Pluralidade religiosa no Cabo de Santo Agostinho: uma análise à luz dos dados censitários
Ricardo Jorge Silveira Gomes*
Em 19.06.2025
- Apresentação
A diversidade religiosa é uma característica marcante do Brasil, consolidada historicamente por processos de colonização, migração e interculturalidade. Ao longo dos séculos, o país tornou-se um espaço de convivência — nem sempre harmônica — entre diferentes expressões de fé, que vão desde as religiões cristãs hegemônicas até tradições de matriz africana, espiritualistas e novas religiões. Essa pluralidade não se distribui de forma homogênea pelo território nacional, variando conforme os contextos socioculturais, históricos e econômicos de cada região.
No estado de Pernambuco, essa complexidade religiosa se manifesta de forma intensa, especialmente na Região Metropolitana do Recife (RMR), onde diferentes tradições convivem, interagem e, por vezes, tensionam o espaço público. O município de Cabo de Santo Agostinho, situado ao sul da RMR, destaca-se como um campo fecundo para observar tais dinâmicas. Com uma população marcada por profundas desigualdades sociais, um histórico de ocupações populares, crescimento urbano acelerado e forte presença de movimentos religiosos organizados, Cabo apresenta um perfil religioso que não apenas reflete tendências nacionais, mas também revela especificidades locais que merecem atenção.
Este artigo tem como objetivo analisar a diversidade religiosa no município do Cabo de Santo Agostinho com base nos dados censitários disponíveis, especialmente os do Censo Demográfico de 2010, considerando que, até o momento, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda não divulgou as informações detalhadas sobre religião referentes ao Censo de 2022. A pesquisa se propõe, além de mapear a distribuição das principais confissões religiosas no município, a refletir sobre as implicações sociais, culturais e políticas dessa configuração. Ao fazer isso, busca-se compreender de que maneira a religião participa da formação do tecido social cabense, como influencia as relações comunitárias e quais são os possíveis desdobramentos dessa diversidade no campo dos direitos, das políticas públicas e das disputas simbólicas.
Esta pesquisa adota uma abordagem quantitativa, com suporte qualitativo, e baseia-se na análise de dados secundários provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O principal corpus empírico é constituído pelas informações do Censo Demográfico de 2010, último levantamento com dados disponíveis sobre filiação religiosa no Brasil até o momento da redação deste artigo, uma vez que os resultados específicos sobre religião do Censo 2022 ainda não foram oficialmente divulgados.
Foram selecionadas e analisadas as seguintes variáveis censitárias, disponibilizadas através do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA) e da plataforma agregadora Censo 2010:
- Filiação religiosa da população residente no município de Cabo de Santo Agostinho;
- Distribuição da filiação religiosa por faixa etária, sexo e cor/raça;
- Nível de instrução dos declarantes de diferentes grupos religiosos;
- Indicadores socioeconômicos correlacionados, como renda, ocupação e escolaridade, com o objetivo de explorar possíveis interseções entre religião e desigualdade social.
Além da análise estatística descritiva dessas variáveis, o estudo foi enriquecido com uma revisão bibliográfica que contempla artigos acadêmicos, dissertações, teses e publicações institucionais voltadas para o estudo da diversidade religiosa em Pernambuco, com destaque para pesquisas que tratam da Região Metropolitana do Recife e, particularmente, do município de Cabo de Santo Agostinho. Também foram consideradas fontes jornalísticas e documentos públicos que abordam manifestações religiosas locais, eventos religiosos de caráter popular e conflitos relacionados à presença de diferentes grupos religiosos no espaço urbano.
A análise interpretativa dos dados foi orientada por referenciais teóricos da sociologia da religião e da antropologia urbana, com ênfase em autores que discutem a relação entre religião, território e identidade social no contexto brasileiro. Essa abordagem mista busca não apenas mapear a presença quantitativa dos diferentes grupos religiosos, mas também interpretar o significado dessa presença no contexto social e cultural cabense.
- Contexto Socioeconômico de Cabo de Santo Agostinho
Cabo de Santo Agostinho é um dos municípios mais populosos do estado de Pernambuco, com uma população estimada em 203.440 habitantes em 2022, segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Inserido na Região Metropolitana do Recife (RMR), o município ocupa posição estratégica no litoral sul pernambucano e exerce um papel relevante tanto no cenário urbano quanto no industrial da região.
