Espiritualidade e inclusão: Religião e deficiência no Cabo de Santo Agostinho à luz do Censo de 2022
Ricardo Jorge Silveira Gomes*
Em 21.07.2025
- Introdução
A temática da deficiência vem ganhando visibilidade nas agendas sociais e políticas, especialmente após marcos como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006) e a promulgação da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015). No Brasil, os dados do Censo Demográfico de 2022, publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que aproximadamente 7,3% da população brasileira declarou possuir algum tipo de deficiência funcional, incluindo limitações visuais, auditivas, motoras e intelectuais. Pela primeira vez, o Censo também incluiu dados sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), representando um avanço metodológico e ético no reconhecimento da diversidade neurocognitiva no país.
Apesar desse progresso, as informações sobre como pessoas com deficiência se relacionam com as práticas religiosas, particularmente em nível local, ainda são escassas. No município do Cabo de Santo Agostinho (PE), que possui uma população de aproximadamente 207 mil habitantes, os dados disponíveis não revelam detalhadamente como se dá a participação de pessoas com deficiência em espaços de fé — sejam eles católicos, evangélicos, espíritas ou de matriz africana. A ausência de dados mais granulares reflete uma invisibilidade estatística que, por sua vez, contribui para a invisibilidade social desse grupo em comunidades religiosas.
A presente investigação propõe, portanto, discutir como diferentes grupos religiosos presentes no Cabo de Santo Agostinho têm lidado com as questões de acessibilidade, capacitismo e inclusão de pessoas com deficiência — abrangendo não apenas deficiências físicas e sensoriais, mas também intelectuais, psicossociais e os chamados perfis neurodiversos, como no caso da dislexia e do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A reflexão parte do reconhecimento de que a religião desempenha um papel central na vida de milhões de brasileiros, oferecendo não apenas pertencimento espiritual, mas também redes de apoio emocional, moral e comunitário. No entanto, quando os espaços religiosos não são acessíveis — física, simbólica ou cognitivamente —, acabam reproduzindo exclusões estruturais, como já alertavam autores como Sueli Carneiro (2003) ao tratar da intersecção entre raça, gênero e deficiência. Segundo ela, “a negação do outro se perpetua não apenas nas ruas, mas também nos templos”.
O conceito de capacitismo, entendido como a forma de opressão e discriminação baseada na ideia de que corpos e mentes ditos “normais” são superiores aos corpos e mentes com deficiência, será central para a análise proposta. Como defende Emílio Figueira (2015), teólogo e psicólogo, “o capacitismo religioso se manifesta quando a comunidade de fé nega às pessoas com deficiência o direito de serem sujeitos espirituais plenos, relegando-as à condição de dependentes, objetos de caridade ou milagres”. Nesse sentido, o artigo também dialoga com as contribuições da chamada Teologia da Inclusão e da Teoria Crip, que propõem uma ressignificação da deficiência nos espaços simbólicos e culturais, incluindo a religião.
Ao analisar o caso específico do Cabo de Santo Agostinho, pretende-se compreender os limites e as possibilidades da vivência religiosa entre pessoas com deficiência, problematizando as práticas, os discursos e as estruturas que favorecem ou dificultam sua participação plena. Trata-se, portanto, de articular uma abordagem interseccional[2], que considere a deficiência em diálogo com os marcadores de classe, raça, gênero, cultura e religião — todos fortemente entrelaçados no contexto urbano e desigual do município.
Em última instância, este artigo busca contribuir para o fortalecimento de uma cultura de direitos e de acessibilidade nos espaços religiosos, entendendo que o direito à fé, à espiritualidade e à vivência comunitária deve ser garantido a todos, sem exceções. Como destaca Milton Santos (2002), “a cidadania se realiza na pluralidade, e essa pluralidade exige que reconheçamos os diferentes modos de estar no mundo”. A religiosidade da pessoa com deficiência não é menos legítima — ela é apenas distinta, e essa diferença deve ser reconhecida, respeitada e acolhida.
