Artigo

Educação para pensar, não para obedecer: o grito de Paulo Freire contra o desrespeito à escola

Ricardo Jorge Silveira Gomes*

Em 28.06.2025

APRESENTAÇÃO

Em um Brasil cada vez mais marcado por políticas educacionais tecnicistas e por um discurso de desvalorização da escola pública, o pensamento de Paulo Freire continua pulsante e necessário. Patrono da educação brasileira e referência internacional da pedagogia crítica, Freire nos legou a ideia de uma educação transformadora, que se opõe frontalmente à lógica do “treinamento” – este que molda corpos obedientes, mas silencia mentes reflexivas.

Segundo Freire (1996), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Trata-se, portanto, de uma prática dialógica, baseada na escuta, na criticidade e no reconhecimento do educando como sujeito ativo do processo educativo. O oposto disso é a educação bancária, conceito por ele cunhado para descrever métodos em que o professor deposita conteúdos nos alunos, sem diálogo e sem sentido para a realidade vivida por eles (FREIRE, 1987).

Contudo, o que se observa no atual cenário brasileiro é uma tentativa contínua de desmontar o projeto freiriano. Ao invés de educar para a autonomia, promove-se uma educação para a produtividade, que busca “treinar” estudantes para atender às demandas do mercado. Como destaca Saviani (2008), tal concepção tem raízes na pedagogia tecnicista, cujos fundamentos são instrumentais e adaptativos, reduzindo o aluno à condição de operário do conhecimento.

Esse processo de mercantilização da educação se manifesta na pressão por resultados em avaliações de larga escala (como o Saeb e o Enem), na desvalorização dos saberes humanísticos, e na substituição da reflexão crítica por habilidades operacionais. De acordo com Frigotto (2011), essa lógica é parte de um projeto político que entende a escola como mera provedora de competências produtivas, ignorando sua função formadora e cidadã.

Ademais, o desrespeito à educação também se expressa na forma como os professores vêm sendo tratados. A precarização salarial, a sobrecarga de trabalho e os constantes ataques à liberdade de cátedra contribuem para o esvaziamento do papel social do magistério. Em muitos casos, o professor é acusado de “doutrinar” apenas por promover debates sobre cidadania, política ou direitos humanos. Paulo Freire já alertava para isso: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” (FREIRE, 1987).

A pedagogia freiriana é também uma pedagogia do afeto, do compromisso com o outro e com a transformação social. Ao defender que “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os homens se libertam em comunhão” (FREIRE, 1987, p. 47), Freire propõe uma ética do encontro que contrasta com a frieza de um sistema educacional que mede alunos por gráficos e ignora suas histórias.

A crítica a essa “educação para obedecer” não é apenas uma denúncia, mas também um chamado à ação. Como lembra GADOTTI (2000), a pedagogia de Paulo Freire é, antes de tudo, uma pedagogia da esperança: acredita que a mudança é possível, mesmo diante das estruturas mais opressoras. Por isso, o legado freiriano continua incomodando – porque propõe que a escola seja um lugar de questionamento e não de submissão.

Diante do atual cenário de desmonte das políticas públicas de educação, retornar a Freire é reafirmar um compromisso com a democracia, com a justiça social e com a dignidade humana. Em um país onde escolas são sucateadas, professores silenciados e estudantes treinados para cumprir tarefas sem sentido, educar de forma crítica e libertadora é, mais do que um direito, um ato de resistência.

O legado de Paulo Freire

Falar em educação no Brasil é, inevitavelmente, lembrar de Paulo Freire, intelectual e educador que revolucionou o pensamento pedagógico ao defender a educação como um ato político, ético e libertador. Nomeado Patrono da Educação Brasileira pela Lei nº 12.612/2012, Freire construiu uma pedagogia voltada à emancipação dos sujeitos, especialmente os historicamente marginalizados, propondo um modelo educacional centrado no diálogo, na consciência crítica e na transformação social.

Em tempos de retrocessos democráticos, cortes de verbas públicas e avanço de propostas tecnicistas e autoritárias, o pensamento freiriano ressurge com ainda mais vigor e atualidade. Seu legado representa uma resistência viva contra a tentativa de reduzir a educação a um processo de treinamento mecânico, esvaziado de sentido e de humanidade. Ao contrário, Freire ensina que educar é um processo humanizador, em que educador e educando se reconhecem mutuamente como sujeitos em formação.