Do ponto de vista do desenvolvimento humano, Cabo apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,690, classificado como médio, de acordo com os dados mais recentes do Atlas do Desenvolvimento Humano. Dentre as três dimensões que compõem o IDHM, destaca-se a longevidade, com um indicador de 0,813, sugerindo avanços significativos na expectativa de vida da população. Em contraste, as dimensões de educação e renda apresentam índices mais modestos, o que reflete as persistentes desigualdades sociais que afetam grande parte da população local.
A economia cabense é fortemente influenciada pela presença do Complexo Industrial Portuário de Suape, um dos maiores empreendimento logísticos e industriais do Nordeste brasileiro. A instalação e expansão do complexo têm provocado transformações significativas nas dinâmicas urbanas, sociais e culturais do município. Por um lado, o complexo atraiu investimentos, gerou empregos e impulsionou a urbanização; por outro, também provocou tensões sociais, deslocamentos populacionais e impactos sobre o tecido comunitário tradicional.
Esses fatores contribuem para a configuração de um espaço social marcado por contrastes, onde convivem áreas de crescimento acelerado com bolsões de pobreza e precariedade. Nesse contexto, a religião assume múltiplas funções: além de elemento de identidade e pertencimento, atua como mediadora de conflitos, organizadora de redes de solidariedade e, não raramente, como espaço de disputa simbólica e política.
Portanto, compreender a diversidade religiosa em Cabo de Santo Agostinho exige não apenas a análise quantitativa de filiações religiosas, mas também uma leitura atenta das condições socioeconômicas e dos processos históricos que moldaram o território e suas relações sociais.
- Panorama Religioso segundo o Censo 2010 – Análise da Configuração Religiosa em Cabo de Santo Agostinho (2010).
Os dados censitários de 2010 revelam uma configuração religiosa diversificada em Cabo de Santo Agostinho, marcada por um relativo equilíbrio entre as duas maiores tradições religiosas do Brasil: o catolicismo romano e as diferentes vertentes do protestantismo evangélico. A seguir, apresentamos a distribuição por grupo:
- Católicos Apostólicos Romanos: 39,76%
- Evangélicos (total): 36,87%, subdivididos em:
- Evangélicas de missão: 6,16%
- Evangélicas de origem pentecostal: 25,73%
- Evangélica não determinada: 4,99%
- Espíritas kardecistas: 0,75%
- Umbanda e Candomblé: 0,10%
- Outras religiões: 2,77%
- Sem religião: 19,23%
A primeira constatação relevante é o declínio relativo da hegemonia católica, cuja presença, embora ainda majoritária, encontra-se significativamente abaixo da média nacional de 64,6% (Censo 2010). Com menos de 40% de adeptos, o catolicismo em Cabo de Santo Agostinho reflete o fenômeno de desinstitucionalização religiosa e perda de influência das igrejas tradicionais observado em várias regiões urbanas do Brasil.
Por outro lado, observa-se a forte presença dos evangélicos, especialmente dos grupos pentecostais, que representam mais de um quarto da população (25,73%). Esse dado é indicativo da expansão evangélica, que tem se consolidado nas periferias urbanas e em territórios marcados por vulnerabilidade social, como é o caso de diversas comunidades de Cabo. Igrejas como a Assembleia de Deus, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Deus é Amor são expressões comuns dessa presença crescente, associando-se a um discurso de acolhimento, cura e prosperidade, muitas vezes ausente em instituições mais tradicionais.
As igrejas evangélicas de missão, com 6,16%, incluem denominações como os batistas, presbiterianos e metodistas. Embora numericamente inferiores aos pentecostais, esses grupos mantêm presença relevante, especialmente nos setores médios da população, frequentemente associados a uma religiosidade mais institucionalizada e menos voltada a manifestações carismáticas.
O percentual de pessoas sem religião (19,23%) também chama atenção, superando a média nacional (cerca de 8% em 2010). Esse dado pode refletir tanto o crescimento do secularismo quanto uma recusa à vinculação formal a instituições religiosas, sem necessariamente indicar ausência de crenças ou práticas espirituais. Tal fenômeno é comum em centros urbanos onde há maior exposição a pluralidades culturais e disputas simbólicas.
