Peça A mãe de Juçaral homenageia a missionária francesa Colette Catta
José Ambrósio dos Santos*
Em 05.11.2025
Estudantes secundaristas do Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife, realizaram ontem uma bela homenagem àquela que ficou conhecida como a mãe de Juçaral. Falecida no dia 04 de novembro de 2016, aos 95 anos de idade, a enfermeira e missionária francesa Colette Marie Josephe Catta protagonizou uma das mais belas histórias de amor e dedicação aos mais pobres vividas naquele município nas últimas cinco décadas, salvando crianças da morte iminente por desnutrição e mudando o futuro de centenas de jovens cujo destino era a dureza dos canaviais ou os biscates no paupérrimo povoado encravado em meio a engenhos de cana-de-açúcar.
Durante cerca de meia hora, quatro moças e três rapazes adolescentes do Colégio Estadual Colette Catta encenaram a peça A mãe de Juçaral, baseada no livro A MÃE DE JUÇARAL, do jornalista José Ambrósio dos Santos, lançado em 2023.

A fome que assolava Juçaral na década de 1970, quando Colette lá chegou, em 1974, é destacada no enredo. Jovens param de jogar bola por não suportarem mais a fome.
“Não consigo mais brincar”, lamenta um dos jovens.
“Por que passamos fome”, protesta a seguir.
“Assistia mães fecharem portas e janelas e sair na madrugada para ir aos canaviais, deixando crianças de nove anos cuidando de outras mais novas. Também vi mulheres prepararem comida para seus maridos bêbados, enquanto seus filhos, com fome, desmaiavam. A cada 15 dias morria uma criança.”
Colette Catta – página 24 do livro A MÃE DE JUÇARAL
A peça dirigida pelo professor, ator e diretor de teatro Antônio Arnaldo também destaca a rejeição inicial sofrida por Colette. Abrigada e apoiada pelo padre belga Charles de Becco (padre Carlos, como era chamado), sendo, portanto, como o padre, uma estrangeira, e pelo relacionamento de ambos com o então Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, era vista com desconfiança. Tachavam-na de comunista. O Brasil vivia sob a ditadura Civil-Militar instaurada em abril de 1964. O presidente era o general Ernesto Geisel e o governador de Pernambuco Moura Cavalcanti. O padre Carlos é também homenageado na peça.
Inspirada na vocação religiosa (foi freira até 1973 da Congregação das Irmãzinhas da Assunção) e na determinação de se doar herdada da avó materna Aline Bricard (1855-1936) que a ensinou a amar a quem não tem nada, e não apenas a dar esmolas, e abdicando da vida abastada assegurada pela família pertencente à aristocracia francesa, Colette enfrentou as adversidades, mobilizou apoios e fundou a Escolinha e a Creche Irmãozinhos de Esperança, que até hoje funcionam abraçando e educando dezenas de crianças.
Para isso contou com o apoio de familiares e amigos franceses, além de ONGs como a Visão Mundial, Lês Freres D’Esperança e a Associação Les Amis de Juçaral fundada pelos franceses Christophe Marquer e Didier Beauchet, que passou a produzir suco de maçã na França e a destinar a arrecadação com as vendas à ação de Colette.
Em 1989, para assistir e oferecer perspectivas aos jovens cujo destino eram a dureza dos canaviais ou os biscates, Colette criou a Comunidade Arca de Noé, que ganhou esse nome para revelar a sua amplitude. Ela não fazia qualquer distinção. Sabia que batiam à sua porta na esperança de mudar de vida estudando, refletindo, orando, vivendo em comunidade, trabalhando e se preparando para o futuro.
“Dos primeiros, muitos estão formados, casados, com saúde. São hoje homens e mulheres que pensam.”
Colette Catta – página 53 do livro A MÃE DE JUÇARAL
O apoio do prefeito Elias Gomes (1983/1988), (1997/2000 e 2001/2004) muito ajudou para a consolidação e expansão dos trabalhos. Presente à homenagem, Elias Gomes se emocionou e sintetizou o seu sentimento em uma frase: “Colette Catta vive!”
E é com essa mensagem – de que o legado de Colette Catta permanece vivo – que a peça finaliza. A narradora declama frase emblemática de Colette:
“Acho que cada um tem uma missão a cumprir e a minha é de viver no meio dos pobres, tentar não fazer perder a esperança.”
Frase em moldura na parede da sala da casinha humilde em que viveu por mais de 40 anos em Juçaral – página 134 do livro A MÃE DE JUÇARAL – e também em seu túmulo ao lado da capelinha de pedra, por trás da casinha.
Os estudantes encerram afirmando em coro que a missão de Colette é agora também deles e da comunidade.
As homenagens que marcaram nove anos do falecimento de Colette Catta encerraram-se com uma missa celebrada pelo padre Paulo Santos, reitor do Santuário de Aparecida de Juçaral.
José Ambrósio dos Santos é jornalista, escritor e integrante da Academia Cabanse de Letras.
Imagem destaque: Estudantes durante encenação da peça A mãe de Juçaral. Foto – José Ambrósio dos Santos