- Panorama Demográfico e Religioso no Cabo
O município do Cabo de Santo Agostinho, situado na Região Metropolitana do Recife (PE), apresentou uma população total de aproximadamente 203 mil habitantes segundo o Censo Demográfico de 2022 (IBGE, 2023). Trata-se de um território marcado por intensas desigualdades socioeconômicas e grande diversidade religiosa, o que o torna um importante campo de análise para investigações interseccionais sobre deficiência, espiritualidade e inclusão.
Em nível nacional, o Censo 2022 revelou que 7,3% da população brasileira declarou possuir algum grau de deficiência, considerando limitações de natureza visual, auditiva, motora ou intelectual. Já no estado de Pernambuco, esse percentual foi superior à média nacional, alcançando aproximadamente 8,9% da população, o que indica uma incidência mais elevada de pessoas com deficiência em contextos urbanos e periféricos do Nordeste. Esses números indicam que, apenas no município do Cabo, cerca de 14 a 18 mil pessoas poderiam estar vivendo com algum tipo de deficiência, embora a distribuição por tipo ainda não esteja detalhadamente publicada para o nível municipal.
Por outro lado, no que diz respeito à composição religiosa, o Censo mostrou que o estado de Pernambuco segue majoritariamente cristão, com 61,14% de católicos e 31,42% de evangélicos. No entanto, destacam-se também os 0,46% de adeptos das religiões de matriz africana (umbanda e candomblé), além de expressões religiosas minoritárias como o espiritismo, as tradições indígenas e o islamismo. A cidade do Cabo de Santo Agostinho reflete essa pluralidade, sendo historicamente marcada pela presença de católicos populares, evangélicos pentecostais, terreiros de jurema e candomblé, além de grupos espíritas e práticas sincréticas.
Entretanto, não há dados públicos sistematizados que cruzem religião e deficiência no município ou mesmo no estado. Essa lacuna estatística reforça o que autoras como Sônia Corrêa e Débora Diniz chamam de “invisibilidade interseccional” — a ausência de políticas e de dados que contemplem múltiplas dimensões da identidade social, como ser ao mesmo tempo pessoa com deficiência e sujeito religioso (DINIZ, 2007). Conforme alerta Diniz, “a invisibilidade estatística das pessoas com deficiência em recortes sociais mais amplos é uma forma de negação de sua plena cidadania”.
Essa ausência de informações desagregadas evidencia a urgência de abordagens analíticas que considerem como se dá a vivência religiosa entre pessoas com deficiência, e se os diferentes grupos religiosos que atuam no território estão preparados — física, simbólica e institucionalmente — para acolhê-las. Em outras palavras, não basta conhecer os números gerais da população com deficiência e da composição religiosa: é preciso investigar os pontos de interseção, onde barreiras de acessibilidade, estigma e exclusão se multiplicam.
Além disso, autores como Emílio Figueira (2015) têm chamado atenção para o que ele denomina de “capacitismo pastoral”, ou seja, a reprodução de visões assistencialistas e caritativas nas comunidades religiosas, que não reconhecem as pessoas com deficiência como sujeitos plenos de espiritualidade e de protagonismo religioso. Tal crítica torna ainda mais relevante o esforço por mapear experiências de inclusão ou exclusão religiosa vivenciadas por esse grupo no Cabo de Santo Agostinho, especialmente nas comunidades mais vulneráveis socialmente.
Dessa forma, este artigo propõe iluminar um campo ainda pouco explorado: o da intersecção entre deficiência e religião em contextos urbanos periféricos, defendendo que a ausência de dados não pode justificar a ausência de políticas públicas e de práticas pastorais inclusivas. Como afirma Sueli Carneiro (2003), “a omissão institucional frente à desigualdade é também uma forma de violência”. Nesse sentido, o Cabo de Santo Agostinho, com sua diversidade religiosa e seus desafios sociais, torna-se um território exemplar para compreender os limites e as possibilidades da inclusão religiosa de pessoas com deficiência.
