado em todas as religiões. Houve uma época que não se admitia médicos negros, nem mulheres podiam trabalhar. Sobre as mulheres eu presenciei uma situação em que um paciente do hospital se negou a submeter-se a uma cirurgia porque a anestesia seria administrada por uma médica. O médico, e eu o aplaudo, disse que não operava mais aquele paciente.
Com relação ao racismo nunca presenciei situações, mas às vezes sinto reações negativas por eu ter a pele um pouco mais escura, embora eu tenha sito registrada como branca. Sou morena clara e sei que tenho ascendência negra. Então, isso me deixa indignada. Quanto tempo ainda vai demorar para que a sociedade que aboliu a escravidão consiga abolir o preconceito?
Quanto tempo ainda vamos esperar pela reparação pelo que os ex-escravisados tiveram que passar, pelo cárcere, pelos maus-tratos, por todo tipo de exploração, humilhação, pela falta de acesso à educação e saúde? Quanto tempo ainda precisa passar para a sociedade acordar? Somos todos iguais. Nosso sangue é vermelho. Nós somos seres humanos, temos medo, sentimos dor, amor, tristeza como qualquer pessoa. Precisamos falar desse assunto até que o câncer do preconceito seja esgotado. Não se pode admitir o racismo em lugar nenhum, muito menos na religião. Precisamos falar sobre isso com nossos filhos para que as novas gerações se libertem do cárcere do preconceito.
*Valéria Saraiva é enfermeira, poetisa, cronista, autora do livro “Lírios, Tulipas e escorpiões” e membro da Academia Cabense de Letras.
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