Artigo

O Espiritismo no Cabo de Santo Agostinho: expressões religiosas e configurações demográficas no Censo de 2022

Ricardo Jorge Silveira Gomes*

Em 02.07.2025

  1. Introdução

O Espiritismo, codificado por Allan Kardec no século XIX, surgiu na Europa como uma doutrina que buscava conciliar ciência, filosofia e religião, apresentando-se como uma proposta racional de compreensão dos fenômenos espirituais. No Brasil, essa vertente encontrou terreno fértil para sua expansão, especialmente a partir do século XX, consolidando-se como uma das matrizes religiosas reconhecidas oficialmente pelo Estado e presentes nos censos nacionais. Sua difusão, no entanto, assumiu contornos peculiares, sendo mais expressiva em determinados contextos urbanos, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, enquanto apresenta presença mais tímida em localidades do Norte e Nordeste.

No caso do município do Cabo de Santo Agostinho, localizado na Região Metropolitana do Recife (PE), o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que apenas 0,66% da população local se declarou espírita — o que representa cerca de 3.163 pessoas em um total de 203.440 habitantes. Esse dado quantitativo, embora aparentemente marginal, suscita questões importantes sobre a configuração do campo religioso cabense, a visibilidade social do Espiritismo e os fatores que limitam sua expansão nessa realidade específica.

A partir desse cenário, o presente artigo propõe uma reflexão crítica sobre as possíveis causas e implicações dessa baixa representatividade, buscando articular os dados censitários a aspectos socioculturais, históricos e religiosos próprios do município. Interessa compreender por que uma religião consolidada nacionalmente como o Espiritismo encontra obstáculos em sua afirmação pública em determinados territórios, e quais elementos — simbólicos, institucionais e sociais — explicam essa configuração.

Para tanto, recorre-se ao aporte teórico de estudiosos da sociologia da religião, como Ricardo Mariano, Reginaldo Prandi, Antônio Flávio Pierucci e Marcelo Camurça, cujas contribuições auxiliam na análise das tensões e disputas simbólicas que permeiam o espaço religioso brasileiro. O artigo também considera a crescente pluralização religiosa e os efeitos do avanço neopentecostal e do fenômeno da desfiliação religiosa, que reconfiguram continuamente o mapa da religiosidade no Brasil e no município do Cabo de Santo Agostinho.

Ao abordar o Espiritismo como uma minoria religiosa no contexto cabense, esta investigação pretende contribuir para os estudos da diversidade religiosa no Brasil, demonstrando como certas expressões religiosas, embora institucionalmente estruturadas, enfrentam limites impostos tanto por condicionantes históricos quanto por dinâmicas contemporâneas de disputa por legitimidade simbólica e visibilidade pública.

  1. O Espiritismo no Brasil e em Pernambuco

O Espiritismo, segundo Ricardo Mariano (2001), desenvolveu-se no Brasil sob dois principais eixos: como doutrina de base científica e filosófica, voltada preferencialmente às elites urbanas letradas, e como prática mediúnica popular, muitas vezes amalgamada a elementos da religiosidade afro-brasileira e católica popular. Essa duplicidade de expressão — doutrinária e vivencial — foi fundamental para sua enraização no Brasil, permitindo-lhe tanto a institucionalização formal em centros kardecistas quanto a difusão mais ampla entre camadas populares, especialmente por meio da mediunidade e das práticas de cura espiritual.

Essa característica dual do Espiritismo no Brasil expressa-se de maneira desigual no território nacional. Em regiões como o Sudeste, especialmente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o Espiritismo adquiriu maior densidade organizacional, social e simbólica, com instituições bem estruturadas, práticas regulares de estudo das obras de Kardec, assistência espiritual e ações filantrópicas. No entanto, no Nordeste — e particularmente em estados como Pernambuco —, sua presença é mais tímida e concentrada em nichos urbanos específicos.

Reginaldo Prandi (2001) destaca que “o Espiritismo brasileiro é elitista em sua doutrina e popular em sua prática”, o que contribui para sua desigual distribuição geográfica. Essa observação permite compreender por que a religião espírita tende a ser mais forte em cidades médias e grandes, com maior escolarização e presença de classes médias urbanas, e menos expressiva em localidades onde predominam o pentecostalismo, o catolicismo popular e as religiões afro-brasileiras. Como afirma o autor, o Espiritismo tornou-se, no Brasil, “uma religião de centro urbano e de classe média”, o que o distancia de realidades onde essas características são menos predominantes.