Já os grupos espíritas kardecistas (0,75%) e de religiões afro-brasileiras (0,10%) aparecem com números bastante reduzidos. Essa baixa adesão pode ser explicada, em parte, pelo estigma histórico que tais religiões sofrem, aliado à tendência de muitos praticantes se declararem como “católicos” ou “sem religião” no Censo, por receio de discriminação. Além disso, a predominância do discurso evangélico pentecostal — geralmente hostil às religiões de matriz africana — contribui para o apagamento social dessas expressões religiosas.
Por fim, o grupo classificado como “outras religiões” (2,77%) compreende um conjunto heterogêneo que pode incluir budistas, testemunhas de Jeová, mórmons, esotéricos, entre outros, refletindo a crescente fragmentação e pluralização do campo religioso.
Essa distribuição revela que Cabo de Santo Agostinho configura-se como um território de intensa diversidade e mobilidade religiosa, onde antigas hegemonias estão sendo desafiadas por novos atores religiosos, ao mesmo tempo em que cresce o contingente de pessoas que se afastam das instituições religiosas tradicionais. Tais transformações têm impactos diretos nas dinâmicas sociais, na organização comunitária e no debate público, exigindo novas formas de compreensão sobre o papel da religião na vida cotidiana da população.
- Comparativo com Pernambuco e o Brasil: Um Perfil Religioso Singular
Ao se comparar os dados do município de Cabo de Santo Agostinho com os percentuais estaduais (Pernambuco) e nacionais (Brasil) registrados no Censo Demográfico de 2010, observam-se diferenças significativas na composição religiosa da população. A tabela abaixo resume essas proporções:
| Religião | Cabo de Santo Agostinho (%) | Pernambuco (%) | Brasil (%) |
| Católica Apostólica Romana | 39,76 | 66,65 | 65,92 |
| Evangélica (total) | 36,87 | 20,18 | 21,02 |
| Sem religião | 19,23 | 9,34 | 7,27 |
Esses dados indicam que Cabo de Santo Agostinho apresenta um perfil religioso significativamente distinto, tanto em relação ao estado de Pernambuco quanto ao cenário nacional. Três aspectos se destacam:
- Redução da predominância católica: A proporção de católicos no município (39,76%) está bem abaixo da média estadual (66,65%) e da média nacional (65,92%), o que confirma o declínio da hegemonia católica no território cabense. Esse fenômeno pode ser atribuído a processos de desinstitucionalização, especialmente em áreas urbanas periféricas, onde a presença institucional da Igreja Católica muitas vezes é menor, tanto em infraestrutura quanto em atuação pastoral contínua.
- Expansão evangélica acelerada: Com 36,87% da população se declarando evangélica, Cabo de Santo Agostinho apresenta uma das mais altas proporções de evangélicos do estado, superando significativamente a média pernambucana (20,18%) e a nacional (21,02%). Esse crescimento está especialmente concentrado nas igrejas pentecostais e neopentecostais, cuja inserção nas camadas populares é facilitada por uma estrutura capilarizada, linguagens acessíveis e forte atuação social. Esse dado revela não apenas uma tendência nacional, mas uma dinâmica local intensificada, possivelmente conectada às transformações urbanas e sociais associadas ao Complexo de Suape.
- Alto percentual de pessoas sem religião: A proporção de pessoas que se declaram “sem religião” em Cabo (19,23%) é mais do que o dobro da média estadual (9,34%) e quase três vezes superior à nacional (7,27%). Esse dado deve ser interpretado com cautela: embora possa indicar um afastamento das instituições religiosas, não implica necessariamente em ateísmo ou rejeição da fé. Muitas vezes, trata-se de uma religiosidade individualizada, desvinculada de igrejas formais, o que está em consonância com tendências mais amplas de pluralismo religioso e espiritualidades pós-institucionais.
Essas discrepâncias sugerem que Cabo de Santo Agostinho constitui um microcosmo de intensas transformações religiosas, possivelmente impulsionadas por fatores como urbanização acelerada, mudanças na estrutura demográfica, presença de movimentos religiosos ativos, além das dinâmicas socioeconômicas específicas do município. A proximidade com o Complexo Industrial Portuário de Suape, a migração interna e os desafios sociais enfrentados por comunidades locais criam um cenário propício para a atuação de religiões que oferecem suporte material, emocional e comunitário.