- Capacitismo e Desafios Relacionados à Acessibilidade Religiosa
O termo capacitismo designa as formas de opressão e exclusão sistemática vivenciadas por pessoas com deficiência, sustentadas pela ideia de que corpos e mentes “normais” são superiores aos corpos e mentes com deficiência. Trata-se de uma estrutura de poder que valoriza a autonomia, a produtividade e a performance física ou intelectual como padrões universais, excluindo os que não se encaixam nesses parâmetros. No campo religioso, o capacitismo pode se expressar de modo ainda mais sutil e simbólico, através de discursos que associam a deficiência ao pecado, ao castigo divino ou à “falta de fé”, ou ainda por meio de práticas litúrgicas que não contemplam as especificidades de acessibilidade e compreensão desses fiéis.
Como destaca Sueli Carneiro (2003), “a opressão não se limita às ausências materiais; ela se realiza também nos símbolos, na linguagem, nos espaços e nas liturgias que nos recusam”. A crítica se estende aos templos e espaços religiosos que, muitas vezes, não possuem rampas, intérpretes de Libras, sinalizações táteis ou adaptações litúrgicas para pessoas com deficiência intelectual ou com transtornos do espectro autista (TEA). No município do Cabo de Santo Agostinho, essa realidade é perceptível em muitos bairros periféricos, onde a ausência de acessibilidade arquitetônica e comunicacional impede que pessoas com deficiência frequentem e participem das práticas de fé de maneira plena.
Nesse cenário, ganha relevância a chamada Teoria Crip, proposta por autores como Robert McRuer e Alison Kafer, que convida a repensar a deficiência não como uma limitação individual, mas como uma construção social, histórica e cultural. Segundo McRuer (2006), “os espaços culturais e religiosos são, em sua maioria, desenhados para corpos idealizados — brancos, andantes, ouvintes e neurotípicos — e, portanto, todo o sistema social é impregnado de normatividade corporal”. Para ele, o conceito de “corponormatividade” ajuda a entender como o capacitismo molda as práticas sociais e espirituais, naturalizando a exclusão.
A Teoria Crip propõe, portanto, uma reconfiguração radical da acessibilidade: mais do que inserir rampas ou intérpretes, trata-se de criar espaços de fé em que múltiplos corpos, linguagens, modos de atenção e compreensão sejam acolhidos como legítimos. Essa abordagem exige uma espiritualidade sensível à pluralidade humana, que reconheça que a experiência religiosa não é menos autêntica quando vivida por alguém que se comunica de forma alternativa, não verbal ou com mediação pedagógica.
Na perspectiva da Teologia da Inclusão, proposta por Emílio Figueira (2015), a fé cristã deve ser um instrumento de libertação e não de exclusão. Ele afirma: “é um erro teológico tratar a pessoa com deficiência como objeto de milagre, como se sua cura fosse condição para o pleno pertencimento à comunidade de fé. A inclusão começa com o reconhecimento da dignidade espiritual da pessoa, tal como ela é.” Nesse sentido, Figueira propõe que líderes religiosos sejam formados para romper com o paradigma assistencialista, substituindo a caridade pela cidadania espiritual.
No caso do Cabo de Santo Agostinho, a falta de políticas públicas específicas voltadas à acessibilidade religiosa agrava a situação. Ainda são raras as igrejas ou terreiros que disponibilizam materiais adaptados, liturgias em linguagem simples, tradutores de Libras, sinalização tátil ou formação de lideranças para acolher pessoas com deficiência intelectual. Essa ausência reforça o isolamento espiritual de muitas famílias e contribui para a ideia de que a deficiência seria um “fardo” ou uma “provação” apenas familiar, sem lugar legítimo no espaço sagrado.
