Crônicas

Alucinação da pandemia

Valéria Saraiva*

Em 27.07.2020

Desde o começo dessa pandemia todos tiveram que se adaptar pra não parar completamente, nem contrair ou propagar o vírus. As escolas, por exemplo, deram férias aos alunos e professores no início, mas depois, como a quarentena não acabava, tiveram que tomar outras medidas. Muitas delas começaram a implantar as aulas on-line, embora os professores ainda não estivessem familiarizados com essa ferramenta. Todos tiveram que aprender a usar, pra que os alunos não fossem prejudicados sem as aulas e também para justificar o pagamento das mensalidades. Algumas escolas deram descontos nas mensalidades para alguns alunos. Até porque, muitos pais têm passado por dificuldades por causa da pandemia.

Devido ao tempo que alguns setores ficaram fechados, várias empresas demitiram funcionários. Algumas empresas acabaram fechando e entregando o ponto. Os trabalhadores informais também foram atingidos. O governo disponibilizou o auxílio emergencial para ajudar essas pessoas, mas o valor não supre todas as necessidades das famílias.

Com o plano de retomada da economia as coisas estão começando a voltar ao normal, mas não o que era antes, e sim um novo normal. O comércio reabriu, mas tendo que obedecer aos protocolos de segurança. Restaurantes, bares e academias de ginástica também reabriram, mas todos estão sendo fiscalizados com relação ao cumprimento dessas normas.

O número de contaminados e de mortos aparentemente estabilizou, mas ainda não temos a vacina. O melhor jeito de prevenir ainda é mantendo o distanciamento social e usando a máscara.

Hoje peguei um UBER para ir pra casa e perguntei ao motorista quantos passageiros ele podia levar. Ele me disse que no início da pandemia só era permitido levar dois passageiros, mas que agora ele podia levar até três no banco de trás. Ressaltou que o uso da máscara no carro é obrigatório. Ele disse que já se recusou a levar passageiros por causa disso. Passageiros que não aceitavam usar a máscara. Infelizmente tem pessoas que ignoram a situação que estamos vivendo.

Na semana passada, quando eu passava em uma rua no centro do Cabo de Santo Agostinho, acabei testemunhando uma senhora discutindo com um vendedor de loja porque ela queria entrar no estabelecimento sem a máscara. De acordo com o motorista do UBER isso representa uma falta de respeito consigo mesma e com os outros.

É que o fato de não apresentar sintomas não significa que você não tenha contraído o novo coronavírus. Existem os pacientes assintomáticos, aqueles que não apresentam sintomas, mas transmitem o vírus.

Ainda não consegui produzir nenhum poema nessa pandemia, mas tem um trecho de uma música de Belchior que fica martelando na minha cabeça e reflete bem esse momento.

Ele diz:

“A minha alucinação é suportar o dia a dia e o meu delírio é a experiência com coisas reais.”

Nesse tempo de novo normal, onde o medo de contrair o vírus paira o tempo todo no ar, as lembranças de antes alimentam a esperança no amanhã.

*Valéria Saraiva é poetisa, enfermeira e membro da Academia Cabense de Letras. Escreve às segundas-feiras.

 

One thought on “Alucinação da pandemia

  1. Boa reflexão Valéria! Que nessa pandemia aprendamos pelo menos a convivermos melhor e respeitar as normas sociais.

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