Esse quadro reforça a importância de se compreender a religião como um fenômeno social em movimento, sensível às dinâmicas territoriais, aos conflitos simbólicos e às redes de pertencimento construídas no cotidiano urbano.
Nível de Instrução e Filiação Religiosa: Intersecções entre Educação e Crença
A distribuição da população por nível de instrução e filiação religiosa em Cabo de Santo Agostinho revela padrões que se repetem em outros contextos urbanos brasileiros, mas que também refletem características sociais e históricas locais. Os dados demonstram que, tanto entre os católicos quanto entre os evangélicos, a maior concentração está entre aqueles com ensino fundamental incompleto ou sem instrução formal, o que sugere correlações importantes entre escolaridade, inserção social e prática religiosa.
5.Distribuição por religião e nível de instrução:
| Religião | Sem instrução e fundamental incompleto (%) | Ensino Médio completo (%) | Ensino superior completo (%) |
| Católicos | 50,91 | 29,70 | 4,68 |
| Evangélicos | 52,81 | 30,35 | 3,53 |
Interpretação dos dados
Alta presença de baixa escolaridade em ambos os grupos
A maioria dos católicos (50,91%) e dos evangélicos (52,81%) possui até o ensino fundamental incompleto. Esse dado revela uma forte sobreposição entre baixa escolaridade e religiosidade popular, o que não significa, contudo, ausência de engajamento religioso. Pelo contrário, tanto a Igreja Católica quanto as igrejas evangélicas — sobretudo as pentecostais — desenvolvem linguagens acessíveis e práticas religiosas adaptadas à realidade cultural e educacional de suas comunidades.
Leve vantagem relativa dos evangélicos em escolaridade média
Embora ambos os grupos apresentem percentuais próximos no ensino médio completo (29,70% para católicos e 30,35% para evangélicos), observa-se que os evangélicos vêm ampliando sua presença entre os setores com maior escolarização básica, o que pode estar relacionado à valorização da mobilidade social e da disciplina pessoal promovidas por várias igrejas neopentecostais.
Baixa escolarização superior em ambos os segmentos
Apenas 4,68% dos católicos e 3,53% dos evangélicos possuem ensino superior completo. Esse dado reforça o perfil de baixa escolarização generalizada da população cabense, especialmente nas periferias urbanas. Também revela que as elites educacionais tendem a se afastar das formas mais populares de religiosidade, o que pode contribuir para o crescimento da categoria “sem religião” em faixas de maior escolaridade.
Implicações socioculturais A correlação entre baixo nível educacional e pertencimento religioso institucional tem implicações importantes nas formas de sociabilidade, no conteúdo das mensagens religiosas, no grau de letramento religioso e nas práticas de participação comunitária. No caso dos evangélicos, por exemplo, a ênfase na oralidade, no testemunho pessoal e na leitura da Bíblia em linguagem simples contribui para uma inclusão efetiva de fiéis com pouca escolaridade formal. Já no catolicismo, a persistência de práticas tradicionais e a presença de lideranças comunitárias leigas também favorecem a participação popular, embora a instituição tenha perdido espaço frente ao dinamismo das igrejas evangélicas.
Essas tendências apontam para a necessidade de compreender a religião não apenas como uma questão de fé individual, mas como um fenômeno profundamente entrelaçado com os processos sociais, educacionais e econômicos. Em contextos como o de Cabo de Santo Agostinho, marcado por desigualdades estruturais, a religião assume funções educativas, assistenciais e simbólicas, contribuindo para a construção de sentido, pertencimento e resistência social.
- Presença Institucional das Religiões: Expressões da Diversidade e da Disputa por Espaço Religioso
A presença de instituições religiosas consolidadas em Cabo de Santo Agostinho evidencia não apenas a pluralidade de crenças no município, mas também a organização institucional e territorial das religiões que atuam na região. A coexistência de templos católicos e evangélicos de diversas denominações demonstra um cenário de convivência e, ao mesmo tempo, de competição simbólica e pastoral por fiéis e espaços públicos.