Como observa Alison Kafer (2013, p. 48), “um mundo verdadeiramente inclusivo não se constrói apenas com acessibilidade arquitetônica, mas com a reorganização dos nossos modos de pensar o tempo, o corpo, a participação e o pertencimento”. Aplicada ao campo religioso, essa visão nos convida a repensar o modo como concebemos a fé, o culto e a comunidade à luz da diferença.
Portanto, reconhecer e enfrentar o capacitismo religioso é um passo essencial para construir espaços de fé mais inclusivos, onde pessoas com deficiência — sejam elas físicas, sensoriais, intelectuais ou neurodivergentes — possam participar plenamente da vida espiritual e comunitária. Isso exige tanto a reformulação das práticas religiosas quanto a transformação da cultura institucional, num esforço conjunto entre lideranças religiosas, movimentos sociais e políticas públicas de inclusão.
- Deficiência Intelectual, Dislexia e Neurodiversidade no Ambiente Religioso
As pessoas com deficiência intelectual, com transtornos específicos de aprendizagem — como a dislexia — ou com neurodivergências, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), enfrentam obstáculos significativos para exercer plenamente sua espiritualidade em comunidades religiosas. Esses desafios não se limitam às barreiras físicas, mas abrangem também aspectos cognitivos, simbólicos e comunicacionais. No contexto do Cabo de Santo Agostinho, onde a pluralidade religiosa convive com desigualdades estruturais, esses obstáculos são ainda mais agudos, exigindo atenção por parte das lideranças religiosas, das famílias e do poder público.
Segundo Emílio Figueira (2015), teólogo e psicólogo especializado em deficiência, a inclusão religiosa de pessoas com deficiência intelectual “não deve se basear em uma lógica de caridade ou de tolerância passiva, mas sim no reconhecimento de sua espiritualidade plena e autêntica, ainda que expressa por vias distintas da racionalidade dominante.” Para Figueira, a espiritualidade das pessoas com deficiência é frequentemente ignorada ou subestimada, como se elas não fossem capazes de estabelecer uma relação com o sagrado, quando, na verdade, essa relação pode ocorrer de maneira sensorial, afetiva e simbólica.
Nos casos de dislexia, que envolve dificuldades específicas na leitura e na escrita, a compreensão de textos sagrados ou de materiais litúrgicos torna-se um obstáculo real. No entanto, essas dificuldades não comprometem a capacidade de vivenciar a fé, desde que o ambiente religioso esteja disposto a adaptar seus meios comunicacionais. Como aponta a pedagoga Claudia Werneck (1997), “não há inclusão se a comunicação não for acessível. O direito de compreender é a base da participação cidadã.” Assim, é necessário que igrejas, centros espíritas e terreiros considerem múltiplas formas de linguagem — oralidade, imagens, dramatizações, música e tecnologia assistiva — para tornar a experiência religiosa compreensível e significativa.
Em relação ao TEA (Transtorno do Espectro Autista), os desafios podem incluir sensibilidade sensorial (a sons, luzes e movimentos), dificuldades de interação social e necessidade de rotinas. Muitas comunidades religiosas não estão preparadas para lidar com essas especificidades e acabam, mesmo sem intenção explícita, excluindo ou desencorajando a participação de pessoas autistas. Como alerta Alison Kafer (2013, p. 78), “o problema não está na diferença neurodivergente, mas na incapacidade das instituições de reconhecerem outras formas de presença, atenção e envolvimento.”
A noção de neurodiversidade, cunhada inicialmente por ativistas autistas, propõe que diferenças cognitivas não devem ser medicalizadas ou tratadas como falhas, mas compreendidas como variações legítimas da experiência humana. Essa perspectiva rompe com a visão patologizante e abre caminhos para repensar práticas religiosas, litúrgicas e pedagógicas em uma chave mais inclusiva. Como destaca o educador e pesquisador Tom Shakespeare (2006), “a religião, como outras esferas da vida social, tem o dever ético de se tornar um espaço de acolhimento, e não de adaptação forçada ao padrão.”
