Crônicas

A Copa de 70 e as ‘peladas’ com bolas de meia e canarinha

José Ambrósio dos Santos*

Em 01.07.2025

Caminhava hoje pela manhã na praia de Candeias, Jaboatão dos Guararapes (PE), quando, distraído, pisando na água, acabei tropeçando em uma pequena pedra. Me lembrei de imediato das inúmeras vezes em que esfolei braços, pernas, joelhos, cotovelos… e das inesquecíveis vezes em que estourei o dedão do pé direito jogando bola em Bonança, distrito de Moreno (PE), no início da adolescência, na década de 1970.

Naquela época, a paupérrima comunidade chamava-se Tapera, e era formada predominantemente por canavieiros, costureiras, um comercio incipiente, agricultura familiar e poucos postos de trabalho de alguns serviços públicos. Correr atrás de uma bola de meia – meia recheada com farrapos e sobras de tecidos – era a principal diversão da meninada, todos sonhando um dia ser jogador de futebol do Náutico, Santa Cruz ou Sport.

bola de meia

Os incidentes eram frequentes, mas o tempo de afastamento era apenas o suficiente para a recuperação parcial das topadas, e se intensificaram com os jogos da Seleção Canarinha na Copa do Mundo de Futebol disputada no México, que eu assisti na TV pública, em preto e branco. Os jogos encantavam e as nossas peladas aconteciam todos os dias. Todos se inspirando em craques como Pelé, Tostão, Rivelino…

Até Gérson, que naquela época ainda não propagava a máxima de “levar vantagem em tudo”, hoje uma prática corriqueira condenável que corrói a cidadania e explicita a mesquinhez de grande parte das pessoas, em especial nas classes dominantes. Ao contrário, no meio do campo Gérson organizava e distribuía belas jogadas para os atacantes que acabaram tricampeões. Emocionante aquele 21 de junho de 1970. Passados 55 anos, é a única copa da qual me lembro de todos os jogos e até dos placares. Começou com 4×1 contra a Tchecoslováquia e terminou com 4×1 sobre a Itália. Jairzinho fez gol em todos os jogos.

E foi com esse encantamento que no dia seguinte ao título entramos “em campo” no espaço de recreação da Escola Municipal Jornalista Edson Régis, onde todos estudávamos. Já não era mais a bola de meia, mas sim a bola canarinha.

Dono da bola, eu tinha vaga garantida e somente saía quando me machucava seriamente. A disputa era pesada; pescoço era canela. E não tinha juiz. Se resolvia no grito, e era preciso uma falta muito contundente para o adversário aceitar – não sem discussão – que se batesse a falta ou o pênalti.

Para evitar um ataque perigoso, tentei uma jogada arriscada, errei o chute e acabei quase arrancando a unha do dedão do pé. Em casa, pior do que o curativo era o olhar reprovador da minha mãe, dona Santana (Ana Maria dos Santos). Ela chegava mostrando principalmente o merthiolate, um antisséptico que naquela época ardia pra caramba. A gente “via estrelas”. Passava uma semana mancando, com o dedão enrolado com gaze e esparadrapo. Curativo todos os dias. Era o preço a pagar. Ninguém reclamava.

Eita tempo bom!

Aguardando os jogos do Palmeiras x Shelsea e Fluminense x Al-Hilal na próxima sexta-feira (04.07) pelas quartas de final do Mundial de Clubes da Fifa.

Bons jogos pela frente.

*José Ambrósio dos Santos é jornalista, escritor e integrante da Academia Cabense de Letras.

 

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