Em Pernambuco, os dados do Censo Demográfico de 2022 corroboram essa tendência. Os espíritas representam 0,67% da população estadual, percentual inferior à média nacional, que foi de 2%, e praticamente idêntico ao registrado no município do Cabo de Santo Agostinho (0,66%). Esse dado indica uma estabilidade numérica do Espiritismo em nível estadual, mas também evidencia sua condição de minoria religiosa diante do avanço das igrejas evangélicas e da crescente proporção de pessoas sem religião.

Ainda assim, o Espiritismo encontra espaço de organização e resistência, especialmente em centros urbanos com maior concentração de serviços e atividades culturais. A cidade do Recife, capital do estado, é o principal polo da doutrina kardecista em Pernambuco, abrigando diversas instituições tradicionais, como a Federação Espírita Pernambucana (FEP), fundada em 1911, além de centros de estudo, práticas mediúnicas e ações sociais de alcance regional. Essa centralização urbana reforça o argumento de que o Espiritismo mantém sua base de sustentação em zonas urbanas com maior densidade cultural e capital simbólico, conforme analisado por Antônio Flávio Pierucci (2004), que sublinha: “o Espiritismo é um fenômeno religioso que busca o reconhecimento pela via da racionalidade e da respeitabilidade científica, o que limita sua penetração em contextos fortemente marcados por religiosidades emocionalmente intensas como o pentecostalismo”.

No Cabo de Santo Agostinho, por sua vez, essa centralização se reflete na presença de alguns poucos centros espíritas, geralmente localizados nas áreas centrais da cidade ou nos bairros com maior infraestrutura urbana. O Espiritismo não chega a configurar uma presença social de grande projeção pública, sendo ofuscado pela expansão evangélica — especialmente neopentecostal —, e pela tendência crescente de desfiliação religiosa, que atinge quase 22% da população municipal. De acordo com Marcelo Camurça (2013), esse processo de reconfiguração do campo religioso brasileiro tem deslocado o Espiritismo para posições marginais, “ainda que sua estrutura doutrinária e suas práticas de assistência continuem ativas e presentes em diversas realidades locais”.

A partir desse panorama, compreende-se que a presença do Espiritismo em Pernambuco — e particularmente no Cabo de Santo Agostinho — é marcada por um duplo desafio: o de manter sua identidade doutrinária em um ambiente de intensa concorrência religiosa e o de sustentar sua relevância simbólica em meio à ascensão de novos agentes religiosos com estratégias agressivas de expansão, como as igrejas neopentecostais. Nesse sentido, mais do que apenas um dado estatístico, o percentual de espíritas no município reflete uma complexa disputa por espaço, visibilidade e legitimidade no campo religioso local.

  1. O Espiritismo no Cabo de Santo Agostinho

O município do Cabo de Santo Agostinho, situado na Região Metropolitana do Recife (RMR), apresenta uma configuração religiosa marcada pela predominância cristã e por uma crescente pluralização de crenças e pertenças espirituais. Segundo os dados do Censo Demográfico de 2022, 43,73% da população se declara evangélica, 28,16% católica e 21,97% sem religião. Esses números revelam, por um lado, o crescimento exponencial das igrejas evangélicas, em especial as de matriz neopentecostal, e por outro, uma tendência significativa de desfiliação religiosa, fenômeno que vem se intensificando em todo o Brasil e especialmente em áreas urbanas do Nordeste.

Nesse cenário de intensa religiosidade cristã e fragmentação de pertencimentos, o Espiritismo figura como uma presença minoritária, mas organizada. Com 3.163 adeptos declarados no município (0,66% da população), os espíritas compõem um segmento pequeno em termos quantitativos, mas que mantém certo nível de estrutura institucional. Segundo levantamento empírico e registros religiosos locais, existem pelo menos cinco centros espíritas em funcionamento, sendo o Centro Espírita Ismael Gomes Braga, localizado no centro do Cabo, uma das instituições mais antigas, Casa do Caminho em Garapu, Grupo Espirita Redenção no bairro São Francisco, Grupo Espirita da Paz em Ponte dos Carvalhos, Grupo Espirita Alan Kardec em Gaibu, são centro bem atuantes na cidade. Esses centros oferecem estudos das obras de Kardec, atendimentos fraternos e atividades assistenciais — práticas que seguem o tripé espírita de ciência, filosofia e moral.