No Cabo de Santo Agostinho, apesar de avanços pontuais em algumas igrejas e centros de convivência interreligiosa, ainda são raros os espaços de fé que disponibilizam materiais litúrgicos acessíveis, ambientes sensorialmente ajustáveis ou mediadores capacitados para lidar com a diversidade neurocognitiva. Além disso, o estigma social ainda pesa sobre famílias com filhos neurodivergentes, que muitas vezes deixam de frequentar espaços religiosos por medo do julgamento ou da incompreensão.
A interseção entre fé e neurodiversidade exige uma teologia aberta à pluralidade da experiência humana. Como escreveu o filósofo francês Jean Vanier (1992), fundador da Comunidade Arca, dedicada à convivência com pessoas com deficiência intelectual: “as pessoas mais vulneráveis não apenas têm lugar na Igreja, mas nos revelam o rosto mais humano de Deus.” A inclusão religiosa, nesse sentido, não é um favor, mas uma oportunidade de humanização recíproca, em que todas e todos podem crescer espiritualmente.
- Perspectivas Teóricas e Boas Práticas
A reflexão sobre a inclusão religiosa de pessoas com deficiência tem ganhado corpo nas últimas décadas, com o surgimento de abordagens teológicas, filosóficas e ativistas que reivindicam o direito à espiritualidade plena e à participação comunitária em espaços de fé. Nesse cenário, algumas contribuições teóricas têm se destacado por desafiar paradigmas tradicionais, propondo uma transformação profunda das práticas religiosas, das estruturas físicas e da linguagem litúrgica.
Um dos principais nomes brasileiros nessa área é Emílio Figueira, teólogo, psicólogo e pesquisador com deficiência congênita, que propõe a chamada Teologia da Inclusão. Para ele, “as pessoas com deficiência devem ser vistas como sujeitos espirituais ativos, com vocações, dons e experiências religiosas legítimas, e não como simples objetos de caridade ou de milagres” (FIGUEIRA, 2015, p. 39). Figueira questiona o modelo assistencialista comum em muitas igrejas, que tolera a presença das pessoas com deficiência apenas como receptores de cuidados, sem permitir sua participação plena nas atividades religiosas, na liderança e nos ritos. Sua proposta exige que a teologia cristã, e por extensão qualquer tradição religiosa, reconheça e valorize a espiritualidade que emerge de corpos e mentes diversos.
Nesse mesmo campo de reflexão crítica, a Teoria Crip, desenvolvida por estudiosos como Robert McRuer e Alison Kafer, oferece uma importante lente analítica para pensar a inclusão além da acessibilidade física. Para McRuer (2006), “a sociedade está organizada em torno da expectativa de corpos e mentes ‘normais’ — o que exclui automaticamente aqueles que fogem do padrão”. Já Kafer (2013, p. 54) argumenta que inclusão não é apenas permitir a entrada de pessoas com deficiência nos espaços religiosos, mas reformular os próprios espaços e tempos litúrgicos para acolher ritmos, sensibilidades e modos de atenção diferentes. Ela propõe uma prática inclusiva que leve em consideração as necessidades cognitivas, sensoriais e relacionais de pessoas neurodivergentes, como autistas, disléxicos ou pessoas com deficiência intelectual.
Essa concepção é reforçada por autoras como Claudia Werneck, referência na defesa da comunicação inclusiva e dos direitos das pessoas com deficiência. Segundo ela, “a comunicação acessível é condição para a cidadania plena — e isso inclui a vida religiosa, que também é um direito” (WERNECK, 1997, p. 72). Sua perspectiva reforça que a linguagem simples, o uso de imagens, a tradução em Libras e a adaptação de materiais religiosos são práticas necessárias para que as pessoas com deficiência possam não apenas compreender, mas interagir ativamente com os conteúdos espirituais.
