Ao Lô Borges, com todo nosso amor!
Tereza Soares*
Em 06.11.2025
Nós, os amantes da MPB estamos todos bem abalados e sentindo falta, desde já, desse ser grandioso, o Lô Borges, que até o dia 02/11, estivera no mesmo plano que nós! Mas que agora parte para a luz. Que sua arte e sua doçura permaneçam entre aqueles que curtiram suas canções de sonhos e quimeras e que adormeça na nossa janela lateral, com sua mente brilhante de menino de prodígios musicais. “Tudo o que você podia ser”…você foi Lô. Suas letras psicodélicas descreveram uma Minas ao alcance de qualquer brasileiro, nos lembrando quem somos, gostando de andar de trem, de tomar banho no ribeirão e olhar a paisagem da janela.
Lô Borges foi importante demais como artista que despertava a alma poética e foi referência para uma geração de sonhadores nesse país! Só nos resta solicitar que ele seja amparado pelos mestres de luz, anjos e elohins. Que sua passagem seja leve como ele foi, seja harmoniosa como ele foi, seja em paz, enfim!
Sim, ele tornou possível a quem escutou suas canções apreciar o além como o agora, o outro lado como um lugar logo ali e o amanhã como o eterno. Suas músicas não são apenas baladas harmônicas cheias de acordes puxados ao jazz ou indo além da bossa nova, passando pelo rock psicodélico, pop barroco e ritmos latino-americanos, mas contém sabedoria, cheiro de mato e muita magia. Nunca outra poesia musicada foi para mim assim, como um tratado de vida, que me ensinou sobre paixão e liberdade e que faz as almas se encontrarem pelo espaço afora.
Lô foi como um mago em suas letras de alto teor metafisico. E foi esse encantamento que eu vi na canção Força do Vento, em que se diz: “Quem se apossa assim tão fácil. É, não vai muito além, pois na força da manhã. Posso ser muito valente. Pra vencer no espaço e te achar”. Fui apanhada aí por algo enigmático, que me levou para uma outra atmosfera e nunca mais voltei.
Salomão Borges, do Salomão veio o Lô. Ele conheceu o Milton Nascimento na escada do edifício Levy, no centro de BH, e essa parceria e irmandade rendeu um turbilhão de músicas para o Brasil e o mundo. Um encontro que parecia feito de acaso elevaria o nível da nossa música para sempre. Em suas letras, Lô descreveu como ninguém a alma do mineiro e foi ele próprio esse mineiro em tom maior. E quando alcançou o coração de tantos brasileiros em quem bate coração mineiro também, se tornou universal. Não é a toa que o Álbum de 1972 de Lô Borges e Milton Nascimento, Clube da Esquina, alcançou tanto reconhecimento. Foi eleito o melhor álbum brasileiro em maio de 2022, tornando-se o número um em uma lista dos 500 maiores álbuns brasileiros de todos os tempos, feita pelo podcast Discoteca Básica.
Um trabalho que foi incluído em listas de álbuns internacionais: Em junho de 2024, o disco obteve o reconhecimento da Paste Magazine, indicando-o entre os 10 melhores álbuns de todos os tempos. Reconhecimento que também transitou pelo rock latino: Em setembro de 2023, Clube da Esquina foi eleito pela revista Rolling Stone como o melhor álbum brasileiro em uma lista desse gênero musical.
Por tudo isso não tenho palavras para expressar essa saudade desde já. Nunca o conheci pessoalmente, só fui a shows, tenho um dvd acústico e curti muito CDs e álbuns do Youtube Music. E ficamos por aqui pensando…estão indo embora aqueles que deram alma às páginas de nossas vidas, tecidas nessa poesia onírica, em que nenhum mal nos alcança, porque acreditamos que “sonhos não envelhecem”. Mas como ele mesmo disse na canção, “Se eu morrer não chore não, é só a lua”, sigo por aqui contendo as lágrimas, recolhendo o que ficou da herança ontológica deixada por esse gênio inesquecível, para levar pra adiante no coração da crença de que um amanhecer melhor nos aguarda.
Que possamos entender essa partida como uma breve despedida. Lô Borges só temos o que te agradecer! Você iluminou nossas almas com canções que alentaram nossos destinos. A poesia se enriqueceu com a tua inspiração e agora essas canções ficarão nos lembrando que de fato somos seres eternos. Gratidão por tudo!
O Clube da Esquina, onde o violão do Lô reuniu a melhor trupe musical brasileira de todos os tempos não é um lugar físico, é um patamar, onde um vai levando o outro a atingir, até todos chegarem lá nesse estágio, numa “noite equatorial”. Que vivamos o Clube da Esquina sempre, baseados no conceito da não localidade quântica, onde tudo é possível, pois como se cantou, “Nesta noite equatorial, Eu vou sair outra vez, Onde morre a trilha do meu silêncio, Vou te buscar”.
*Tereza Soares é jornalista e poetisa. Em 05/11/2025
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