Contudo, o impacto social e a visibilidade pública do Espiritismo no município são limitados por diversos fatores. Um dos principais obstáculos à sua expansão é a hegemonia religiosa neopentecostal, marcada por um discurso de exclusividade salvífica e de combate às religiões consideradas “não cristãs” ou “espirituais”. Como afirma Antônio Flávio Pierucci (2004), “em um ambiente dominado pelo proselitismo evangélico, religiões que não compartilham da mesma linguagem espiritual enfrentam resistência e invisibilidade social”. Essa lógica de exclusão simbólica acaba por dificultar não apenas o crescimento do Espiritismo, mas também sua legitimação no espaço público.

Essa constatação encontra respaldo nas análises de Marcelo Camurça (2013), que observa como os territórios religiosos fortemente marcados pela retórica pentecostal tendem a criar ambientes pouco acolhedores a tradições espiritualistas. Para Camurça, “certas religiões enfrentam não apenas desafios de crescimento, mas de afirmação e reconhecimento simbólico em espaços onde a lógica religiosa dominante é excludente ou concorrencial”. Essa disputa simbólica se manifesta também na retórica anti-espírita presente em muitos púlpitos neopentecostais, que associam práticas mediúnicas à possessão demoníaca, estigmatizando a experiência religiosa espírita e inibindo potenciais adeptos ou simpatizantes.

Outro fator que contribui para a baixa visibilidade do Espiritismo no Cabo de Santo Agostinho é o perfil social de seus adeptos. Conforme já apontado por Ricardo Mariano (2001), o Espiritismo brasileiro tende a atrair segmentos urbanos de classe média, com maior escolarização e forte valorização da razão e da moralidade. No entanto, em municípios marcados por desigualdade social, concentração de renda e baixa escolaridade, como o Cabo, esse perfil de aderência pode representar uma barreira estrutural à expansão da doutrina kardecista.

Além disso, há uma subnotificação nas estatísticas censitárias provocada por adesões silenciosas ou não institucionalizadas. Muitos simpatizantes da doutrina espírita não se declaram como tal por receio de julgamento ou por não frequentarem regularmente centros espíritas. “O Espiritismo, embora institucionalmente estruturado, ainda carrega marcas de desconfiança social em contextos fortemente pentecostalizados”, alerta Camurça (2013).

Essa disputa por legitimidade simbólica também é objeto de análise no meu livro Pode Confiar, Ele é Crente (Gomes, 2018). Nele, investigo as configurações do campo religioso contemporâneo e destaco como a retórica evangélica, especialmente nos contextos urbanos periféricos, opera de forma excludente em relação a outras expressões religiosas. Segundo argumento na obra, “as religiões espiritualistas e afro-brasileiras vêm sendo empurradas para os cantos do espaço público e tratadas como ameaças espirituais ou práticas desviantes por discursos que naturalizam a fé evangélica como única via legítima de religiosidade cristã” (Gomes, 2023, p. 117). Esse processo resulta em um “silenciamento simbólico”, no qual tais religiões se tornam visíveis apenas em espaços privados ou em ações filantrópicas, sendo, assim, sistematicamente excluídas do debate público e da esfera de legitimidade religiosa dominante.

Apesar desse quadro de marginalização simbólica, o Espiritismo no Cabo de Santo Agostinho resiste e mantém práticas constantes de assistência social, formação moral e diálogo com a população local. Como assinala Prandi (2006), “a persistência do Espiritismo no Brasil deve-se, em grande parte, à sua proposta de racionalização da fé, à valorização da ética e ao compromisso com a caridade”, valores que continuam a atrair indivíduos em busca de sentido religioso fora das estruturas hierárquicas tradicionais.

Nesse sentido, embora estatisticamente pequeno, o Espiritismo representa uma expressão legítima da diversidade religiosa cabense, contribuindo para a pluralidade de sentidos, práticas e formas de viver a espiritualidade na cidade. Reconhecer e valorizar essa presença é fundamental para que o campo religioso local seja compreendido não apenas em termos numéricos, mas como um espaço dinâmico de disputas, resistências e reelaborações simbólicas.