Algumas boas práticas já vêm sendo desenvolvidas, ainda que pontualmente, em comunidades religiosas mais sensíveis à temática da inclusão. Entre essas práticas, destacam-se:
- Celebrações adaptadas, com linguagem acessível, duração reduzida e menor estímulo sensorial, pensadas especialmente para pessoas com TEA;
- Liturgias em linguagem simples, facilitando a participação de pessoas com deficiência intelectual e dislexia;
- Uso de comunicação visual e música adaptada, promovendo uma experiência espiritual multisensorial;
- Formação de lideranças religiosas para o acolhimento de fiéis com deficiência;
- Criação de ministérios inclusivos, onde pessoas com deficiência assumem papéis ativos como coroinhas, músicos, conselheiros ou líderes.
No contexto do Cabo de Santo Agostinho, ainda que tais iniciativas não estejam amplamente sistematizadas, há experiências isoladas — sobretudo em comunidades evangélicas de base e centros espíritas — que buscam romper com o modelo capacitista, oferecendo atendimento pastoral personalizado, visitas domiciliares inclusivas e, em alguns casos, formação continuada sobre acessibilidade espiritual. Contudo, essas ações ainda carecem de maior apoio institucional, articulação com o poder público e reconhecimento teológico.
Como aponta Tom Shakespeare (2006), um dos mais respeitados teóricos da deficiência no campo dos direitos humanos, “a inclusão não se realiza com boas intenções; ela exige práticas concretas, mudanças estruturais e o reconhecimento da dignidade de todas as formas de vida”. A espiritualidade não é um privilégio de quem compreende dogmas teológicos, mas um direito existencial que deve ser garantido em sua multiplicidade de formas, sentidos e linguagens.
- Recomendações para Políticas e Comunidades Religiosas
A construção de espaços religiosos verdadeiramente inclusivos exige mais do que boa vontade: requer ação planejada, articulação institucional e formação crítica. A inclusão das pessoas com deficiência no campo da espiritualidade só se efetiva quando lideranças religiosas, agentes públicos e comunidades de fé reconhecem que a exclusão não é natural, mas resultado de estruturas capacitistas que precisam ser desconstruídas. Como afirma Tom Shakespeare (2006, p. 44), “a inclusão é um processo ativo, que exige transformação dos ambientes, das atitudes e das relações sociais.”
Com base nas discussões teóricas apresentadas e na realidade observada em municípios como o Cabo de Santo Agostinho, propõem-se as seguintes recomendações para o fortalecimento das políticas públicas e das práticas religiosas voltadas à acessibilidade e à inclusão espiritual de pessoas com deficiência:
6.1 Mapeamento local e diagnóstico participativo
O primeiro passo é realizar levantamentos participativos nas comunidades religiosas, a fim de identificar quantas pessoas com deficiência participam (ou deixaram de participar) das atividades espirituais, bem como quais barreiras enfrentam. Esses diagnósticos devem considerar não apenas as deficiências físicas, mas também as intelectuais, sensoriais e neurocognitivas. Para Claudia Werneck (1997, p. 26), “sem diagnóstico, não há estratégia eficaz. E sem ouvir os sujeitos da inclusão, as soluções tendem a ser paternalistas e ineficazes.”
6.2 Formação de lideranças religiosas para o acolhimento inclusivo
É fundamental promover a formação contínua de pastores, padres, pais e mães de santo, dirigentes espíritas e demais lideranças religiosas sobre os direitos das pessoas com deficiência, suas necessidades específicas e os princípios da inclusão. Como propõe Emílio Figueira (2015, p. 59), “a Igreja deve ir além da boa intenção: precisa se capacitar, dialogar com a diversidade e assumir a responsabilidade pastoral da acessibilidade espiritual.” Essa formação deve incluir temas como capacitismo, comunicação inclusiva, acessibilidade arquitetônica e diversidade neurocognitiva.