Igrejas Católicas
A Igreja Católica, embora numericamente menor do que em décadas anteriores, mantém uma presença institucional significativa no município, com paróquias como:
- Paróquia Santo Antônio
- Paróquia São José Operário
- Paróquia Nossa Senhora do Bom Conselho
- Paróquia São José
Essas paróquias exercem papel importante na organização comunitária, celebrações litúrgicas e serviços pastorais, além de manterem vínculos com escolas, creches, grupos de juventude e pastorais sociais. A atuação da Igreja Católica, por meio de suas comunidades eclesiais de base (CEBs), ainda é relevante especialmente em bairros com tradição religiosa consolidada. No entanto, sua capacidade de expansão tem sido limitada, especialmente frente ao dinamismo e à capilaridade das igrejas evangélicas.
Igrejas Evangélicas
O segmento evangélico, por sua vez, revela uma maior diversidade institucional e maior capilaridade, com presença notável de igrejas que vão desde denominações históricas até as pentecostais e neopentecostais:
- Assembleia de Deus
- Igreja Universal do Reino de Deus
- Congregação Cristã no Brasil
- Igreja Cristã Maranata
- Casa de Bênção Sidra
A Assembleia de Deus, com forte tradição pentecostal, destaca-se por sua estrutura ampla, culto vibrante e presença marcante nas periferias. A Igreja Universal do Reino de Deus, com seu estilo neopentecostal, atua fortemente nos meios de comunicação e em estratégias de visibilidade urbana, ocupando inclusive imóveis centrais e prédios comerciais.
A presença dessas instituições mostra como o campo religioso evangélico opera com eficiência territorial e comunicacional, estabelecendo templos em comunidades de difícil acesso, promovendo cultos diários e mobilizando fiéis por meio de atividades assistenciais, culturais e de evangelização direta.
Além disso, a proliferação de igrejas de pequeno porte (denominações locais, “igrejas de garagem”, ministérios independentes) reforça a ideia de um campo religioso fragmentado e competitivo, mas também flexível e adaptável às necessidades espirituais e materiais das populações locais.
A presença institucional das religiões em Cabo de Santo Agostinho, portanto, reflete a diversidade do tecido religioso local e revela as estratégias de atuação e permanência de diferentes tradições religiosas. O número e a distribuição dessas igrejas não apenas traduzem índices de fé ou pertencimento, mas também dizem respeito a dinâmicas de poder, disputas por legitimidade simbólica e atuação concreta no cotidiano da população.
Em contextos marcados por vulnerabilidade social e urbanização desigual, como é o caso de muitos bairros de Cabo, as igrejas — sobretudo as evangélicas pentecostais — tornam-se espaços de acolhimento, mediação de conflitos, sociabilidade e até mesmo acesso a bens materiais. Já a Igreja Católica, embora enfrente desafios, ainda exerce influência moral e cultural, especialmente em datas comemorativas, festas populares e rituais de passagem.
Assim, o espaço urbano de Cabo de Santo Agostinho pode ser lido como um verdadeiro campo de disputa e negociação religiosa, onde diferentes igrejas se articulam para ocupar espaços físicos e simbólicos na vida da cidade.
Considerações Finais
A análise da diversidade religiosa no município do Cabo de Santo Agostinho revela um cenário plural e dinâmico, que se diferencia significativamente dos padrões estaduais e nacionais. A partir dos dados do Censo Demográfico de 2010 e de outras fontes complementares, observou-se que o município apresenta uma menor proporção de católicos e uma expressiva presença de evangélicos, especialmente das denominações pentecostais e neopentecostais, além de um número considerável de pessoas que se declaram sem religião.
Essas particularidades sugerem que Cabo de Santo Agostinho constitui um território religioso em transformação, marcado por mudanças estruturais e simbólicas nas formas de crença, pertencimento e prática religiosa. As diferenças observadas em relação ao restante do estado e do país podem ser compreendidas à luz de múltiplos fatores: processos de urbanização acelerada, vulnerabilidade social, presença de zonas industriais (como o Complexo Portuário de Suape), migração interna e crescimento de periferias urbanas — todos elementos que afetam a experiência religiosa dos habitantes e influenciam as estratégias de inserção das instituições religiosas.