Para Freire (1987), “educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.” Essa frase sintetiza a essência de sua pedagogia: ensinar é criar condições para que os aprendizes compreendam sua realidade, reflitam sobre ela e, a partir disso, possam transformá-la. A educação, portanto, é compreendida não como transmissão de conteúdos prontos, mas como prática de liberdade, isto é, como experiência que desperta a consciência crítica e a autonomia.

Mais do que um método de alfabetização, o legado de Paulo Freire é uma filosofia de vida e de ensino. Ele defende uma escola que respeite o saber popular, que reconheça a cultura do aluno, e que não tema politizar a sala de aula — pois, como ele afirma, “não existe neutralidade na educação”. Em um país ainda marcado por profundas desigualdades sociais e por um modelo escolar excludente, Freire permanece atual e necessário, inspirando educadores que compreendem que ensinar é também um ato de esperança e resistência.

Educação como ensino, não como treinamento

Um dos pontos centrais da pedagogia de Paulo Freire é a distinção entre ensinar para formar sujeitos e treinar para condicionar comportamentos. Na perspectiva freiriana, o ato de ensinar vai além da simples transmissão de informações: ele envolve diálogo, construção conjunta do saber e formação da consciência crítica. Treinar, por outro lado, reduz o educando a um mero reprodutor de tarefas, moldado para obedecer, repetir e adaptar-se, sem refletir sobre sua realidade.

Essa distinção se evidencia na crítica de Freire (1987) ao que chamou de “educação bancária” – uma prática pedagógica baseada no depósito de conteúdos, onde o professor é o sujeito do saber e o aluno um receptor passivo. Segundo ele, essa forma de ensino nega a criatividade, a curiosidade e a autonomia dos educandos, transformando-os em objetos e não em sujeitos do processo educativo. Nas palavras do autor:

“Na visão ‘bancária’ da educação, o educador é o que educa; os educandos, os que são educados. O educador é o que sabe; os educandos, os que não sabem. O educador pensa; os educandos são pensados” (FREIRE, 1987, p. 58).

Essa abordagem, amplamente difundida nas instituições escolares tradicionais, reforça a submissão à autoridade, a padronização do pensamento e a naturalização das desigualdades sociais. Não há espaço para o questionamento, para o debate ou para a criatividade. Assim, o ensino torna-se instrumento de manutenção do status quo, ao invés de um meio para a transformação social.

Quando a escola assume o papel de treinar para o mercado, ela passa a medir o sucesso educacional por índices de produtividade e desempenho técnico, desconsiderando o desenvolvimento ético, estético e político dos sujeitos. Esse modelo, alimentado por políticas de metas, rankings e avaliações padronizadas, compromete o direito à educação plena e integral, substituindo o conhecimento significativo por habilidades operacionais fragmentadas.

Na pedagogia freiriana, ao contrário, o educando é convocado a compreender criticamente o mundo que o cerca, relacionando o conteúdo escolar à sua realidade concreta. Ensinar, nesse sentido, é um ato de escuta e de valorização do saber do outro. A autonomia do aluno não é vista como ameaça à autoridade do professor, mas como expressão de maturidade pedagógica, de um processo educativo que emancipa ao invés de domesticar.

Portanto, defender uma educação que ensine a pensar e a intervir – e não que apenas treine para obedecer – é também um ato político. É optar por um modelo de escola que respeita a dignidade dos alunos e reconhece que o verdadeiro aprendizado só acontece quando o sujeito se sente parte da construção do saber. É por isso que Paulo Freire continua tão atual: porque sua pedagogia nos lembra que educar é sempre um gesto de esperança e de liberdade.

A lógica tecnicista e produtivista na educação

Nas últimas décadas, o avanço de uma visão tecnicista e produtivista da educação tem se consolidado como um dos maiores desafios ao pensamento crítico e libertador proposto por Paulo Freire. Essa lógica impõe à escola uma função eminentemente instrumental e mercadológica, tratando a educação como mercadoria e o estudante como produto a ser moldado para atender às demandas do mercado de trabalho. Em vez de formar sujeitos autônomos, forma-se mão de obra ajustável, adaptada e, muitas vezes, acrítica.