  1. Considerações finais

A análise dos dados do Censo Demográfico de 2022 evidencia que o Espiritismo no município do Cabo de Santo Agostinho configura-se como uma minoria religiosa estável, mas socialmente discreta. Representando apenas 0,66% da população local, essa vertente doutrinária ocupa um espaço simbólico reduzido no conjunto das expressões religiosas presentes na cidade, sobretudo diante da expansão evangélica, que atinge mais de 43% dos habitantes, e do crescimento significativo da população sem religião (21,97%).

Essa baixa expressividade percentual reflete uma tendência estadual e regional, mas também aponta para os desafios específicos enfrentados pelos grupos espíritas em contextos urbanos marcados pela predominância de discursos cristãos conservadores e exclusivistas. Como apontam Pierucci (2004) e Camurça (2013), o ambiente religioso contemporâneo, especialmente em áreas fortemente pentecostalizadas, tende a operar por meio de mecanismos simbólicos de invisibilização ou marginalização de religiões que não compartilham da mesma linguagem espiritual e estética religiosa.

Apesar das dificuldades de afirmação pública, o Espiritismo no Cabo de Santo Agostinho revela uma capacidade resiliente de organização e atuação comunitária. Seus centros, ainda que poucos, se mantêm ativos por meio de práticas de assistência social, grupos de estudo sistemático das obras de Allan Kardec e atividades mediúnicas voltadas ao auxílio moral e espiritual. A centralidade da caridade, da reencarnação e do progresso espiritual como fundamentos da ética espírita confere à doutrina uma proposta de religiosidade racional, moralizada e comprometida com o bem comum — traços que, segundo Prandi (2006), explicam a persistência e a respeitabilidade social da religião espírita, mesmo em condições adversas.

A presença espírita no Cabo também deve ser compreendida dentro das disputas por legitimidade no campo religioso, conforme as categorias de análise propostas por Bourdieu (2007). Em contextos como o da RMR, onde há intensa concorrência entre os grupos religiosos, o capital simbólico acumulado por cada grupo — sua visibilidade, respeitabilidade e autoridade espiritual — torna-se determinante para sua permanência e crescimento. Nesse sentido, o Espiritismo disputa um lugar de reconhecimento social ao lado de forças hegemônicas, como o neopentecostalismo, e de expressões religiosas populares com raízes afro-brasileiras.

Conforme ressalta Gomes (2023), em Pode Confiar, Ele é Crente, a ascensão de uma retórica evangélica excludente nos espaços urbanos periféricos tem produzido um “silenciamento simbólico” das religiões espiritualistas e afro-brasileiras, restringindo sua atuação ao espaço privado ou às margens da esfera pública. Com isso, compreender o lugar ocupado pelo Espiritismo em municípios como o Cabo de Santo Agostinho exige ir além das estatísticas e considerar as estruturas de poder religioso, os discursos de autoridade espiritual e os mecanismos de reconhecimento e exclusão simbólica que atuam no campo religioso local.

Portanto, estudar o Espiritismo nesse contexto é também um exercício de análise das múltiplas configurações da pluralidade religiosa brasileira, bem como das tensões sociais, políticas e culturais que atravessam as escolhas espirituais da população. Reconhecer o papel do Espiritismo, mesmo como minoria, é essencial para a construção de um olhar mais democrático e abrangente sobre a diversidade religiosa no Brasil contemporâneo — um olhar que valorize não apenas as maiorias visíveis, mas também as presenças discretas que contribuem, à sua maneira, para a tessitura simbólica do sagrado no espaço urbano.

Referências

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

CAMURÇA, Marcelo. Cartografias do Sagrado: religiões e religiosidades no Brasil contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2013.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022: Religião por Município.

MARIANO, Ricardo. “Neopentecostais no Brasil: o caso da Igreja Universal”. Estudos Avançados, v. 15, n. 44, 2001.

PIERUCCI, Antônio Flávio. “A desprivatização do sagrado”. Estudos Avançados, v. 18, n. 52, 2004.

PRANDI, Reginaldo. “Religião e religiosidade no Brasil contemporâneo”. Tempo Social, v. 13, n. 2, 2001.

GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Pode Confiar, Ele é Crente: Igrejas Pentecostais e as eleições cabenses de 2004. Recife: Editora Bagaço, 2018.

*Ricardo Jorge Silveira Gomes – Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro Efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro Efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho – IHAGCCABO.

Imagem destaque: Web

 

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