- Adequações físicas, comunicacionais e simbólicas
Entre as mudanças estruturais necessárias estão: Instalação de rampas, corrimãos, pisos táteis e banheiros adaptados; Disponibilização de intérpretes de Libras, sistemas de audição assistida e legendas em vídeos; Produção de materiais litúrgicos em linguagem simples, uso de imagens, música adaptada e dramatizações como ferramentas inclusivas.
A acessibilidade deve ser pensada não como um “custo”, mas como uma expressão do direito à fé. Como alerta Alison Kafer (2013, p. 67), “acessibilidade não é um adendo à estrutura existente, mas um novo modo de estruturar a experiência comunitária e religiosa.”
6.4 Parcerias intersetoriais
As comunidades religiosas não devem agir isoladamente. É necessário construir parcerias com instituições públicas e privadas que atuam na promoção da inclusão, como escolas de educação especial, centros de reabilitação, serviços de saúde mental, conselhos tutelares e organizações de defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Tais parcerias favorecem o acesso à formação técnica, à escuta qualificada e ao encaminhamento adequado de casos que extrapolem a esfera religiosa.
Além disso, como sugere Sueli Carneiro (2003), “a articulação entre movimentos sociais, coletivos religiosos e políticas públicas é condição para a democratização do espaço simbólico e da vida comunitária.”
6.5 Advocacia local e presença nos conselhos de diversidade
Por fim, recomenda-se que as lideranças religiosas e as pessoas com deficiência atuem na incidência política local, exigindo que a questão da deficiência seja incluída nos conselhos municipais de diversidade religiosa, cultura, educação e direitos humanos. Essa representação institucional é fundamental para que as necessidades da população com deficiência deixem de ser invisibilizadas nas formulações de políticas públicas.
Como destaca Robert McRuer (2006), “a marginalização da deficiência é um sintoma da organização normativa da sociedade — e é por isso que a transformação deve ser também política e não apenas simbólica.”
Incluir pessoas com deficiência nas comunidades religiosas não é apenas um gesto ético ou uma ação pastoral. Trata-se de um compromisso com os direitos humanos, com a justiça social e com a dignidade espiritual de todos os sujeitos, independentemente de sua condição física, intelectual ou sensorial. É dever das comunidades religiosas — católicas, evangélicas, espíritas, afro-brasileiras ou de qualquer tradição — rever suas práticas, desconstruir o capacitismo e abraçar uma espiritualidade verdadeiramente inclusiva.
- Considerações Finais
A pesquisa realizada evidencia que o cruzamento entre religião e deficiência é um território crítico e fecundo, onde se revela, de forma contundente, a necessidade de repensar modelos de espiritualidade, inclusão e cidadania. Em um município marcado pela diversidade religiosa como o Cabo de Santo Agostinho, compreender essa interseção não é apenas uma exigência metodológica — é um imperativo ético, político e teológico.
As tradições religiosas, que por séculos foram tanto fonte de consolo quanto de exclusão para pessoas com deficiência, encontram-se hoje diante de um desafio histórico: reconhecer e acolher a pluripossibilidade de corpos, mentes e subjetividades na vivência da fé. Como aponta Emílio Figueira (2015, p. 41), “as comunidades religiosas precisam passar de uma atitude de tolerância passiva para uma teologia da presença, onde as pessoas com deficiência sejam reconhecidas como agentes espirituais e comunitários.”
Esse reconhecimento passa necessariamente pelo enfrentamento do capacitismo estrutural, que se manifesta tanto em barreiras arquitetônicas quanto em discursos e práticas litúrgicas excludentes. Como bem afirma Alison Kafer (2013, p. 74), “não há inclusão real enquanto os espaços religiosos forem construídos em torno de um ideal normativo de corpo e cognição”. A transformação que se exige é, portanto, mais do que técnica — é teológica, simbólica e institucional.
No caso do Cabo de Santo Agostinho, os dados do Censo 2022 e a realidade observada nas comunidades locais indicam uma lacuna estatística e política sobre o lugar das pessoas com deficiência nas práticas religiosas. Embora o município apresente um número expressivo de fiéis e uma intensa vida religiosa, a participação plena das pessoas com deficiência ainda está muito aquém do desejável. Essa exclusão invisibilizada compromete direitos fundamentais: o direito à fé, à pertença cultural, à expressão simbólica e ao reconhecimento da dignidade.