A chamada mercantilização do ensino ocorre quando os processos educativos são submetidos à lógica da eficiência econômica. Isso se manifesta na privatização do ensino público por meio de parcerias com empresas, na terceirização de conteúdos e na centralidade das avaliações de larga escala — como o Saeb, o Enem e o Pisa — que passaram a ditar currículos, métodos de ensino e metas escolares. Como destaca Frigotto (2011), esse modelo reduz o papel da escola ao de “formadora de capital humano”, esvaziando sua função social, política e cultural.

A pressão por resultados mensuráveis e indicadores de desempenho impõe aos professores e alunos uma rotina de metas, gráficos, rankings e simulações que desconsideram o contexto histórico, social e subjetivo de cada sujeito. Essa padronização ignora a diversidade cultural dos estudantes e transforma a escola em uma máquina de preparação para provas. Para Saviani (2008), trata-se de um “tecnicismo disfarçado de modernização”, no qual a pedagogia se subordina aos interesses do mercado.

Como consequência, a escola é reduzida a um espaço de eficiência e controle, em que o conteúdo ganha mais importância que o sentido, e o ensino mais valor que a aprendizagem. A criatividade, o debate, a arte, a filosofia e a educação humanística tornam-se “luxos” descartáveis. O que importa é o desempenho, não o desenvolvimento integral. Nesse cenário, a formação do cidadão crítico e participativo, conforme propunha Freire, é sacrificada em nome da produtividade.

Essa lógica é incompatível com a pedagogia freiriana, que entende a escola como espaço de diálogo, escuta e formação política. Como afirma Freire (1996), “ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural dos educandos” (p. 123). Quando se impõe um modelo que desconsidera a vida real dos estudantes e trata o saber local como irrelevante, o que se tem é o aprofundamento da exclusão educacional e social.

Portanto, resistir à lógica tecnicista é resistir à desumanização do ensino. É afirmar que a escola não deve ser uma empresa, que o professor não é um técnico, e que o aluno não é uma máquina de respostas. A educação precisa ser espaço de formação humana, não de reprodução de competências vazias. Como nos alerta Paulo Freire, “a prática educativa libertadora exige uma permanente disponibilidade para o diálogo e a problematização da realidade” (FREIRE, 1987, p. 71).

A pedagogia freiriana como resistência

Em meio à lógica de mercantilização e tecnicismo que se impõe sobre a educação brasileira, a pedagogia de Paulo Freire emerge como uma forma de resistência viva e necessária. Mais do que uma proposta metodológica, o pensamento freiriano constitui um projeto político-pedagógico comprometido com a transformação da realidade social por meio da formação crítica dos sujeitos. A educação, nessa perspectiva, não é neutra: ou contribui para a reprodução das injustiças, ou se engaja na superação delas.

Um dos pilares dessa pedagogia é a educação dialógica, que se opõe frontalmente à transmissão unilateral de conhecimento. Para Freire (1987), o diálogo é a essência do processo educativo libertador, pois permite que educador e educando compartilhem saberes e construam juntos o conhecimento, em uma relação horizontal e democrática. O diálogo rompe com a verticalidade da educação tradicional, substituindo o autoritarismo pela escuta ativa, o silêncio imposto pela participação e a passividade pela autonomia.

Nesse processo, o professor deixa de ser apenas transmissor de conteúdos para tornar-se um mediador da aprendizagem e um agente de transformação social. Seu papel não é apenas técnico, mas também ético, político e afetivo. Como afirma Freire (1996), “ensinar exige compromisso com a realidade” e, portanto, exige um professor que não se limite a “dar aulas”, mas que ajude seus alunos a interpretar criticamente o mundo. O educador, segundo ele, deve assumir sua responsabilidade social e lutar para que o conhecimento sirva à libertação dos oprimidos e não à sua domesticação.

Outro aspecto fundamental da pedagogia freiriana é o afeto como componente do ato educativo. Freire reconhece que ensinar exige escuta, humildade, amorosidade e respeito ao saber do outro. O educador não pode ser um “agente frio”, distante, que ensina por obrigação. Pelo contrário, é preciso se comprometer com os sonhos, as dores e os contextos dos alunos. Como ele mesmo escreve: “o conteúdo ético da prática educativa é inseparável do conteúdo gnosiológico” (FREIRE, 1996, p. 14), ou seja, não há separação entre ensinar e cuidar, entre saber e sensibilidade.