A investigação também demonstrou que o nível de instrução tem impacto nas formas de filiação religiosa, com a maioria dos fiéis católicos e evangélicos concentrada nas faixas de escolaridade mais baixa. Isso reforça a leitura da religião como fenômeno socialmente condicionado, profundamente vinculado às trajetórias de vida, às desigualdades educacionais e à busca por redes de apoio espiritual e material. As igrejas, especialmente as evangélicas pentecostais, exercem um papel ativo na vida das comunidades, oferecendo não apenas rituais e doutrinas, mas também suporte social, orientação moral e pertencimento afetivo.
A presença institucional das religiões também reflete essa dinâmica, com uma rede diversificada de paróquias católicas e igrejas evangélicas, algumas com forte poder organizacional e territorial. A atuação dessas instituições em bairros populares, favelas e áreas urbanas periféricas mostra como o espaço religioso se organiza em sintonia com as necessidades e os desafios cotidianos da população. Ao mesmo tempo, essa multiplicidade institucional revela um campo religioso em constante disputa e negociação, onde diferentes tradições competem — e, por vezes, dialogam — pela atenção, confiança e fidelidade dos fiéis.
Por fim, este estudo reforça a necessidade de se compreender a religião em Cabo de Santo Agostinho não apenas como um dado estatístico ou cultural, mas como um elemento ativo na construção social, na formação identitária e na mediação das desigualdades locais. Em um contexto de profundas transformações sociais, econômicas e urbanas, a religião permanece como um dos principais eixos de coesão, resistência e reinvenção simbólica da vida coletiva.
Como desdobramento desta análise, futuras pesquisas poderão se beneficiar do acesso aos dados do Censo 2022, ainda não oficialmente divulgados, bem como de estudos etnográficos e qualitativos que aprofundem a compreensão das práticas, crenças e significados que constituem o cotidiano religioso cabense.
Referências:
IBGE. Censo Demográfico 2010: Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: https://www.ibge.gov.br
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IBGE. Atlas do Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2013. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br
IBGE. Indicadores Sociais Municipais: uma análise dos resultados do universo do Censo Demográfico 2010. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br
PNUD. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil – IDHM Cabo de Santo Agostinho.
Disponível em: http://www.atlasbrasil.org.br
BURITY, Joanildo. Religião, espaço público e democracia: conflitos e acomodações na sociedade brasileira contemporânea. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2015.
CAMURÇA, Marcelo Ayres. Religiões e política no Brasil: estratégias e discursos. Petrópolis: Vozes, 2008.
MARIANO, Ricardo. “Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal”. In: Estudos Avançados, v. 18, n. 52, 2004, p. 121-138.
FRESTON, Paul. Evangelicals and Politics in Asia, Africa and Latin America. Cambridge University Press, 2001. (Capítulos sobre o Brasil)
PIERUCCI, Antônio Flávio; PRANDI, Reginaldo. Religião e Sociedade: uma leitura de clássicos. São Paulo: Editora Hucitec, 1996.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2011.
(Útil para análises sobre o “campo religioso” como espaço de disputa por legitimidade)
MONTERO, Paula. Religião, pluralismo e esfera pública. São Paulo: Ed. 34, 2009.
CUNHA, Magali do Nascimento. A explosão gospel: um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.
Fontes complementares e bancos de dados úteis
Plataforma Scielo Brasil: https://www.scielo.org
(Para localizar artigos acadêmicos sobre religião, censos e sociologia urbana)
Plataforma de periódicos CAPES/MEC: https://www.periodicos.capes.gov.br
Observatório das Metrópoles: https://www.observatoriodasmetropoles.net.br
*Ricardo Jorge Silveira Gomes – Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho – IHAGCCABO.
Imagem destaque: Web

O artigo faz uma análise sobre o contexto das mudanças religiosas do município do Cabo de Santo Agostinho. O que acho muito importante é a declaração das religiões de matrizes africanas e o aumento considerável de pessoas que se declaram sem religião, isso dez muito sobre a mudança cultural do município.
artigo faz uma análise sobre o contexto das mudanças religiosas do município do Cabo de Santo Agostinho. O que acho muito importante é a declaração das religiões de matrizes africanas e o aumento considerável de pessoas que se declaram sem religião, isso dez muito sobre a mudança cultural do município.