Como enfatiza Tom Shakespeare (2006), a inclusão verdadeira exige transformações estruturais e relações de reciprocidade, nas quais a pessoa com deficiência deixa de ser um objeto de cuidado para tornar-se sujeito ativo na construção da comunidade. Essa perspectiva é reafirmada por Jean Vanier (1992), para quem “os mais vulneráveis não são um peso para a Igreja; são sua alma mais profunda”.
Também é necessário destacar, como aponta Claudia Werneck (1997, p. 82), que a comunicação acessível é um pilar da inclusão. Isso vale não apenas para o conteúdo das mensagens religiosas, mas para todo o ambiente simbólico que sustenta a prática da fé: linguagem, liturgia, gestos, sons, materiais e modos de convivência. Criar ambientes espiritualmente acessíveis é, nesse sentido, uma expressão concreta da justiça social e da dignidade humana.
Por fim, a construção de políticas públicas eficazes depende do diálogo entre o Estado e as organizações religiosas, numa perspectiva intersetorial que envolva saúde, educação, assistência, cultura e direitos humanos. Incluir a dimensão da deficiência nos conselhos municipais de diversidade religiosa e cultural é um passo importante nesse processo, como também o é o incentivo à formação continuada de líderes religiosos e agentes pastorais.
Assim, reafirma-se a urgência de um compromisso coletivo com a dignidade espiritual das pessoas com deficiência, que ultrapasse a retórica da “inclusão” e se materialize em ações concretas, políticas públicas e mudanças profundas nas práticas comunitárias e religiosas. Como ensina Sueli Carneiro (2003), “toda exclusão é uma forma de violência, mas toda inclusão consciente é uma reparação histórica.”
Referências Principais
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VANIER, Jean. A Comunidade: lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 1992.
WERNECK, Claudia. Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva. Rio de Janeiro: WVA, 1997.
*Ricardo Jorge Silveira Gomes – Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Especialista em Metodologia do Ensino pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Licenciado em História pela Faculdade de Formação de Professores da Zona da Mata Sul (FAMASUL). Membro Efetivo da Academia Cabense de Letras – ACL. Membro Efetivo do Instituto Histórico, Arqueológico, Geográfico e Cultural do Cabo de Santo Agostinho – IHAGCCABO. Seis Livros Publicados: GOMES, Ricardo Jorge Silveira. A Jornada de Trabalho do Docente: Ritual de deveres, restrições de direitos. Editora Universitária/UFPE.Recife.2020. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Pode confiar, ele é crente! Igrejas Pentecostais e as eleições cabenses de 2004. Editora Bagaço. Recife, 2018. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. Vozes da Educação – Dialogar. Volume VII. A abordagem Freireana e as Ciências da Religião: construindo pontes rumo a Educação e Diversidade Cultural. São Paulo. 2018. GOMES, Ricardo Jorge Silveira. ACADEMIA DE LETRAS DE ESCADA – VIII ANTOLOGIA de textos Científicos – O Empreendedorismo de Madre Iva. João Pessoa, 2020. GOMES, Ricardo Jorge Silveira Gomes. DA MISSA Á MILITÂNCIA: A trajetória Religiosa/Política do Padre Antônio Melo costa no município do Cabo de Santo Agostinho/PE (1963-1977). Curitiba – Appris, 2023. GOMES, Ricardo Jorge Silveira Gomes. Erivaldo Alves: Uma jornada de fé em ação acolhedora. Editora Inovação. 2025.
[2] – Abordagem interseccional = uma forma de análise que considera como diferentes marcadores sociais (raça, classe, gênero, deficiência, religião, etc.) se combinam para criar experiências particulares de desigualdade, exclusão ou privilégio.