Nesse sentido, a pedagogia freiriana propõe uma ética da escuta e do encontro, que valoriza a cultura do educando, reconhece seus saberes e promove o respeito à diversidade. Essa ética é também política, pois combate qualquer forma de opressão ou silenciamento. Em um tempo em que a intolerância e o autoritarismo crescem, defender uma educação baseada na empatia, na solidariedade e na construção coletiva do saber é, sem dúvida, um ato de resistência.

Portanto, a pedagogia de Paulo Freire continua a oferecer ferramentas para resistir à desumanização da escola e reafirmar a educação como direito, como diálogo e como prática da liberdade. Seu legado inspira educadores a se posicionarem não como meros executores de políticas prontas, mas como sujeitos críticos e atuantes, comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e democrática.

O desrespeito à educação no Brasil

Apesar da centralidade da educação para o desenvolvimento de uma sociedade democrática e justa, o cenário brasileiro tem revelado um quadro alarmante de desrespeito contínuo à escola, aos educadores e ao próprio direito de aprender. O ideal freiriano de uma educação libertadora e crítica tem sido sistematicamente ameaçado por políticas de austeridade, discursos autoritários e ataques à autonomia pedagógica.

Um dos sinais mais evidentes desse descaso está nos cortes de investimentos públicos destinados à educação básica e superior. As sucessivas reduções orçamentárias, o congelamento de salários de professores, a ausência de planos de carreira e a precarização das estruturas escolares denunciam uma política de desvalorização do ensino e do trabalho docente. Como afirma Saviani (2008), a qualidade da educação está intrinsecamente ligada às condições de trabalho dos educadores; portanto, negligenciar esses profissionais é comprometer o próprio processo educativo.

Essa precarização se intensifica com a sobrecarga de trabalho, turmas superlotadas, escassez de recursos didáticos e infraestrutura inadequada — fatores que tornam o exercício da docência um ato de resistência cotidiana. Paulo Freire (1996) já alertava que ensinar exige coragem, mas jamais deveria significar sofrimento ou abandono. A desumanização das condições de trabalho do professor revela a contradição entre o discurso de valorização da educação e sua prática política.

Além disso, cresce no país uma onda de ataques à liberdade de cátedra e tentativas de criminalizar os educadores por abordagens críticas em sala de aula. Projetos como o “Escola sem Partido” e movimentos conservadores acusam professores de “doutrinação ideológica”, especialmente quando promovem debates sobre direitos humanos, diversidade, história política ou desigualdade social. Esses ataques negam a dimensão política da educação e promovem o medo e a autocensura no espaço pedagógico.

Para Freire (1987), “ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando”, mas também requer autonomia do educador. Retirar do professor o direito de problematizar a realidade é eliminar o sentido libertador da educação. A sala de aula, em vez de espaço de reflexão e formação cidadã, torna-se campo de vigilância e disputa ideológica. Nesse ambiente, prevalece o controle sobre o pensamento, e não o estímulo à crítica.

A escola brasileira, assim, é constantemente transformada em alvo de batalhas políticas, onde o conhecimento é substituído por narrativas de controle e onde a pluralidade é vista como ameaça. Essa instrumentalização do ambiente escolar compromete o direito à educação pública, laica e de qualidade, e ignora que a escola deve ser lugar de encontro entre diferentes, de respeito às diferenças e de formação democrática.

Frente a esse cenário, o pensamento de Paulo Freire se reafirma como farol ético e político. Ele nos lembra que a educação não é neutra e que silenciar o professor é calar o direito à formação crítica. Defender a escola como espaço de liberdade, de diálogo e de humanização é resistir ao projeto de sociedade que deseja substituir o pensamento pela obediência.

Educar para libertar: esperança e ação

Em meio a um cenário de retrocessos, ataques à educação e perda de direitos sociais, a pedagogia de Paulo Freire continua a inspirar esperança ativa e compromisso com a transformação. Mais do que um método, sua obra representa uma filosofia de vida centrada na crença de que os seres humanos, mesmo em contextos de opressão, podem construir sua própria liberdade por meio da conscientização crítica. Nesse sentido, educar é um ato revolucionário.

