Um grito de liberdade

Por

José Ambrósio dos Santos*

Em 27.07.2024

Uma ameaça constante que os fazia manter o espírito guerreiro, impulsionados por líderes como Aqualtune, Ganga Zumba, Ganga Zona e Zumbi.

Na semana passada, em uma viagem de cinco dias ao estado de Alagoas, tive a oportunidade de conhecer, na segunda-feira (26), um dos mais importantes símbolos de resistência na luta por liberdade no Brasil, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares.

Um forte sentimento de emoção logo à chegada; quantos sonhos desfeitos, roubados, aprisionados. Milhares de homens e mulheres arrancadas à força da Mãe África, subjugadas, escravizadas, mas que reagiram e, guerreiros e guerreiras, escaparam do cativeiro e se agruparam, conquistando um pouco de liberdade em terra hostil.

Quanta bravura em um povo obrigado a viver em permanente vigília contra a ameaça sempre presente do retorno às argolas, ao tronco, ao tratamento desumano dos capitães do mato, dos senhores escravocratas e das instituições que nenhum direito lhes conferiam. Nenhuma consideração, apenas deveres impostos pela força bruta.

Uma ameaça constante que os fazia manter o espírito guerreiro, impulsionados por líderes como Aqualtune, Ganga Zumba, Ganga Zona e Zumbi. Unidos – apesar da diversidade das origens tribais, das línguas, dos dialetos e das religiões – constituíram o maior quilombo do período colonial, um verdadeiro Estado Negro que em seu apogeu chegou a abrigar cerca de 20 mil habitantes.

Implantado em 2007 pelo Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares reconstitui o cenário de uma das mais importantes histórias de resistência à escravidão ocorridas no mundo. Estudos indicam que os primeiros agrupamentos de escravos fugidos na região remontam a 1580. O Quilombo dos Palmares é considerado o maior, mais duradouro e mais organizado refúgio de negros escravizados das Américas. Resistiu bravamente a diversos ataques por mais de um século, somente tombando com o assassinato de um de seus maiores líderes, Zumbi dos Palmares, pelas tropas de Domingos Jorge Velho, em 1695.

O Parque Memorial Quilombo dos Palmares está localizado no território original da longa e sangrenta batalha, como registra a Fundação Cultural Palmares em sua página na internet. O local, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985, recria o ambiente da República dos Palmares, à época pertencente à Capitania de Pernambuco.

Apesar de tantas histórias e de tanto simbolismo, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares precisa de mais, muito mais atenção. Não há folheteria que narre a saga dos guerreiros e das guerreiras. Também não há guia que explique em detalhes as edificações. Apenas placas com reduzidos textos. Certamente a situação reflete o apagamento do protagonismo negro em prática pela Fundação Cultural Palmares.

O espaço que um dia foi um Estado Negro hoje não abriga nem mesmo uma única família quilombola entre as sete que habitam o núcleo central – figurativo do quilombo – ou entre as 18 instaladas nos cerca de 280 hectares do Parque Memorial Quilombo dos Palmares.

O grito por liberdade ainda ecoa na Serra da Barriga.

*José Ambrósio dos Santos é jornalista, escritor e integrante da Academia Cabense de Letras.

Fotos: José Ambrósio dos Santos

Esta crônica foi publicada pela primeira vez em 02.10.2022. Uma homenagem ao Julho das Pretas, mês de reafirmação da luta contra o racismo e o sexismo.