A atualidade da Pedagogia do Oprimido (FREIRE, 1987) reside exatamente na sua potência de mobilizar os sujeitos para a leitura crítica do mundo e para a ação transformadora. Freire reconhece que todo processo educativo está inserido em relações de poder, e que a neutralidade pedagógica é uma ficção. Por isso, defende que a educação deve se posicionar ao lado dos que são silenciados, marginalizados e oprimidos. Ensinar não é apenas repassar conteúdos, mas revelar o mundo, desnaturalizar injustiças e instigar o desejo de mudança.

Como ressalta Freire (1996), “ensinar exige comprometimento”. E esse compromisso não se restringe à técnica ou ao currículo, mas se estende à ética e à política. Ética, porque trata do respeito ao outro, à dignidade humana e à busca por justiça. Política, porque envolve escolhas: educar é escolher entre o conformismo e a rebeldia, entre a manutenção da desigualdade e a luta por equidade. Nesse sentido, todo ato de ensinar é também ato de posicionamento no mundo.

É por isso que a pedagogia freiriana insiste no papel do educador como sujeito político, que, ao lado de seus alunos, deve cultivar uma pedagogia da esperança – não no sentido passivo da espera, mas como aposta no possível. Como afirma Gadotti (2000), Freire acreditava profundamente na capacidade dos oprimidos de se reinventarem, de se levantarem e de recriar o mundo por meio do diálogo e da ação coletiva.

Frente ao desmonte da escola pública, marcado pela precarização das estruturas, desvalorização dos profissionais e tentativa de esvaziamento crítico do currículo, educar com base em Freire é resistir. É dizer “não” à redução da escola a uma engrenagem de produtividade, e “sim” à escola como espaço de sonho, de escuta e de consciência. Resistir não significa apenas denunciar os ataques, mas construir cotidianamente práticas pedagógicas libertadoras, mesmo nas brechas, mesmo nas adversidades.

Assim, educar para libertar não é utopia ingênua, mas projeto político de longo alcance. É ação concreta movida por um sonho coletivo. Em tempos sombrios, lembrar Paulo Freire é reacender a chama da dignidade humana, da justiça social e da radicalidade do amor pedagógico. Como ele mesmo escreveu: “a esperança precisa da prática para tornar-se concreta” (FREIRE, 1996, p. 97).

Conclusão: Paulo Freire como farol

Em tempos de apagamento simbólico e material da educação pública, revisitar Paulo Freire é acender um farol em meio à escuridão da ignorância imposta, da intolerância promovida e da injustiça institucionalizada. O legado freiriano segue vivo não apenas em livros ou cátedras, mas sobretudo nas práticas pedagógicas comprometidas com a vida, com o diálogo e com a transformação social.

Reafirmar o compromisso com uma educação pública, crítica e humanizadora é reconhecer que a escola deve ser espaço de resistência e de emancipação — e não de adestramento ou silenciamento. É reafirmar que todo sujeito tem direito de aprender a ler o mundo e a reescrevê-lo a partir de sua própria experiência, cultura e visão de futuro. Para Freire (1987), ninguém educa ninguém sozinho: a educação acontece na partilha, no encontro, na escuta e na ação coletiva.

Além disso, a educação crítica é fundamento da democracia. Não há democracia sem sujeitos conscientes, sem participação cidadã, sem o exercício pleno do pensamento. Atacar a educação é atacar a possibilidade de um povo pensar por si, decidir sobre seu destino e romper com as estruturas que o oprimem. Por isso, os ataques à escola pública e aos professores são, no fundo, ataques ao próprio projeto de sociedade justa e plural.

Paulo Freire nos ensina que ensinar a pensar é preparar para transformar. E essa transformação não é individualista ou meramente técnica: é histórica, social, ética e política. Ao formar sujeitos críticos, solidários e ativos, a educação freiriana semeia as bases de um mundo mais justo, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida e onde o conhecimento sirva à liberdade — e não à dominação.

Portanto, manter viva a pedagogia de Freire é também resistir à barbárie, ao autoritarismo e à exclusão. É afirmar que educar é um ato de amor, de coragem e de esperança. E, sobretudo, é lembrar que toda vez que uma escola abre suas portas ao diálogo e ao pensamento crítico, um pouco da utopia de Freire se realiza – concreta, cotidiana, profundamente humana.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

GADOTTI, Moacir. Paulo Freire: uma biobibliografia. São Paulo: Cortez, 2000.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. 2. ed. Campinas: Autores Associados, 2008.

 

*Ricardo Jorge Silveira Gomes Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro Efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro Efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho.

 

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